sábado, 15 de junho de 2013

A Grande Tratadora de Galinhas

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Tem gente que nasceu para os grandes feitos. São as super-gentes. Fazem todo tipo de coisa grandiosa: fazem arte grande, grandes descobertas, portam grande beleza, são gente como aquelas estrelas de maior grandeza que definem no macio chão do céu os destinos de quem nasceu para fazer grandes coisas pelo mundo que é um lugar danado de grande. 

Também tem gente que nem é grande mas faz com grandeza as coisas pequenas. Formiguinhas que vão fazendo bem-feito suas pequenas coisas que somadas à tanta gente que faz, vão fazendo o grande acontecer. Elas aumentam o mundo com seus corações grandes. 

Eu não sei fazer grandes coisas. De maior que eu fiz foi conseguir fazer uma pequena horta de manjericão no nosso pequeno jardim. Plantei as sementes e porque elas são grandes como sementes, por algum milagre que desconheço, germinaram, bem grande, e perfumam os ares detrás da nossa casa. E fazem  maior nosso molho de tomatelos do jantar. 

Fazer qualquer coisa não deve contar como grandeza, mas sei fazer um feijão muito bom. Sei sorrir quando tenho vontade de xingar. Sei controlar as palavras feias de forma que não sejam ditas para dar grandeza ao mau-estar, e sei calar na maior parte do tempo, uma coisa que não tem nada de grande mas previne maiores contratempos.

Sei bordar tapetes. Em ponto arraiolo e cores suaves. Já fiz uns grandes, mas não creio que ficaram grandes coisas aos olhos dos outros. Grande que eu fiz foi pintar um quadro que repousa grande em nossa sala. Tenho grande orgulho dele, embora nenhum grande traço o caracterize. É que tenho grande amor por ele desde que tive coragem de contemplá-lo. Ele me fala das coisas grandes que não fui capaz de realizar.

Ás vezes quando o sono não se faz grande, tenho grandes pensamentos. Procuro pelas minhas grandes lacunas, e por grandes respostas. Respostas maiores. Ou quem sabe uma grande ideia que me fizesse sentir alguém maior. Maior assim, nas qualidades. No amor. Não sei ser grandes coisas nos afetos. Tem gente que se entrega grande. Tem abraços enormes e palavras gigentes em alegria. Tem gente que tem o dom de fazer o outro se sentir grande, uma coisa que além de grande, é realmente linda.

Grande é a minha timidez. Minha insegurança que só faz aumentar. E meia dúzia de lembranças, nada de grande, até bem miúdas, não sei porque as coisas mais bonitas são tão pequenas para lembrar enquanto as que doeram estão sempre em destaque nesta minha cabeça não tão grande. Grande contradição. 

Lembrei que quando criança fazia uma coisa que considerava enorme e me fazia sentir muito especial. Alimentava as galinhas no galinheiro quando visitava minha vó. Pensava que aquilo devia ter um valor enorme: alimentar as galinhas. Todas elas. E sozinha. Vovó confiava a mim a gemela de milhos amarelinhos e cabia exclusivamente a mim distribuir igualmente para cada uma das bichinhas. Que me adoravam porque uma coisa grande que eu sabia era ser generosa nas porções. 

Grande vovó, sempre me dizia que as galinhas cresciam mais quando era eu quem distribuía o milho. Ficavam bem gordinhas.  E eu inflava-me toda por ter achado uma grandeza em mim: _  grande tratadora de galinhas. Imagino como se sentem os grandes que fazem bem-feito os seus grandes feitos. Se fôr qualquer coisa parecida com alimentar as galinhas, deve ser a melhor coisa do mundo, algo parecido com ser grande no coração de alguém.


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2 comentários:

Tallita Monteiro disse...

"Ás vezes quando o sono não se faz grande, tenho grandes pensamentos."



perfect!!
Lindo o post como sempre!

bjs flor

A perder de vista... disse...

Absurdamente lindo! Estou apaixonada por essas palavras...
Me fez sorrir, me inspirou. Obrigada por esse texto de reflexões tão grandes e bonitas.