sábado, 22 de fevereiro de 2014

Albert

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Então, Albert chegou ao parque. O mesmo parque onde estivera tantas vezes, sempre fazendo perguntas Àquele a quem acreditava que não jogava dardos com o destino. Mas havia algo fora do lugar. Na verdade, havia mais alguma coisa naquele lugar. No mesmo banco em que se assentara tantas vezes para observar a luz que se desloca tão lindamente nos finais de tarde, havia uma moça. Uma moça de cabelos cor de lua, olhos distantes e que parecia tão bem acompanhada apesar de estar só. Albert, num primeiro monento pensou tratar-se de uma incomodação, afinal, aquele banco oferecia uma ótima visualização de todos os arredores do parque, trezentos e sessenta graus de pura luz e observação. Claro que haviam outros bancos disponíveis, o parque estava vazio na verdade, poderia sentar-se em qualquer um deles,mas pensou que não seria cortês da sua parte, cavalheiro à moda antiga que sempre fizera questão de ser, ignorar a presença da moça, como se ela ali não estivesse, e sendo assim, aproximou-se, não sem pensar tratar-se de uma certa ousadia da sua parte. Encorajou-se, no entanto, pensando, _ o que seria da vida sem os atos ousados que um ser pode ser capaz fazer?

Aproximou-se, não sem certa hesitação, da moça que se chamava Maria. Curiosa criatura. Muito curiosa, inclusive, porque além de não demonstrar qualquer constrangimento com a sua aproximação, de antemão, sorria-lhe. De leve, quase um não-sorriso, daquele meio sim meio não, mais sedutores então. Albert disse: _ Cara senhorita, não quero parecer inoportuno, mas, aprecio por demais este lugar, especialmente este banco, neste lugar, então, gostaria de saber se não seria possível dividirmos este momento, aqui, um em companhia do outro.

Maria, que não era pessoa de se fazer de rogada concordou de pronto. Muito satisfeita, por sinal. Queria alguém para conversar, alguém inédito, com histórias inéditas, algum estranho com quem pudesse perceber-se igualmente inédita. Posto as apresentações, Albert sentou-se, e sentiu-se bem. Bem por estar ali, com Maria. As perguntas continuaram por conta de Albert. Desta vez, perguntou oque ela fazia ali, sozinha, já se fazendo início da noite. Não tens medo?- perguntou. Ao que ela respondeu:
_ Caro Albert, estou tão cansada de ter medo, de ser precavida e adequada e fazer tudo de acordo com todos esses protocolos estabelecidos em cima de verdades sempre tão negativas que sinceramente, deveria lhe responder que sim, sinto medo por estar aqui sozinha, com a noite já se fazendo escura, nem sei que horas fecham-se os portões, ma hoje, hoje eu resolvi que não sentiria medo. E veja você!, resolvi não prestar atenção ao medo, e me chega você, com sua postura tão confiável, oque me faz refletir que, se a gente pensa alguma coisa melhor, maior, e mais elevada para nossas escolhas, elas podem ser boas, afinal.

Albert gostou do que Maria disse. Achou a moça portadora de bons argumentos, um tanto quanto arriscados, mas, sem dúvida, agradáveis de ouvir. Em seguida, foi a vez de Maria perguntar o que ele vinha buscar naquele final de tarde, junto aos últimos raios de sol daquele dia. Albert sorriu seu sorriso bonito, aquele que lhe confere ares joviais, ares de mago talvez, e respondeu:
_ Sabe, Maria, sou um observador. Observador da luz, e das suas variáveis. Gosto de perceber a obra em ação. Os deslocamentos, as ondas, as oscilações, e a beleza disso tudo, junto, acontecendo de forma tão mágica. Venho aqui, nos finais de tarde, amiúde, buscar silêncio e comunicação. Não espalhe para ninguém, mas, ( disse entre risos), sempre que estou aqui, percebo que nunca chegarei à lugar nenhum nas minhas observações, nas minhas teorias, e nas minhas certezas, mas alguma coisa neste conjunto de naturezas tão lindas me diz, em seu silêncio, que vale à pena, mesmo assim, procurar. Maria pareceu entender, porque assentiu com a cabeça, pensativa.

Então, Alber pergunta à Maria:
_ Minha cara, 'o mundo lhe parece um lugar amigável'?

Maria parece gostar da pergunta, que lhe desafia:
_ Não sei. Mas suponho que seja. Este lugar, por exemplo, é muito amigável. E faz parte do mundo. Se existem lugares amigáveis, o conjunto destes lugares torna o mundo muito amigável. Pensando bem, o mundo tem sido tão amigáve comigo, conheci dele coisas tão bonitas, tanta beleza. Como poderia dizer que o mundo não é amigável, olhando para o mar, por exemplo? Ou deitada na minha cama, tão quentinha. Ou na casa de minha avó, com todos aqueles aromas, café, bolo, geléias, ou na padaria do seu José, ou na companhia de amigos que estimo, debaixo de uma árvore, cheia de frutos, , ou aqui, com você?... Creio que o mundo seja sim, um lugar amigável, Albert, e creio que cabe à nós fazer dele cada vez mais amigável, não?

Então, Albert fez mais uma pergunta curiosa. Perguntou se Maria era capaz de ouvir a música daquele lugar. Sabia que ela seria, podia sentir dentro daqueles tempos suaves de sua fala tão comum e especial ao mesmo tempo, que sim, mas perguntou mesmo assim. Maria confirmou que sentia uma música suave soprando em seus ouvidos, quase como se fosse um convite da vida para dançar.

Então, Albert não se fez de rogado:
_ Minha querida, você fez deste lugar, um lugar ainda mais amigável para mim. Você ouve a música que toca apenas àqueles seres atentos aos mistérios. Isso me deixa feliz. Já que estamos aqui, e partilhamos desta música tocada por este mundo tão amigável, concederia-me o prazer de uma dança?

E de pronto, como num salto, ela diz:_ Mas, claro!

E puseram-se a dançar,
sob os olhos do tempo,que naquele instante, resolveu parar de passar,

para Albert,
e Maria, nunca pararem de acreditar na música amigável que o mundo é capaz de tocar.


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