sexta-feira, 28 de junho de 2013

CASAS


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As casas velhas de lá, não são como as daqui, neste jovem lugar que tem tanta pressa de se livrar do que é antigo. Lá elas são preservadas. Aqui, elas são derrubadas.  Entre prédios e avenidas, no entanto, ainda existem casas. Velhas casas de lembrar felicidades antigas. Casas de frente acanhada que guardam algum segredo que foi perdido na aceleração do tempo. O tempo aqui tem pressa. E gosta mais dos prédios do que das casas. Poucas resistem e permanecem. E permitem lembrar. Lembrar que toda casa que se preze tem quintal. E todo quintal que se preze tem árvores. Caipiras árvores frutíferas para a gente poder comer fruta no pé. Nem que seja um limoeiro. Aquela árvore desengonçada, meio sem gracise, muitas vezes até nanica de tudo mas que produz os limões mais doces do mundo. Limões doces. Só mesmo uma casa velha guarda em seus fundos um pé de limão que nunca será azedo. Crescem às pencas, alaranjados, primo-irmãos da laranja em tamanho, doçura e cor. Deles teremos a limonada mais arretada, o tempero perfeito pras saladas, a cor, o sabor, a lembrança. A fruta ao alcance das mãos. Nos fundos de uma casa velha. Nunca num playgroud. Não gosto de prédios. Não gosto de casas com design. Não gosto de modernices que mais parecem esquisitices. Tudo tão frio, desprovido do valor mais certo, a ternura de abrigar. Abrigo. Casas eram para ser isso: acolhida, abraço, amor, acalanto. Janelas abertas, murinho baixo, varandinha, cores suaves, mais cores, muitas cores, de todas as cores, pra vibrar, pra mostrar que lá dentro mora gente, gente boa, gente que sempre terá café no bule, um petisco, um tira-gosto, um molha-goela, uma conversa, energia, vida, abundância. Casa que a gente não se acanha de bater porque antes de mais nada, é ela quem chama. Diz com seus tijolinhos de dois furos amontoados um coro: bem-vindo cidadão que passa! Chegue, se aprochegue, não tenha medo, você existe aqui. As casas velhas estão sumindo. No lugar delas, pipocam prédios de pastilhas frias e cinzentas, interiores de mármore e granito,  e gente pouco aquecida que nunca saberá o quanto um limão pode ser doce.


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sexta-feira, 21 de junho de 2013

Um Mundo

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Afinal,
o que é preciso além de


um  livro
dois cafés
três  flores
e algum afeto

para ser feliz?



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quinta-feira, 20 de junho de 2013

Corações

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A poesia pode ser tão simples
quanto uma chave que perdeu-se da sua porta:

_  dispensada do peso de ser útil, vira uma chave qualquer
mas ainda assim, com o poder que lhe foi concedido,
o poder de abrir portas.


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domingo, 16 de junho de 2013

Não pára!

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"Nosso planeta gira veloz pelo cosmos,
mas esquecidos disso, nos deitamos tranquilos
à beira do mar e DORMIMOS."



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sábado, 15 de junho de 2013

A Grande Tratadora de Galinhas

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Tem gente que nasceu para os grandes feitos. São as super-gentes. Fazem todo tipo de coisa grandiosa: fazem arte grande, grandes descobertas, portam grande beleza, são gente como aquelas estrelas de maior grandeza que definem no macio chão do céu os destinos de quem nasceu para fazer grandes coisas pelo mundo que é um lugar danado de grande. 

Também tem gente que nem é grande mas faz com grandeza as coisas pequenas. Formiguinhas que vão fazendo bem-feito suas pequenas coisas que somadas à tanta gente que faz, vão fazendo o grande acontecer. Elas aumentam o mundo com seus corações grandes. 

Eu não sei fazer grandes coisas. De maior que eu fiz foi conseguir fazer uma pequena horta de manjericão no nosso pequeno jardim. Plantei as sementes e porque elas são grandes como sementes, por algum milagre que desconheço, germinaram, bem grande, e perfumam os ares detrás da nossa casa. E fazem  maior nosso molho de tomatelos do jantar. 

Fazer qualquer coisa não deve contar como grandeza, mas sei fazer um feijão muito bom. Sei sorrir quando tenho vontade de xingar. Sei controlar as palavras feias de forma que não sejam ditas para dar grandeza ao mau-estar, e sei calar na maior parte do tempo, uma coisa que não tem nada de grande mas previne maiores contratempos.

Sei bordar tapetes. Em ponto arraiolo e cores suaves. Já fiz uns grandes, mas não creio que ficaram grandes coisas aos olhos dos outros. Grande que eu fiz foi pintar um quadro que repousa grande em nossa sala. Tenho grande orgulho dele, embora nenhum grande traço o caracterize. É que tenho grande amor por ele desde que tive coragem de contemplá-lo. Ele me fala das coisas grandes que não fui capaz de realizar.

Ás vezes quando o sono não se faz grande, tenho grandes pensamentos. Procuro pelas minhas grandes lacunas, e por grandes respostas. Respostas maiores. Ou quem sabe uma grande ideia que me fizesse sentir alguém maior. Maior assim, nas qualidades. No amor. Não sei ser grandes coisas nos afetos. Tem gente que se entrega grande. Tem abraços enormes e palavras gigentes em alegria. Tem gente que tem o dom de fazer o outro se sentir grande, uma coisa que além de grande, é realmente linda.

Grande é a minha timidez. Minha insegurança que só faz aumentar. E meia dúzia de lembranças, nada de grande, até bem miúdas, não sei porque as coisas mais bonitas são tão pequenas para lembrar enquanto as que doeram estão sempre em destaque nesta minha cabeça não tão grande. Grande contradição. 

Lembrei que quando criança fazia uma coisa que considerava enorme e me fazia sentir muito especial. Alimentava as galinhas no galinheiro quando visitava minha vó. Pensava que aquilo devia ter um valor enorme: alimentar as galinhas. Todas elas. E sozinha. Vovó confiava a mim a gemela de milhos amarelinhos e cabia exclusivamente a mim distribuir igualmente para cada uma das bichinhas. Que me adoravam porque uma coisa grande que eu sabia era ser generosa nas porções. 

Grande vovó, sempre me dizia que as galinhas cresciam mais quando era eu quem distribuía o milho. Ficavam bem gordinhas.  E eu inflava-me toda por ter achado uma grandeza em mim: _  grande tratadora de galinhas. Imagino como se sentem os grandes que fazem bem-feito os seus grandes feitos. Se fôr qualquer coisa parecida com alimentar as galinhas, deve ser a melhor coisa do mundo, algo parecido com ser grande no coração de alguém.


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sexta-feira, 14 de junho de 2013

Se Entregar

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na mira do mar
está a menina

amar é estar na mira
e ainda assim
não recuar


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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Hoje é dia...

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Dia doze. De Junho. Um dia qualquer do calendário não fosse o motivo que o destaca como data. Dia dos namorados. É meio chato. Artificialmente chato. Tem qualquer coisa de obrigatório que não combina com a paixão. Aliás, paixão e namoro são coisas distintas. O namoro começa na mesma cadência de passos que levará a paixão embora. Claro que ela será substituída pelo grande e imenso amor que todo par de namorados acredita e sonha e jura com seus pares de pés juntos que assim será, e não vou ser eu e meu invariável humor que irei contrariar, mas o fato é que o dia existe para lembrar de que é preciso paixão. Não é irônico? Apaixonados não precisam de lembretes, nem de datas, porque como todo mundo que já passou por uma grande paixão sabe, paixão é febre que não larga, exceto quando realizável.

Na noite do dia 12 de Junho também iniciam-se as festividades que comemoram Santo Antônio, santinho camarada tido como casamenteiro, deve ser o santo com a central de pedidos mais congestionado já que toda gente quer casar, coisa muito louca porque, passam-se os anos, as décadas, os séculos, e isso não muda: todo mundo se apaixona, todo mundo namora, e todo mundo se casa, com algumas exceções devido á ineficiência do nosso santinho que daí amarga fitas na cintura, cabeça para baixo e geladeiras invernais.

Muito interessante no dia de hoje é também a comemoração do aniversário das Filipinas e a sua independência. Tudo a ver. Primeiro porque é um paraíso, e segundo porque um paraíso que se preze tem que ser livre. As Filipinas são um reino de águas claras, um mundo à parte dentro do mundo, um vasto arquipélago de 7107 ilhas de origem vulcânica. Um paraíso quente. Agora me diga se um lugar assim não tem tudo a ver com paixão:  celebrar a paixão que resiste ao namoro, ao tempo, às cotidianices, livre e cativa, num lugar assim. Daria até pra sucumbir aos apelos.

E hoje, dia 12 de Junho também é o dia do aniversário do queridíssimo Lianto, um habituè deste espaço, inspirador e poeta, uma pessoa de encanto natural, que faz a alegria existir, e para quem quero desejar a felicidade que ele já possui, a particular felicidade que ele possui de ser quem ele é, natural, leve, apaixonado pela vida, pela alegria, uma espécie de ser de outro planeta, na verdade ele é um planeta que deve ter por missão fazer os dias das pessoas daqui um pouco mais especial. 

Lianto, desejo que você tenha toda a camaradagem de Santo Antônio à seu favor nos favores amorosos que você possa precisar, que a vida seja tua namorada de um amor imorredouro, que você possa estar em muitos lugares maravilhosos ao longo da sua vida, inclusive as Filipinas, um lugar lindo que desejo que você tenha a sorte de  visitar. Feliz aniversário!

E para todos os que acreditam no amor, nos poetas,  na paixão, em namoro, em Santo Antonio, na liberdade, na vida, nas coisas pequenas e nas ilhas que podem revelar segredos:
_  Muitos dias de amor!


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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Flor do Mato

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Se eu fosse uma flor, eu queria ser uma flor amarela. Super viva. Tipo margarida, só que bem longe das mãos dos amantes que insistem em despetalar suas pétalas na ânsia de repostas amorosas. Já ia logo gritando na língua das flores:
_ bem-te-quer, bem-te-quer!

Queria ser uma flor de boas novas. De esperança. De inspiração. De certezas. De alegrias. De mãos cuidadosas que me regassem e meio que sossegassem de me ver no jardim. Queria crescer no quintal de dois amantes felizes que não precisam de vasos para aprisionarem suas pequenas certezas. Queria significar liberdade. Feito as flores dos canteiros que minha vó tinha. Flores caipiras, crescendo juntas e misturadas em tantas formas e cores, enquanto a margarida estava sempre ali, fazendo moldura para as mais vistosas, como as rosas cor-de-rosas, os xodós da minha vó. 

A manhã nasceu tão linda que senti uma desejo de ser flor. Mesmo que uma flor do mato, aquela mais miúda de todas, que para se conseguir ver tem que chegar bem perto, e faz com que corações fiquem comovidos e deixem até o mato em paz. Sem cortar. Queria uma manhã de flor pra você. Mesmo que a sua flor não seja eu.


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sexta-feira, 7 de junho de 2013

Há sempre um sorriso guardado num rosto que parece triste

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é para chegar ao ar
respirar

é ainda onde há vida

_ do Lianto


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Eu já sonhei um castelo de sonhos. Sonhos de castelo. Românticos sempre eram. Sonhos de muitas  cores. Muitos tecidos. Sonhos tecidos daquela maneira de quem não tem talento, mas tem capricho. Sonhar é um ato caprichoso. Se você sonha, é 'porque quer porque quer'. Um capricho. Do que são feitos os sonhos ninguém sabe. Nem os sabidos. Sabidos são os que não tem tempo pra sonhar porque viver lhes ocupa o tempo todo. Achava que era sabida quando menina. Uma sabida que sabia coisas desnecessárias, mas ainda assim, uma menina sabida. Depois você cresce e descobre que não sabe oque era mais importante de saber. Porque saber fazer mínimas coisas bem-feitinhas  não é coisa que gente considera coisa sabida. Sabido é aquele que alcança. E isso não vale pra fruta no pé, nem chegar por último na corrida da rua. Nem para os sonhos mais lindos. Nem pra nada de nada do mundo real. Acho que o mundo real tem raiva dos sonhos. É que  o mundo dos sonhos é mais bonito. Mais puro e mais limpo. Ninguém coloca dentro do seu sonho sentimentos contrários ao que é belo. Não cabe. Se couber é pesadelo, e para pesadelos, basta acordar. 

Eu já sonhei ser bailarina. Também já sonhei ser aeromoça quando menina. O desejo nasceu quando um dia, na escola, a professora de música soube que seria. Estávamos na sala de música em meio á dó-re´mis quando a freirinha entrou na sala apressada chamando a professora pois seu pai a aguardava com a notícia: foi escolhida para ser aeromoça, isso nos tempos em que isso parecia ser  muito mais glamuroso. Ela saiu correndo abraçar o pai, e nós, as alunas, fomos todas para janela do 2.andar pra olhar aquela nossa linda professora sair voando pra não mais voltar. Daquele dia em diante todas as aulas de música nos ensinaram a sonhar. Depois sonhei em ser miss. Também quis ser modista, artista de circo e patinadora de gelo. Distraída das atividades. DDA. Eu queria é voar. O mundo era bom. Ainda é, até. Mais não como nos sonhos. E isso é estranho. Não sei oque traz mais dano, um dia me perdôo por tanto engano.


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sábado, 1 de junho de 2013

O amigo e o filme



Amigo fala cada coisa, né? Fica sem filtro e viaja porque sabe que você vai rir e concordar. Meu amigo anda escasquetado do porquê ninguém faz um filme onde tudo dá certo. Tudo certo do começo até o final. Um filme que falasse sobre um dia que fosse, na vida de alguém onde a sucessão dos acontecimentos fosse suave e calmo como um dia deve ser. Roteiro de delicadezas...
O despertar. Quantas sensações dentro de uma única cena. O que se pensa, o que se projeta, a preguiça, os devaneios, o despertador, o raio de sol pela janela, o barulho da rua, vespertinas miudezas de acordar vivo. A cama. A maciez das cobertas, a sedução de um travesseiro de sonhos, e os sonhos, caso sejam lembrados, escritos rapidinho no caderno que mora ao lado. Mais um filme à parte. O telefone poderia tocar. O anúncio de alguma surpresa. Uma mensagem. Um rabisco amoroso,  anônimo no muro da frente, provocando todas as emoções, dúvida, surpresa, espanto, contentamento, de repente a certeza, a dança da alegria pela casa que abriga. A casa. Os cômodos ainda dormindo, preguiçosos e sem pressa de acordar. A sacada de trás, tons sépia de casa dormida, e num átimo de segundo uma cena enorme onde as cortinas se abrem para um jardim de árvores verdinhas, descortinadas porque oque quer se ver é a esperança de um dia de sonho. E depois a cozinha. A água pra ferver, os vapores de um café fresquinho sendo passado no coador, manteiga, suco de laranja, o mamão docinho num prato antiguinho. O paladar sendo explorado devagar. Um jornal onde só haveriam boas notícias: a cura de alguma doença, a viagem de mil dias de um homem à lua, um ovni que ronda a casa da menina, a festa de aniversário do moço que mora em Salvador, o lançamento de uma canção feliz, notícias sobre o livro. O som das folhas do jornal sendo lidas sem pressa, e um rosto sendo gentilmente focado na alegria...

Uma casa ao acordar. Depois outra. E outra. E outras sem comunicando por janelas, avenidas, ruas, bairros, vilas. Um despetalar suave de margarida. A vida, amiga. Vizinha...


_ Gostei da ideia do meu amigo, mas concluímos que o mundo ainda não está pronto pra inverter a ordem concebida  de que é preciso dor pra conhecer as delícias de uma vida de amor. Certamente não daria bilheteria. Mas se a gente ganhar uma bolada na loteria, daí a gente roda o filme, e distribui de grátis só pra semear alegria.