quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

_ Joguei o chapéu!

.

Em algum lugar nas minhas memórias tem uma frase guardada que eu não lembro quem disse. É de um tempo tão longinquo que de fato nem sei dizer se é desta vida mesmo. Talvez tenha visto em algum filme de um tempo em que se viam filmes na tv. Ou ainda, devo ter lido. Você sabia que na França são feitas pesquisas para saber oquê as pessoas estão lendo, quantos livros  têm em casa, e em que partes da casa eles são guardados? País velho tem dessas coisas que países novos acham desnecessário. Aqui o senso quer saber tudo sobre eletrodomésticos e bens de consumo... Li sobre isso num livro de um respeitável escritor de alma velha. Adoraria ter a honra de conhecê-lo, principalmente pra poder conversar sobre esses assuntos de quem amadureceu e perdeu a ilusão. Ilusão. Consciência da ilusão.

É isso que a frase fala:
_ Jogar o chapéu!

Deveria me informar sobre a origem deste dizer mas confesso que estou tão cansada que vou logo à casa das conclusões. A vida não é um bem adminstrável. Parece que a gente quem tá no comando, mas não é bem verdade isso. É oque parece quando as coisas todas da vida seguem um rumo mais ou menos esperado. Isso acontece para muitas pessoas. Principalmente para as que tem muitos eletrodomésticos e bens de consumo. Para quem tem livros, no entanto, costuma se diferente. Você vai lendo e analisando tudo. Questionando e se inquietando. Ler cria expectativas de, no mínimo, ver um debate de ideias, uma abertura nos costumes, o sonho de uma mudança logo ali, na elipse de uma ideia... Quem lê recebe!
Quem lê tá sempre com visita, e são hóspedes do barulho! Só que é um barulho pra dentro. Você tem que calar pra poder ouvir. É um prazer solitário e cheio de interrogações. É abster-se da vida na ilusão de entender. É o preço que se paga pra ter esse amigo das solidões.

Ao mesmo tempo, quanto barulho... Que vontade de mudar o mundo! Que grande coisa impossível!
Um livro é um ser barulhento. Quando ele entra em casa,a casa treme porque serão muitas as ideias novas e com isso ao pobre morador e suas paredes sobrarão os anseios de mudança que não sobreviverão à juventude perdida. Mudança. Nada que pintar paredes ou  trocar um móvel de lugar resova. São anseios da casa de dentro que a cada livro enxerga diferente a casa de fora até que em certo ponto, perdem-se referências, e com isso, adeus calmaria! Ler envelhece a gente. O tempo envelhece a gente e envelhecer no país dos eletrodomésticos e bens de consumo isso é um pecado para o qual não se obtém perdão. Deve ser por isso que lê-se tão pouco por essas bandas, porque somos um país jovem onde a  ilusão de juventude e do consumismo é tudo que interessa.

Eu queria que o sujeito do senso me perguntasse sobre livros.
Eu queria ligar a tv e ver grandes escritores expondo suas ideias.
Eu queria comentar com o vizinho sobre a frase do dia.
Eu queria me deparar com menos cabeças vazias.
Eu queria viver num país que valoriza a educação.
Eu queria o endereço daquele autor...

Eu queria mas...
Eu tô perdida.
Perdi o rumo, perdi o piercing, perdi o jeito de me aprumar.
Restaram-ne os livros, as rugas e as rusgas.
Fora isso, nem o chapéu me sobrou.


*


4 comentários:

vanessa disse...

eu to aquiiii!!!
serve?
um beijo, queridona

.

vanessa disse...

eu to aquiiiii!

Jason Jr. disse...

... ... ...

Karine disse...

Cheiro de livro é o melhor cheiro do mundo.