quinta-feira, 18 de junho de 2015

Instantes Haicai

estrela caindo
rastro azul no céu
janela do pinel




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                                  janela aberta
                             bate asas beija-flor
                                 anúncio de amor


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lá vem o vento
a folha estremece
cair não apetece


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                                                 o sonho foi breve
                                          culpa do despertador
                                              que não me esquece


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         pingos na calçada
chuva deixa sombrinha
       mal-humorada


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Pergunta


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O que será
que se passa
para além
do território
das nossas
tantas
CERTEZAS


[interrogação]






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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Por um breve ínterim

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A verdade é que tudo demora muito. E toda demora, é uma prisão. Nela, você entra, e acha que nunca mais vai embora. Às vezes, fica lá pra sempre. Mesmo que não. Você me ensinou a demora. Você começou isso em mim. Só que eu abri mão das lamúrias, porque mesmo presa nesta demora, a gente se encosta, por dentro. E isso me abre uma porta pro céu. Não perco de vista teus sinais, só que deste lado de cá só há uma alternativa, e ela é prosseguir. Ainda que sem sair do lugar. Todo mundo pergunta por novidades, como se novidades fossem possíveis assim, todo dia... Não rola. Rola coisa boba, e rola de deixar rolar a alegria pelas coisas tolas, tipo aquele chapéu vermelho que eu comprei e nunca usei, mas amei comprar. Eu amo um monte de coisa apesar de... É importante que você saiba que alguns dias até são bons. Muito bons mesmo! Não que a mente se esvazie da ausência tua, é só que ela acostuma, e a gente vai mudando de cara, mudando de jeito, mudando de boniteza, se assusta e depois do susto se acostuma,  e envelhecer passa a ser um pouco mais doce que é pra poder ser apontada como uma boa velhinha mais logo ali, na próxima esquina. Educo meus sentidos para não querer demais. Isso acalma. O tempo tem sido gentil desde que me assentei, desde que aceitei que não serei metade de nada que pensei, desde que abri mão da chateação de te ter passeando e rondando minhas lembranças e  transferi você da mente para o coração. Sem conexão. Porque a terra que forma a mente é feita de memórias, e elas são estranhas, alternam-se conforme o dia, a emoção, a raiva, ou a alegria, enquanto que no coração o domínio extrapola a razão, e nos conecta por mistérios cósmicos. Quem existem. E resistem bem. Deve ser a tal da mente universal que nos permite acessar um fluxo genial, superior, onde a prisão é aberta e a gente pode dar cambalhotas e flutuar e dançar e se reconhecer em beleza, em leveza, ares de plena delicadeza. Meu coração é tua guarida. Há tudo aí dentro para que você passe bem, todos os detalhes da mais pura delícia.
 
Li certo dia algo assim:
"a gente risca e vem o destino e rabisca"
 
Território estranho. parece que é , mas o comando não é nosso. Além das forças já conhecidas, ar, fogo, água, terra, há o Destino, seja lá o traço de quem for, há. Então a gente tem que aprender a  improvisar. Improvisar é uma coisa que a gente tem que fazer todos os dias na vida real, que é pra não perder o sabor, que é pra manter o amor, e afastar toda dor, e continuar. Ainda que pareça estranho. Ainda que pareça insano abrir mão. O que nos resta, senão?... Ainda  que a demora doa, lateje sem ter  fim, ainda que pareça que isso nunca terá fim , e mais  ainda que pareça que você só exista assim, bem cá dentro de mim, e que  palavras tão lentas não revelem nada, dentro deste breve ínterim.
 
 
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quinta-feira, 4 de junho de 2015

FICA

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Quantas vezes a gente já não teve aquela vontade de dizer:
_ FICA
 
fique um pouco mais! Não vá se embora ainda. Tem um milhão de coisas que ainda não foram ditas. Tantas coisas que não foram feitas. Tantos abraços que não foram dados. Tantos instantes que ainda nem foram sonhados, quanto céu estrelado, pra ver assim, bem do seu lado, sob um luar iluminado, tem o outono e o meu cabelo molhado,  o teu cheiro adorado,  e mais esse desejo abestado de querer encompridar as horas, que é pra  ficar bem colado, dentro de um silêncio pronunciado de suspiros, olhando  aquela frase no alambrado do muro  do jardim ao lado, damos aquele olhar alongado, feito o
olhar amedrontado de uma gato escaldado, lembro de você ter perguntado, pra que medo da água fria, dentro desse lago afogueado?, lânguidos e platônicos, somos versos entrecortados, há que se estar conformado, é  até catatônico esse nosso folhetim,  mas oque podemos fazer se ele nasceu assim, começo sem fim?..._ aí de você se partir de mim, sem que eu possa dizer, quantas vezes eu tiver afim, aquela frase do muro ao lado, cê já tá até acostumado, ao meu chamego que diz:
 
_ fica!
não sai de perto de mim!...
 
 
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