domingo, 10 de novembro de 2013

SEGUNDA-FEIRA

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Então a calma volta. Você vai aprendendo o seu caminho. Acostumando a alma que só na calma existe a esperança. Dá té alegria. A volta da calma é sempre bem-vinda. Como as segundas-feiras. Amo uma segunda como quem ama as sextas. Estranho porque nasci numa quarta, embora minha mãe conte que já fazia anúncios de chegada na segunda. Conta que agitei seus interiores segunda o tempo todo, também a terça, mas que quando chegou quarta, parei. Mas aí já se fazia a boa hora. Dela, não minha. De repente me acovardei, queria porque queria e na hora H, estacionei-me agarrada ás suas entranhas e quase desisti de vir. Ela precisou de mais médicos, toda sua coragem e em certa hora um grito alto que dizia: _ vamos lá garota, vem pra cá, não vai desistir agora, não!, e eu acabei vindo. A primeira pessoa que me viu depois dos asseios foi minha vó. A minha pessoa mais favorita de todo mundo. A única que me fazia rodar nos seus braços. Foi o meu primeiro abraço. Chorei quando sai daquele colo perfumado à água de colônia e pó de arroz clarinho. Dizem que eu era uma bebê bonita, de pele cor de pêssego, xuquinha nos cabelos, e um olhar de perguntas.

A última vez que estive com minha vó misteriosa, que dizem que foi uma das moças mais bonitas de seus tempos, foi um dia antes dela partir. Iria completar oitenta anos de coluna ereta, elegância a toda prova, e pernas para que te quero qua sempre estavam em inquietos movimentos. Sofria da síndrome do 'bicho carpinteiro'. Nunca estava parada. E no coro da igreja, era de todas, a voz que mais se destacava. Alta, esguia e com um quê desconcertante nos olhos, como olhos que vêem um paralelo em tudo que vivem. Éramos almas complementares, almas que sorriam na simples menção de seus nomes. _ Betininha, Betininha, hoje você vem almoçar comigo. Fui, é claro. Batatinhas sotées, um peixe aromatizado por suas ervas secretas, arroz soltinho, dois lugares bem colocados à sua mesa da varanda, ao lado de todas as suas flores que nunca murchavam, e suas histórias de amores secretos. Bebemos, e depois acompanhadas de um licor de flor de laranjeiras, degustamos um puff suave de frutas vermelhas. Era uma segunda-feira.

No dia seguinte, ela seguiu, altiva a sua viagem. Lânguida, alta e secreta como uma alma de porte deve ser. E pensar nela me reconstitiu a calma. A suave calma de quem sabe que a realidade não é exatamente oque importa. Importa é oque temos por dentro. Importa os domínios do amor. Importam os sentimentos mais puros que somos capazs de sentir por alguém. Importa ser especial por dentro. E se não fôr pedir demais, por fora também. Importa acreditar nos sonhos. Mesmo que não passem de sonhos. Ou exatamente por serem obra das mãos das coisas mais belas, aquelas nas quais acreditamos porque existe amor. E porque existe a segunda. E depois a terça. E Outubros, Novembros, Dezembros, e dias e horas e tudo infinitamente, porque quando você ama alguém que já partiu você descobre que o poder do amor transcende a presença. Comprova o sonho. E eu sonho. E acredito nas Segundas-feiras.


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Um comentário:

vanessa disse...

Que forma mais linda de ter esperança. Essa é minha querida,Be.
Te respondi lá na Caixa Mágica. Obrigada pelo retorno, você é importante para mim.

Um beijo nos seus dias

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