sábado, 28 de dezembro de 2013

Sonhei contigo!


"Todos os dias atravessamos a mesma rua ou o mesmo jardim; todas as tardes os nossos olhos batem no mesmo muro avermelhado feito de tijolos e tempo urbano. De repente, num dia qualquer, a rua dá para outro mundo , o jardim acaba de nascer, o muro fatigado se cobre de signos."

Quem escreveu foi Octávio paz, citado no livro da ostra feliz que não faz pérola de Rubem Alves.

E eu paro pra pensar porque o amor não acaba. Falo especificamente de um amor sentido por uma pessoa que já foi embora da sua vida. Porque ele permanece, mesmo sabendo-se causa de dor. Porque amor que não se vive, é belo e dói. Então penso no muro fatigado, e no quanto ele pode passar a ser outra coisa se são olhos apaixonados que o contemplam. Há certas coisas que só os apaixonados sabem. Como saber que um muro pode ser uma página em branco aguardando palavras de amor tatuarem-se às suas reentrâncias. Como saber que um madrugadouro muro pode conter um ponto, a sombra de encosto de um ser amado que ali ficou encostado enquanto mirava a janela de sua amada. Como sentir amor por um muro que portou-se como leito para um beijo inacabado. Como saber que um amor pode ser vivido em qualquer tempo, e que ele não se acaba só pelo detalhe de não caber neste tempo, ou neste espaço, de um muro fatigado, como fadiga um amor inalcansável... Certas coisas, só os não apaixonados sabem. Que o muro precisa de pintura. Que as janelas da casa estão corroídas. Que os pombos não são higiênicos. Que as calçadas guardam seres escuros na madrugada. Que existe o perigo fora de casa. Que as portas precisam ser trancadas. E as loucuras de amor trancafiadas. E as vontades sublimadas por tintas, coisas, materialidades e futilidades quaisquer.

Quais signos se há de preferir? A sensatez dos não-apaixonados, ou as insanidades dos tomados por suas paixões imorredouras?

Eu gosto de muros velhos. De casas velhas. De algum capricho. Dos passarinhos. Das poesias. Dos amores. Dos sonhos. Antigos. Desejos. Repremidos. Não contidos pelos muros da cidade. Antes, leitos. Leitos para canções e amorosidades. Encosto para o meu dândi perdido, ser amado, apaixonado, acolhido em seu amor, por este muro que não nos separa.


*

4 comentários:

Pipa. A Pipa dos Ventos. disse...

Minha muito querida Bê,

Passo agora pela rua onde fincastes tua casa. Há flores nas janelas. O que diriam as rosas? O que diriam os aromas? Memórias?! Não poderei me demorar por aqui. Tenho atravessado desertos de papéis. E bem sabes... O extremo de mim continua fora de alcance. Então, deixo-lhe este vaso de não-te-esqueças-de-mim. A despeito de teu sonho, se acaso lhe impedirem de realizar, você ainda pode sonhar. Lembre disso todas as manhãs ao acordar.

Bê,

Alguns chamariam de afasia, outros de dislexia. Os diagnósticos, pouco ou nada importam. Só uma coisa é clara: perdi a fala. E não foi por incapacidade de assimilar as palavras, mas as pessoas. Ao menos restou este último gesto, esta gagueira, este silêncio.

Abraço-te solista, introspectiva, reflexiva. Do fundo frio destes escombros de silêncio, deixo meu desejo de um ano maior, de um ano melhor.

Um beijo.

Sua, para sempre, Pipa.

Pipa. A Pipa dos Ventos. disse...

Minha muito querida Bê,

Passo agora pela rua onde fincastes tua casa. Há flores nas janelas. O que diriam as rosas? O que diriam os aromas? Memórias?! Não poderei me demorar por aqui. Tenho atravessado desertos de papéis. E bem sabes... O extremo de mim continua fora de alcance. Então, deixo-lhe este vaso de não-te-esqueças-de-mim. A despeito de teu sonho, se acaso lhe impedirem de realizar, você ainda pode sonhar. Lembre disso todas as manhãs ao acordar.

Bê,

Alguns chamariam de afasia, outros de dislexia. Os diagnósticos, pouco ou nada importam. Só uma coisa é clara: perdi a fala. E não foi por incapacidade de assimilar as palavras, mas as pessoas. Ao menos restou este último gesto, esta gagueira, este silêncio.

Abraço-te solista, introspectiva, reflexiva. Do fundo frio destes escombros de silêncio, deixo meu desejo de um ano maior, de um ano melhor.

Um beijo.

Sua, para sempre, Pipa.

Jason Jr. disse...

''...Eu gosto de muros velhos. De casas velhas. De algum capricho. Dos passarinhos. Das poesias. Dos amores. Dos sonhos. Antigos. Desejos. Repremidos. Não contidos pelos muros da cidade. Antes, leitos. Leitos para canções e amorosidades. Encosto para o meu dândi perdido, ser amado, apaixonado, acolhido em seu amor, por este muro que não nos separa...''
:D
quando voltar pro meu cantinho vou levar pra la!

Be Lins disse...

VÊ se volta logo,
seu cantinho sem você,
fica sem você, a substância de lá.

Beijos