sábado, 28 de abril de 2012

Labirinto das Nuvens

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Uma excursão em dimensão
Uma ascensão ao firmamento
Não existe começo
Não existe fim
Entre por onde preferir
Saia quando quiser
Não tenha medo de cair


[Do livro, O Circo da Noite]


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quinta-feira, 26 de abril de 2012

Pra sempre sim

Mínimos Detalhes



Ando muito bucólica ultimamente, seja lá oque isso queira dizer exatamente. Do muito que já sou simples, vou simplificando-me cada vez mais. Não é muito excitante, não. É até meio monótono, embora desafiante. Você tem que encontrar. Tem que conseguir ver algo que seja maior onde ele, o maior sentido reside: nos menores detalhes. Tento.  Hoje vi uma cena legal. Uma moça estava tentando estacionar o seu carro numa vaga estreitíssima. Eu disse tentando, já que conseguindo não era exatamente o caso. Foi quando surgiu um senhor de bicicleta, usando uma pólo listrada e uma barba muito bem aparada e branquinha se oferecendo para ajudá-la. Timidamante, ofereceu-se. Aliviada e ao mesmo tempo espantada, ela aceitou. Ternamente e com toda a calma desse mundo ele a orientou: "um pouco mais pra frente, isso, nivela direitinho, isso, perfeito". Inacreditavelmente o carro  coube direitinho na estreita vaga. De forma muito afável a moça agradeceu, ao que o senhor sorrindo-lhe disse que fora um prazer. Sem mais delongas e com um aceno elegante de cabeça, afastou-se. Como eu estava de longe, pude observar aqueles segundos que sucedem uma cena. Quando os protagonistas ficam sós. Eles estavam rindo! Nada de gargalhada, mas um riso de alma que ficou muito perto de outra alma. Parecia que pensavam:
_ Caramba! que senhor querido! Perder o tempo dele só pra me ajudar assim, do nada. E tão gentilmente... Com certeza eu teria batido no carro da frente e no detrás se insistisse na vaga, e no entanto, vejam só!
E mais alguns segundos a detiveram dentro daquele maravilhamento tão simples de ter tido a atenção de um doce  estranho.
Olho então para o senhor que segue seu caminho em sua bike possante e quase o vejo falar:
_ Ah! essas meninas de hoje. Dirigindo essas máquinas tão brutas que nem combinam com sua delicadeza. Deveriam zanzar por aí em carruagens feito princesas que são. Onde foram parar os cavalheiros que esqueceram disso?...
E aí, foi a minha vez de falar:
_ Estão pedalando suas bicicletas, feito príncipes em seus cavalos brancos, com suas barbas branquinhas e bem aparadas, lembrando que a delicadeza existe, e que com muita lapidação, a gente quase chega lá.

é isso! Muito simplesmente isso!

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terça-feira, 24 de abril de 2012

Flanar

Foi na noite passada. Estava com dor de cabeça. Nenhuma posição era boa o suficiente pra dormir. O travesseiro sufocava e o ar parecia ir sumindo, sumindo. Senti dor na nuca. Uma coisa estranha. E de repente, dormi. E acho que foi aí que dei uma 'morridinha'. Do instante que passei da consciência para o sono foi tão rápido e instantâneo, de uma fração pra outra,  eu estava na minha cama e na outra fração, estava num lugar bom. Um tipo de hospital, só que com ares de casa de vó. O ar era verdinho, palpável, verde muito água e podia-se tocar nele. As paredes eram igualmente verdes abranqueadas, mas entre um espaço e outro havia um papel de parede de flores miúdas como as que brotam nos jardins das casas da vovós. Só que não era um papel de parede simplesmente, eram flores de verdade, uma coisa de uma surrealidade lírica. Brumas pelo corredor. Era um corredor largo e cheiroso, cheiro não sei de que mas muito  bom, e tudo muito simétrico, portas largas tudo tão fluído como se flanassem pelo ar verdinho e fresco e iluminado. Na entrada, duas pessoas de branco, com máscaras brancas e olhos lindamente sorridentes que não diziam nada e sem um só movimento, encaminhavam. Conduziam. A comunicação era de outra ordem. Da ordem das delicadezas mais delicadas que jamais sequer sonhei. Em cada quarto, tudo muito simétrico, harmonioso a ponto de não se saber se tratava-se o local de uma clínica ou uma linda guest house em laguma colina distante e segura. Nos quartos haviam camas com algo que parecia com a aura de um corpo. Não eram corpos, era a energia desses corpos. Muito lindo.  Muito doido. E eu estava lá. Só respirando. Respirando. Até acordar hoje pela manhã. Acordei vivinha da silva por sorte. Ainda bem, né?... mas tenho a dizer que, se morrer for carinhoso assim, creio que não há motivo pra ter tanto medo. Pareceu bem melhor que aqui. é isso.


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domingo, 22 de abril de 2012

Era do verbo pra sempre será

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Era feito um ninho
Tinha som de passarinho
Que não para de cantar

Era tão bem feito
Tinha cheiro do aconchego
De um leve despertar

Era tão bonito
Você bem  aqui comigo
Não tem como não pensar

Era um passo a frente
Paro tudo de repente
Só pra ver você voltar

Pra esse ninho bem quentinho
Que tem som de passarinho
Que foi feito pra te amar



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sábado, 21 de abril de 2012

LASTREAR

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Até a mais simples das flores precisa de lastro para nascer. A garantia é nome que se dá à 'palavra dada'. A flor sente a firmeza do solo que a recebe. Antes de sequer ser um broto, em semente já tinha recebido a garantia vinda de uma vida anterior dizendo que valia a pena . Todo possível precisa de um lastro para nascer. E viver. Imagine-se o impossível. Mergulhos no escuro beirando precipícios é oque se pode chamar suicídio. E morrer não vem ao caso. LASTREAR. "Tornar crível o inacreditável". Grandes voos, grandes cuidados. Longas travessias, precauções dobradas. Um chamado para o amor, é bom tomar cuidado! Uma flor que nasce, não é somente uma flor: é uma espécie que se perpetua, é criação, tem seus mistérios. Sabe seguir o sol. Quer garantias... Mas o amor... virou tão banal. Amor virou sexo? Sexo virou flor? A menos vistosa do jardim? Não sei!... fiquei cansada só de pensar. Ficou complicado e e um tanto quanto desacreditado. Tá  precisando de lastro, esse tal de amor!


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Tá errado dizer isso?

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O interesse das pessoas
umas pelas outras
é do tamanho da resposta
que se espera:

mínimo!


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quarta-feira, 18 de abril de 2012

As Tartarugas não são ninjas

Um dia Clarice perguntou-se distraidamente:
"_ E AS TARTARUGAS?..."


Muito tempo se passou e hoje sou eu quem ousa respondê-la: "Vamos bem, obrigada!" . Sempre em busca da impermeabilização perfeita, continuamos a, grão por grão, edificar nossa couraça de aço. Não encontramos ainda uma forma muito eficiente de convivência. Se nos recolhemos de corpo inteiro, nada vivemos e sempre corremos o risco de algum menino desavisado nos tomar por bola e sair por aí, a nos chutar pelo chão. Se não há ninguém por perto e não corremos o risco de nos virem, então, saímos. Camufladas, claro, já que gostamos muito da arte das camuflagens e misturadas ao meio temos algum sossego. Na maior parte do tempo ficamos assim, encolhidas no conforto de nossa prisão escolhida até algum tipo de fome apertar. Dinossáuricas que somos, aprendemos a ver o tempo passar. Passar e passar e passar... Se tudo parece calmo, muito disfarçadamente, vamos saindo pra fora. A testa, os olhos esbugalhados, o nariz achatadinho, a boca grande e o pescoço. Somos verdes. E enrrugadas. Temos cara de bravas, mas é só cara mesmo. Então a gente solta as patas, as pernas e passo por passo vamos fazendo o reconhecimento do caminho que sempre parece novo, ainda que sempre seja o mesmo de toda uma vida. E até que parece bom. Algum movimento, ainda que lento. Ainda não achamos uma forma de ir mais depressa. Nem de sermos mais corajosas. Tudo nos apavora. Deve ser um medo jurássico de quem sempre foi pequeno no meio de tantos gigantes. Já nos perguntaram porque não fazemos o casco maior, de forma a nos cobrir a cabeça mesmo quando resolvemos sair. Estamos sempre pensando nisso e temos certeza que havemos de evoluir um dia. É que não somos muito chegadas à modernidades nem novidades e afins. A gente é assim, meio fora de moda. Nossa nostalgia tem a ver com o dia em que seremos. Não sabemos muito bem oque queremos ser, ou no que queremos nos transformar, na verdade a gente anda muito ocupadas pra ninguém nos atropelar. O mundo mudou. E que tanto! A gente sente que não está no lugar certo, não que um dia tivéssemos estado, mas também, oque adianta? a gente não sabe a quem reclamar. Então a gente resolveu não reclamar muito. Com isso, não emitimos muitos sons, nem mesmo quando andamos. Somos aparentemente silenciosas. É que assim como nós, nossas palavras levam tempo...Creio que uma boa ideia seria uma forma de camuflagem que nos deixasse invisíveis. Aí, sim!, seria a evolução da nossa espécie. Tartarugas borboletando soltas por aí... lépidas e fagueiras, já pensou? Quando o céu está bem escuro e nem estrelas a gente vê, nós, as tartarugas, nos reunimos e ficamos a imaginar justamente isso. Nós, perambulando por aí, sem esse peso todo nas costas, sem correr nenhum perigo de virar carne exótica na geladeira de alguém, só nos fartando das delícias da terra. Nesses dias de ritual no escuro , nós as tartarugas rezamos. É!, a gente reza. A gente até canta. E arrasta as patinhas meio pra lá, meio pra cá, a gente até ri. É o nosso tipo de reza. Nossa prece pede pra que de vez enquando façam-se umas noites bem escuras, pra gente poder sair pra fora das couraças e sentir o vento bom que só sopra assim jeitoso de noite. Você pode se perguntar, "mas vocês não pedem mais nada além de uma meia dúzia de noites escuras feito breu? E o sonho da invisibilidade, de zanzar por ai feito mariposas transparentes?" _ Não!... reza é reza. Sonho é sonho. A gente reza que é pra não perder o sonho. Coisa de tartaruga. Sabe como é?!...


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Milagre é passarinho à voar

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"Milagre é lágrima caindo na folha,
treme, desliza, tomba:
eis milhares de milágrimas brilhando na relva.

Ele está na mão, mas é de olhar."


_ Clarice Lispector

terça-feira, 17 de abril de 2012

PALAVRAS DESMAIADAS

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Não existem mais palavras pra nós,
sairam todas fugidas
quase desfalecidas
por nunca terem sido ouvidas
ou ( por nós )
devidamente queridas
partiram assim,  esquecidas.


Entre nós,
não existe mais palavra
nem mesmo que fosse inventada
ou qualquer coisa de fachada...
se um dia voltar a te falar
farei  isso calada
usando apenas a chuva de qualquer
madrugada molhada!


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quarta-feira, 11 de abril de 2012

Prece, por Clarice

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'A PRECE PROFUNDA NÃO É AQUELA QUE PEDE
A PRECE MAIS PROFUNDA É A QUE NÃO PEDE MAIS'



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domingo, 8 de abril de 2012

Infinito ao teu redor




São tantos sentimentos juntos
emaranhados num único conceito de amor...

é feito uma estrela na mão
e mais todas as que existem no céu!


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Um dia pra sempre

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QUEM DEFINE O TAMANHO DO DIA É O AMOR.



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Ressurgimento

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Mais do que nos solos vôos
a gente aprende

nas REVOADAS


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sexta-feira, 6 de abril de 2012

Há coragem no afastamento?



É feito uma noite fria. Numa rua deserta. Sem luz. Tem medo e tem dor. Têm o conteúdo dos pesadelos que a gente não lembra, só sabe que teve porquê despertou no susto. E que susto! É feito uma casa à muito abandonada. Desprovida de beleza. Caem pedaços. É apavorante. Nada se ouve, exceto o som da ausência de tudo. É feito a sensação de perder-se no meio do nada e saber que não há pra onde correr no meio do nada.

A F A S T A M E N T O S


Os humanos conseguem ser bons em quase tudo e se superam nos afastamentos. Parece tão simples para quem se afasta. Como o desligar da tomada. Ou apertar o OFF. Como seguir viagem porquê os trilhos estão prontos para serem trilhados. Não há lenços brancos sendo acenados na janela. Ninguém mais usa lenços brancos entre seus pertences. Não há lágrimas. Quem chora hoje em dia, em dias que ninguém mais chora? Todos estão ocupados demais até para chorar. Não há mais lugar para quem fica para olhar para trás. Só se olha pra frente. Estabeleceu-se que não é de bom tom aparentar-se com arrependimentos. Há que se vencer sempre e não há espaço para sentimentos tidos como MENORES . Por menores decidiu-se chamar a fraqueza, o medo, a dor, a tristeza, a dúvida, a insegurança. Por amostragem descartada, restaram os afastamentos. Parece justo para quem segue. É inexplicável para quem fica.

Quem precisa da coragem à moda antiga? À coragem deu-se um conceito diferenciado. Coragem passou a ser o predicativo dos que seguem sem olhar pra trás. Dos que não se prendem. Não se retardam. Não se atrasam. Não se retêm em meio à pequenezas de meros mortais. Não existem mais mortais. Foram descartados para dar lugar aos que perpetuam-se. A nova coragem é dos... Dos que fazem oque tem que ser feito custe oque custar. Dos que almejam sem devaneios. Dos alcançadores. Dos que não se permitem sentimentos pequenos, muito menos paranóicos. Há tanto a se fazer. E o trem não para além das estações. Ninguém pode ficar parado. As mãos estão ocupadas demais em teclados ínfimos que realizam conexões infinitas. Há o sucesso, o topo, o melhor. Aos corajosos estabeleceu-se o predicativo de não cansar. Não se abater. Não pestanejar. É proibido parar. Há que se seguir. E aos que ficam, fica o aviso de que não impaquem o caminho, e restem-se, silenciosamente, no afastamento.

Aos que ficam
Aos que choram
Aos que ardem


aos que ficaram no meio do caminho, à estes é que digo:
_ há que se ter muita coragem para prosseguir sozinho.
Nesta estação eu vejo coragem. Somente nesta.
G E N U I N A M E N T E .




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quarta-feira, 4 de abril de 2012

AZUL

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"Eu descobri que o azul
é a cor da casa de Deus"

[Charlie Brown Junior]



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domingo, 1 de abril de 2012

Por que o medo tem o passo tão lento?

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"Então uma pessoa não pode simplesmente abrir uma porta e olhar?


_ Clarice Lispector


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Por toda vida ou pelo tempo que for!

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Tem vezes que a gente duvida
Duvida se...

Se existe
Se acontece
Se dura
Se floresce
Se eterniza


Se é vida, morte, ilusão, teatro, mentira, verdade...

Não importa,
quem tá no meio dele sabe,
mesmo quando bagunça o coreto.

AMOR


[ver vídeos indicados ás vezes dá preguiça
mas ESTE VIDEO VALE, pode crer!]


Encontrei o vídeo no blog
CARAMBOLAS AZUIS


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