sábado, 10 de novembro de 2012

Uma cena de filme

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Eram as horas de um  fim da tarde. Mais noite do que dia, mas com aquele pouquinho de dia que resta em todo entardecer. Ela estava em sua casa. Do aconchego desta casa que a abraçava, ela gostava. Só não gostava do que faltava, e oque faltava, era oque não podia ser. Não podia era tempo rejeitado, e oque não podia era sempre desejado. Todo dia, um pouco mais. Oque não podia rondava. Sem que ela o visse, no vazio do outro lado da rua, ele olhava. Olhava as luzes que se acendiam como se fosse um lindo começo de dia. Ela estava lá. Havia alegria.  Ele a via, sendo que ela sequer imaginava que ele estava tão perto de onde ela era guardada, dentro dos seus aconchegos quase perfeitos. Parecia estranhamente feliz e não feliz. Ele gostava de olhar. Ela de imaginar. Não há separação que suporte isso. Nada se conclui. Viviam  uma sintonia que não dormia. Não os poupava, e ademais, os oprimia. Sincronizados estavam seus corações afastados. Um respirar mais profundo de um e, logo ali, do outro lado da rua, era respondido no mesmo respiro segundo do outro. Correspondido. Parecia um chamado que queria ser atendido. E então, ela foi à janela. Sofria com toda aquela harmonia, e a culpa da falta do que não podia. Afastou-se de seus aconchegos e tomou o telefone. Sorriu tristemente e teclou aquele número inesquecível. O som de um telefone tocando reverberou por perto. Ele assustou-se. Era o seu o telefone a tocar. Na tela riscada, o nome daquela que não podia. Atendeu prontamente sob o o risco de ser flagrado ali, em frente á casa dela.  Olá. Olá. Silêncio. Palavras desconexas, sem nenhum sentido exato que não fosse, saudade. Ela fez que ligou por conta de algum acaso. Ele fez que surpreso estava no acaso. Enquanto ele a via em cores, ela o via nas cores de um  sonho. Tocaram-se naquele instante telefônico que os alimentaria por dias.Viviam das migalhas que concediam-se. Odiavam-se por isso. E amavam-se ainda mais.  Quando o amor não pode, ele arde mais e acaba sendo tão mais querido... Desligaram com os votos disfarçados de uma boa alegria. Qualquer coisa poderia ser dita. Uma só traduzia: queriam-se tanto que nem sabiam. Ela voltou pros seus pra dentros. Ele ficou nos seus pra foras. Seguiam incansáveis  na esperança de viver a mesma cena em circunstâncias favoráveis. Suspiravam, amoráveis, separados por suas eternas demoras.


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2 comentários:

A primeira estrela disse...

Que bonito, Bê.
Ficou tão nítida e clara a cena em minha cabeça, tô emocionada.Cena bonita.Deu até uma invejinha branca dos apaixonados.
Mas se eles se amam, porque não deixar-se levar pela entrega da paixão?Isso que me entristece.O seguir solitário de cada um evitando a chance do amor.=*

Karine disse...

Uma cena de filme de um amor à distância.