terça-feira, 24 de julho de 2012

Paraíso Desconectado

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Interessante é como a noção de paraíso passa pelo amor. Geralmente o paraíso é um lugar bem distante, onde não mora ninguém. A natureza é intocada e farta de generosidades. Existe um silêncio que oscila melodias passarenhas com o barulhinho das águas de algum rio ou do mar. O caminho é de terra mas tem pencas de flores. Se houver algum cansaço, duas rodas são suficientes pra passear paraíso. Tem sempre um alguém que ama um outro alguém. Amar no paraíso é leve. Não há nada que se queira almejar além de estar no dia e na vida de outro alguém. Lá longe, onde não é paraíso, ficam todos os males da civilização. Ansiedade, angústia, ambição, mesquinharia, egoísmo, lascivía, orgulho. Parece que o caminho vai purificando a alma desses males até a alma ficar clarinha feito alguma nuvem de algodão que só chove cores de rosas. O amor é permitido mas exige atenção. Tudo fica pra trás. No paraíso, um dia vem depois do outro e não se deseja outra coisa porque o final feliz chegou. Sem direito a tédio. É aí que entra a maçã. No fundo a gente tem medo do paraíso. Receio de que seja sempre aquela coisa bucólica, suave, calminha, transparente. Sem necessidade de aguardos. Sem esperas. Sem procuras. Sem mistérios. Sem turbilhões de emoções. Sem ciúmes. Sem traições. Sem TENTAÇÕES. Aí, estão lá os doiszinhos, bonitinhos, seguindo rumo ao paraíso e a serpente vem tentar no ouvido de um, no ouvido de outro, com a pergunta capciosa de sempre, que seria: _ cadê a graça? E um vai lembrando de uma coisa esquecida, o outro vai lembrando de outra coisa esquecida, e quando se vê, as duas rodas estão fazendo a volta e se conformando em ser aviadora de apenas mais um passeio perdido. As necessidades multiplicadas por nada. O que a gente precisa pra ser feliz, mesmo? Poder, dinheiro, sustento, fartura. E o amor se perde no meio exatamente disso. Das necessidades. O nome disso, pra mim, é caduquice. No fundo todo mundo é Adão e Eva que se encheu do paraíso. Final feliz acaba sendo coisa de filme porque a gente não quer o final feliz. A gente quer a batalha. Quer sofrer pra dizer que tem graça. E mergulha no caos que é pra sentir-se longe o suficiente do Éden, e quando bem longe, começar tudo de novo o caminho de volta. O amor está no meio disso. E parece-me, o amor está bem cheio disso. Um dia ele nos larga, e não volta mais.


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2 comentários:

Luzia Trindade disse...

Assim que costumamos agir normalmente..
Belo texto!

Be Lins disse...

Oi, Luzia!

Muito grata por seus comentários, você é muito querida e essa troca de ideais é muito bacana.
Tentei escrever no seu blog um comentário, mas não passava quando tinha que digitar aqueles caracteres. Sabe que por isso acabei tirando esse negocinho de caracteres do meu blog.

Enfim, fica o beijo e o agradecimento por aqui mesmo.
Venha sempre.


E para todos os que por aqui passarem, saibam, fica um pouco de sua vibração no ar.

Beijos.