segunda-feira, 30 de julho de 2012

Lua e Marte

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E se não for nada disso que eu tô pensando?
_ Aí, sei lá, talvez eu diga um verso bem bonito,
diga adeus, e vá me embora!



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Amarelou

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Você disse quatro palavras numa frase de efeito. Como sempre, um enigma. Pego as quatro palavras nas mãos, embaralho, misturo, examino, medito, jogo pra cima pra ver qual delas cai no chão,  depois, coloco-as sobre a mesa. Oráculo de quatro tempos. Não entendo as pessoas que falam sem entonação. Sem d e c l a r a ç ã o ,dizer além de falar. Uma frase de quatro letras pode conter muitas versões. Encosto meu rosto nas palavras que é pra sentir o cheiro. No toque, percebo a possiblidade do equívoco, do acerto, da entrega e da rota invertida. "Perdemos muito tempo esperando". Perdemos quem? A humanidade? Nós, vós, ou todos eles? Qual é a entonação? Perdemos de estar perdido pra sempre, ou 'como pudemos perder tanto tempo'? É um perder que ainda será perdido e mesmo que até o fim, ainda será,  ou é a constatação de um fato: _ sim! perdemos muito tempo esperando, e continuamos assim, perdendo muito tempo, ido, vindo, e vivido, esperando, porque, ás vezes, tudo que nos resta, é exatamente o movimento muidinho de todo dia: esperar. E aí eu falo claro: Te esperar!

As palavras que mais escrevo:

AMOR, talvez
VOCÊ, continuamente, e
ESPERAR, com certeza.


E o vestido que era branco,
amarelou de tanto esperar. Continua belo. Apesar!


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domingo, 29 de julho de 2012

Alegria Amarela

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Felicidade
é uma cortina branca
flanando leve pela janela do coração,

é ela
abrindo vista para os amarelos da estação.


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terça-feira, 24 de julho de 2012

Paraíso Desconectado

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Interessante é como a noção de paraíso passa pelo amor. Geralmente o paraíso é um lugar bem distante, onde não mora ninguém. A natureza é intocada e farta de generosidades. Existe um silêncio que oscila melodias passarenhas com o barulhinho das águas de algum rio ou do mar. O caminho é de terra mas tem pencas de flores. Se houver algum cansaço, duas rodas são suficientes pra passear paraíso. Tem sempre um alguém que ama um outro alguém. Amar no paraíso é leve. Não há nada que se queira almejar além de estar no dia e na vida de outro alguém. Lá longe, onde não é paraíso, ficam todos os males da civilização. Ansiedade, angústia, ambição, mesquinharia, egoísmo, lascivía, orgulho. Parece que o caminho vai purificando a alma desses males até a alma ficar clarinha feito alguma nuvem de algodão que só chove cores de rosas. O amor é permitido mas exige atenção. Tudo fica pra trás. No paraíso, um dia vem depois do outro e não se deseja outra coisa porque o final feliz chegou. Sem direito a tédio. É aí que entra a maçã. No fundo a gente tem medo do paraíso. Receio de que seja sempre aquela coisa bucólica, suave, calminha, transparente. Sem necessidade de aguardos. Sem esperas. Sem procuras. Sem mistérios. Sem turbilhões de emoções. Sem ciúmes. Sem traições. Sem TENTAÇÕES. Aí, estão lá os doiszinhos, bonitinhos, seguindo rumo ao paraíso e a serpente vem tentar no ouvido de um, no ouvido de outro, com a pergunta capciosa de sempre, que seria: _ cadê a graça? E um vai lembrando de uma coisa esquecida, o outro vai lembrando de outra coisa esquecida, e quando se vê, as duas rodas estão fazendo a volta e se conformando em ser aviadora de apenas mais um passeio perdido. As necessidades multiplicadas por nada. O que a gente precisa pra ser feliz, mesmo? Poder, dinheiro, sustento, fartura. E o amor se perde no meio exatamente disso. Das necessidades. O nome disso, pra mim, é caduquice. No fundo todo mundo é Adão e Eva que se encheu do paraíso. Final feliz acaba sendo coisa de filme porque a gente não quer o final feliz. A gente quer a batalha. Quer sofrer pra dizer que tem graça. E mergulha no caos que é pra sentir-se longe o suficiente do Éden, e quando bem longe, começar tudo de novo o caminho de volta. O amor está no meio disso. E parece-me, o amor está bem cheio disso. Um dia ele nos larga, e não volta mais.


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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Vida Longa aos Azúis!




Rua Rosa

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Do outro lado do dia existia uma rua cor-de-rosa. Aquele tom de rosa que prospera em suavidades. Aquele tom de rosa do sonho em andamento. Aquele tom de rosa que oferece uma certeza que acalma e te lembra do que é feito o outro lado da alma. O rosa que resplandece nas flores. Que brilha no rosto dos bebês. Que tem o lado de dentro da boca. Cor de chiclete de criança que mastiga alegrias. Do outro do dia tudo está trocadinho em miúdos. Não há oque desentender. A alegria não precisa de explicação. Um sorriso amoroso não precisa tradução. O desejo de um beijo não requer legenda. Um dia bonito é simplesmente um dia bonito. Cor- de- rosa é mais que uma cor, é um estado de espírito. Respire o caminho e alcance a cor da rua que existe do outro lado do dia. Faz-se necessário soltar-se pra chegar. Fechar os olhos para oque parece real, e abri-los para o corajoso coração de criança. Você está certo: é no espírito o lugar onde se deve morar. Fora é muito longe. É chuva ácida. O silêncio é passaporte. Mas parece tão distante... Oque eu faço dessa distância?

_ desenha um sonho de fim de tarde. E não esqueça de usar todos os tons de rosa.


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"Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia"

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Então é o seguinte: vai chegar o dia em que você vai descer ladeira abaixo. Você vai dar mancadas, cometer gafes, tropeçar na barra da saia, dizer oque não devia, perder o foco, perder o jeito, você se verá em retrospecto e se perguntará :
_ Cadê eu? Onde eu fui parar? Onde foram parar minha concentração e capacidade?

É um susto. Não há resposta. Há um desreconhecer. Ninguém se prepara para os erros. Para os vexames. Para os fracassos. Para oque o tempo vai fazendo com a gente. Reina a ilusão de que sempre será melhor. Não é assim. Existe o limite. O ponto que dali não se passa. A natureza nos dá asas até chegarmos ao ilusório ápice de nós mesmos. Mas depois tem o descida. É simplesmente, humano. E não é bom.

Acho um pena. E tenho dito!


Título emprestado da canção dos Titãs:
"eu não encho mais a casa de alegria..."


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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Amigo

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Alguém disse que amizade é quase amor.
Eu discordo. Amizade, na verdade, é mais que amor:
do amigo nada se espera além de sua amizade.

não é à toa que se diz que,
QUEM ENCONTROU UM AMIGO, ACHOU UM TESOURO


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Ele acende o meu cèu feito conto de uma carta de amor

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São outras quinhentas palavras que desejam virar mil. Palavras prometidas, não à você, que nada pediu, mas à mim, que gosto tanto de me prometer em palavras para você. Escrever pra você é sentir a liberdade do vento nos cabelos. É rodar num carrossel mágico que permite tocar o céu. Escrever pra você é dançar palavras com batidas do coração. Dizem que oque nos salva são as palavras. Li isso em algum livro cheio de palavras. Dotados desse emaranhado de letras mágicas, quase viramos deus. Não como Deus em maiúscula, o Todíssimo Poderoso que tudo pode antes mesmo de pensar, mas como um pequeno criador de cenas. Um deus de uma cena que pode abraçar enredos, destinos, finais felizes que não acabam, verdades, contradições, pérolas e amores eternos e sólidos em uma cena única. Única e isolada do mundo.
Vivo em três cenas com você. Não as escolhi aleatoriamente. Foram cenas vividas com você acendendo estrelas pro meu céu escuro. Nas brumas dessas cenas, tenho o poder inebriante da liberdade amorosa, da essência criadora da alegria, e sinto que apenas uma lufada de ar vinda dessas brumas é o suficiente para nos manter vivos e jovens por séculos.
Como fosse um editor de imagens, meus emaranhados cerebrais capricham no recorte dessas cenas, enquadrando-nos á sós. Dois sóis no meu mundo. É nessa hora que meu coração desaperta. É como voltar à tona. A primeira cena tem eu , tem você, numa noite de verão. Tem um amontoado de estrelas que ofuscam as luzes noturnas, e tem paralelepípidos desgastados. Tem a alegria de te ver. A cena é em slow-motion. Quântico! Esse recurso avançado permite desquantificar o tempo. Cinco minutos ficam como sendo trezendos segundos, ou dezoite mil meio-segundos, que não passam, simplesmente, porque não desejam ser passados para trás por alguma cena banal. É quando o tempo perde as rédeas para uma grandeza superior. Sai de cena o tempo, entra a plenitude do amor. Plenitude do amor? É! eu acredito nisso, pelo menos nessa cena... Pelo menos, num instante amoroso. Então, querido, terão sido milhões de horas no comando das próprias horas se repetindo num mero instante vivido pela real divindade que nos habita: a felicidade genuína feita de partículas lilases que somente o encontro de uma alma que ama essa outra alma consegue eclipsar. Achou fantasiosa demais a minha teoria? Não é não, meu amor! Eu conheço essa teoria direitinho, minha intuição aprendeu a pular o muro das obviedades que nos separa do nosso poder de estrelas, aquele poder que não alcançamos sem termos estrelas na mãos e por sermos meros mortais, exceto, eu creio,  quando amamos profundamente, e talvez na arte, que é o máximo que chegamos. Eu amo física quântica. Não entendo nada de nada dela com o meu intelecto limitado, mas alguma parte de mim saltita mesmo que eu não entenda. Imagina se eu entendesse?  Você é um viajante do tempo, tua compreensão das coisas é outra, devo parecer um bocado boba e inadequada aos teus olhos azuis com impressões tão primitivas e desembasadas, mas, acredite, mesmo esse nada que eu penso sobre isso tudo já me faz ter a maior cara de maluca. Eu vejo isso nos olhos das pessoas...
Mas vamos á segunda cena. Já falei desse instante muitas vezes com você. Não foi um instante de palavras. Foi um instante onde você se entregou no gesto. Tudo estava nebuloso, como é sempre, aliás, em se tratando de nós. Já caíam os primeiros, os segundos e os terceiros pingos de chuva. Preparava-nos para um adeus decidido á muito custo. Mas tuas mãos resolveram te trair. Sob o comando do teu eu acendedor de estrelas, elas, as tuas mãos, tomaram as minhas que nenhuma resistência ofereceram, e tudo que não fora dito pelos mais torpes motivos, escapou-nos. O não, era sim. O fim queria chamar-se começo. O nunca mais era simplesmente um equívoco no caminho da confirmação de uma espera. Fico olhando esse movimento do encontro das nossas mãos. As células das tuas mãos misturaram-se às minhas. Você estará pra sempre nas minhas mãos. Isso não te soa metafórico? Você me tem em sua mãos. Mãos que acendem estrelas têm vida própria, e as nossas, recusaram-se à compartilhar de nossa decisão insana.
Engraçado é que visitando nossas lembranças, oque me vem são coisas pequenas, peculiariedades, gestos invisíveis, auto-comandados, sempre há algo inusitado no teu não falado.
A terceira cena não te conto por carta. Vai que ela vai parar nas mãos de algum endereço errado. Não nego de contar-te, mas somente ao pé dos teus ouvidos perfumados. A beleza dos fragmentos do amor. Rio deles. Riso de amor. Como quando perdi o equilíbrio e seus braços me protegeram. Quando rocei minhas pernas nas tuas e você me avisou do perigo. Quando te vi me olhando, de longe, me puxando pra perto e até quando você me mandou pra longe de novo, eu vi o teu amor. Sei decór cada uma das tuas entrelinhas, conheço cada ponta do teu ciúme, respiro o teu existir. Você me ensinou a ultrapassar o portal do tempo. Serei sempre grata por isso e pelas estrelas que que trazes pro meu céu.

Sendo e não sendo eu, o teu amor
sendo e não sendo você , o meu
seguimos, amalgamados e gamados
entrelaçados, eternamente, nessas
três cenas de amor.


p.s.
'não adianta nem tentar, me esquecer'

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quarta-feira, 18 de julho de 2012

Passeio de Bicicleta

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Das falas dele:

_ Você está esperando para tentar.
O que você quer, te aguarda pelo caminho.
Você sabe, onde, mas você espera.
Você acredita em sinais, e eu,
na palavra mais certa: agora!
Nada mais importa pra mim,
só a certeza criada de que
NÓS FICAREMOS JUNTOS.


Para mim, isso simplesmente será!


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domingo, 15 de julho de 2012

Você chove em mim!

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Poderia dizer que CHUVA
é uma metáfora perfeita para explicar
o meu amor por ti


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VOCÊ

Não requer prática, nem habilidade. Só vontade.

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Disque oito pra matar as saudades!


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sábado, 14 de julho de 2012

Uma porta e a educação

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O gesto é dos mais simples e cotidianos: Fechar a porta. Continuaria a ser um gesto invisível não estivesse esse gesto sofrendo uma mutação: o fenômeno da 'bateção de porta'. De repente, parece que para fechar uma porta, não basta fechar e ponto, tem que bater bem forte, tem que ser um gesto bem ruidoso, raivoso e declarado em alto e péssimo som. Bater portas não demonstra apenas o baixo nível de educação de uma pessoa, mostra sua insatisfação e pouco caso para com a beleza dos sons. Quando se bate uma porta, você desrespeita à todos, inclusive à porta, que se pudesse, sairia correndo pra não mais voltar.
E o chato é que isso evolui. É a porta da casa, depois é a porta do carro, a porta do quarto, do forno, da geladeira, e depois vem o portão, a garagem... Aí serão batidas grosseiras na hora de desligar o telefone,de teclar as pobres teclas do computador e deletar e-mail , serão convites recusados,  até evoluir para o estágio avançado de bater boca. Genericamente, quem bate portas deve ser ruidoso também no trato com as portas da afetividade... Quem bate a porta quer afastar! E consegue!
Oque quem bate uma porta não imagina é que sempre tem alguém  que vai  ver, ouvir e sentir a aspereza desse gesto.  Esse alguém pode ser um outro 'batedor compulsivo de portas', mas pode de ser um ser sensível, que vai pensar que o mundo anda muito mal vendo portas baterem assim. Eu odeio o barulho de portas sendo batidas. O som adentra-me e faz triste até os meus fios de cabelo. Eu sei que não é comigo, não é pessoal, mas é um gesto triste que expressa algo doentio e desprezível. Eu não me orgulho especificamente de quase nada que tenha feito na vida, mas tenho orgulho de me declarar uma 'não batedora de portas'. Minhas portas são abertas pedindo licença pro mundo e, quando fechadas, são de mansinho, um misto de agradecimento, saudade e tendência a invisibilidade. Coloco guirlanda de flor na parte de fora da porta que é para que quem passe saiba que dali emanam-se bons fluídos. Na parte de dentro das portas, além de limpas frequentemente e perfumadas com óleo de paroba, são observadas como objeto de respeito e adoração. É que eu amo portas e seus significados. Amo também as janelas, que também nunca devem ser batidas. Ferirão muitos ouvidos e assustarão estrelas, luas, árvores, sacis, cucas e pirilampos. Se mantenho minhas portas e janelas abertas ou fechadas não vem ao caso, me orgulho é de tratá-las bem e sem agressão. Mas não pára por aí.
Tem mais: você nunca sabe quando a porta vai emperrar, vingativa. É que como se deveria saber, portas batidas abrem-se com dificuldade porque vão ficando danificadas, machucadas, feridas no orgulho de sua função, até que um belo dia, decidem emperrar pra valer, deixando trancafiados os seres infelizes que são os batedores de porta. Será sem dó nem compaixão. E quem irá salvá-los do confinamento? Tanto ruído produzido, certamente os seres que moram perto, do lado, em cima, embaixo, terão tomado providências de proteção acústica. Danou-se !
Eu diria aos que frequentam a gangue dos 'batedores compulsivos de portas'  que vale uma única tentativa. Antes de gesto tão deseducado, lembra do seu vizinho, do velhinho que mora sozinho ao lado, do nenê da outra vizinha, lembra de todos os teus vizinhos tão cansados e estressados quanto você. Lembra da beleza do silêncio que é tão divino, lembra dos doentes, dos tristes, dos desanimados desse mundo. Lembra da sua mãe, tão comentada quando a sua porta é batida....
Lembra de olhar pra você mesmo, tão vermelho e cheio de raiva batendo as pobres das portas da sua vida, lembra de sentir o som feio que ecoa dentro dos seus próprios ouvidos, que são sensíveis também, lembra da porta, da casa, da vida, lembra de você, e de o quanto seria significativo para oque resta do seu dia, da sua hora, da sua vida, um pouco mais de delicadeza...
Faça isso!, nós, seus vizinhos de prédio e de vida, ficamos, desde já,  agradecidos.

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sábado, 7 de julho de 2012

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Eu canto pra você ser feliz!

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Segue nos braços da saudade
os meus mil beijos de Boa Noite!



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domingo, 1 de julho de 2012

JAMAIS

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É que ao sentir o agonizante arrebatamento de uma manhã que nasce
ocorreu-me em agonia de amor que a IMPOSSIBILIDADE é como
se se quisesse atingir o que no entanto seria POSSÍVEL - se ao menos
fôssemos outros. E o mais estranho - meditei olhando a enorme folha
quieta no chão - é que somos os outros de nós mesmos.
Só que - jamais, jamais, jamais.


_ Das cartas entre Fernando Sabino e Clarice Lispector


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