sábado, 14 de julho de 2012

Uma porta e a educação

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O gesto é dos mais simples e cotidianos: Fechar a porta. Continuaria a ser um gesto invisível não estivesse esse gesto sofrendo uma mutação: o fenômeno da 'bateção de porta'. De repente, parece que para fechar uma porta, não basta fechar e ponto, tem que bater bem forte, tem que ser um gesto bem ruidoso, raivoso e declarado em alto e péssimo som. Bater portas não demonstra apenas o baixo nível de educação de uma pessoa, mostra sua insatisfação e pouco caso para com a beleza dos sons. Quando se bate uma porta, você desrespeita à todos, inclusive à porta, que se pudesse, sairia correndo pra não mais voltar.
E o chato é que isso evolui. É a porta da casa, depois é a porta do carro, a porta do quarto, do forno, da geladeira, e depois vem o portão, a garagem... Aí serão batidas grosseiras na hora de desligar o telefone,de teclar as pobres teclas do computador e deletar e-mail , serão convites recusados,  até evoluir para o estágio avançado de bater boca. Genericamente, quem bate portas deve ser ruidoso também no trato com as portas da afetividade... Quem bate a porta quer afastar! E consegue!
Oque quem bate uma porta não imagina é que sempre tem alguém  que vai  ver, ouvir e sentir a aspereza desse gesto.  Esse alguém pode ser um outro 'batedor compulsivo de portas', mas pode de ser um ser sensível, que vai pensar que o mundo anda muito mal vendo portas baterem assim. Eu odeio o barulho de portas sendo batidas. O som adentra-me e faz triste até os meus fios de cabelo. Eu sei que não é comigo, não é pessoal, mas é um gesto triste que expressa algo doentio e desprezível. Eu não me orgulho especificamente de quase nada que tenha feito na vida, mas tenho orgulho de me declarar uma 'não batedora de portas'. Minhas portas são abertas pedindo licença pro mundo e, quando fechadas, são de mansinho, um misto de agradecimento, saudade e tendência a invisibilidade. Coloco guirlanda de flor na parte de fora da porta que é para que quem passe saiba que dali emanam-se bons fluídos. Na parte de dentro das portas, além de limpas frequentemente e perfumadas com óleo de paroba, são observadas como objeto de respeito e adoração. É que eu amo portas e seus significados. Amo também as janelas, que também nunca devem ser batidas. Ferirão muitos ouvidos e assustarão estrelas, luas, árvores, sacis, cucas e pirilampos. Se mantenho minhas portas e janelas abertas ou fechadas não vem ao caso, me orgulho é de tratá-las bem e sem agressão. Mas não pára por aí.
Tem mais: você nunca sabe quando a porta vai emperrar, vingativa. É que como se deveria saber, portas batidas abrem-se com dificuldade porque vão ficando danificadas, machucadas, feridas no orgulho de sua função, até que um belo dia, decidem emperrar pra valer, deixando trancafiados os seres infelizes que são os batedores de porta. Será sem dó nem compaixão. E quem irá salvá-los do confinamento? Tanto ruído produzido, certamente os seres que moram perto, do lado, em cima, embaixo, terão tomado providências de proteção acústica. Danou-se !
Eu diria aos que frequentam a gangue dos 'batedores compulsivos de portas'  que vale uma única tentativa. Antes de gesto tão deseducado, lembra do seu vizinho, do velhinho que mora sozinho ao lado, do nenê da outra vizinha, lembra de todos os teus vizinhos tão cansados e estressados quanto você. Lembra da beleza do silêncio que é tão divino, lembra dos doentes, dos tristes, dos desanimados desse mundo. Lembra da sua mãe, tão comentada quando a sua porta é batida....
Lembra de olhar pra você mesmo, tão vermelho e cheio de raiva batendo as pobres das portas da sua vida, lembra de sentir o som feio que ecoa dentro dos seus próprios ouvidos, que são sensíveis também, lembra da porta, da casa, da vida, lembra de você, e de o quanto seria significativo para oque resta do seu dia, da sua hora, da sua vida, um pouco mais de delicadeza...
Faça isso!, nós, seus vizinhos de prédio e de vida, ficamos, desde já,  agradecidos.

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Um comentário:

Abelha que voa por aí sonhando disse...

São nos "pequenos" detalhes que percebemos a alma das pessoas... ou pelo menos seu humor!
Beijo