quinta-feira, 17 de maio de 2012

Quando ele cala, é quando ele diz...



Estava vagando entre as palavras. Há diferença entre oque se tem a dizer do que se tem a falar? Não queria saber da gramática. Queria ir além do dicionário. De verdade?... só me interessa oque o teu coração tem a dizer. Então eu te toco e é o teu coração que se põe a falar:

_ Eu não quero falar. Eu quero dizer. Quero te contar que o meu coração virou um recanto muito calmo desde que você chegou. Não sabia que precisava disso pra viver.Eu era um zumbi portador de um coração que só servia para sangrar. Meus mergulhos eram todos no escuro das relações que o acaso me obrigava, mesmo sabendo que preferia a quietude de um metal que não fala mas diz muito sobre a dor de não sentir dor. De não sentir nada. Eu não tinha um por dentro. Também não era nada por fora. Nem por lado nenhum. Eu era o desconhecer.

Até te reconhecer. Te reviver. Te reencontrar. Foi uma explosão. Não!, não eram fogos coloridos de algum artifício festivo, muito menos poéticas estrelas cadentes precipitando-se à terra. Eram milhares de fios desencapados alvoroçando-me o caos. O que eram aquelas batidas, aquelas dores, aquela invasão, aquela coisa apertada que eu sentia no peito e que parecia me sufocar? Fui descamando, me alargando, me esticando, me arrebentando, me estoporando, ' o que é isso?', eu perguntei. E algo me disse: _ é a dor.

Você me trouxe a dor do querer. A dor do enxergar. A dor do acordar. A dor das tempestades. A dor dos raios do sol. A dor das estrelas que se esbarram. Do universo. Do infinito. Do existir. Do ser. Humano. E aquilo era uma tortura. À marteladas, meus ouvidos se abriam, meus olhos desescondiam-se, eu senti o gosto da minha boca seca, do meu mundo seco, e senti o pulsar das minhas mãos fechadas em punho... meu corpo pulsava, minha pele pulsava, meu sangue pulsava, o medo pulsava, o descontrole pulsava, o mundo inteiro pulsava pelas minhas veias que nunca foram tão azuis. Eu estava sob o fogo. Eu estava morrendo? _ Eu tô morrendo?

Então você sorriu. Sorriu pra mim. E uma chuva mansa desaguou. Uma chuva que tinha aroma de menina. Fiquei branco. Depois azul. Depois vermelho, e depois todas essas tuas cores foram me tomando e escolhambando meus breus, eu era um caleidoscópio na forma de um homem nu. Recém-nascido. Um desconhecido. Um ser tomado, assustado. Perdido. Um ser frágil, minúsculo, vivo, desejoso, acordado, lúcido no pior sentido da palavra. Eu tomara consciência de algo que eu queria. Ou nunca quisera. As rajadas da tua energia me derrubaram. Eu estava no chão. E o descobri frio. Descobri-me frio ao me ver no fundo dos teus olhos escuros e estranhos.

Eu vi tudo que eu não tinha. Eu vi você me olhando, mas não entendia oque você via. _ Esse não sou eu! Eu não sou esse que seus olhos invadem. Seus olhos de mil braços que dançavam em minha direção. E os braços dos teus olhos me invadiram pelo meu único ponto de azul. Foi uma invasão de você se abrindo em mim. Eu ia sendo cada vez mais um desconhecido, à medida que te via me ver. Senti um baque no peito. Aceleração. Aceleração. _ Meu Deus, como dói esse coração à bater! Eu gritei: _ pare de bater, pare de bater, pare de bater!

Inútil. Eu não sabia nada de coisa nenhuma exceto que ERA VOCÊ. Exceto que no vazio do meu coração escuro eu guardava uma gota muito ínfima  de chuva que me disseram , um dia, me traria você. Mas eu nunca esperei você. Você foi INESPERADA. Feito a tua primeira palavra que não foi uma palavra, mas um gesto naquela hora de chuva que me trouxe você. Um gesto. Precioso. Definitivo. Indiscutível. Você me levou pra dentro. Para o teu centro. Para o epicentro de um lugar chamado amor.

Eu vivi o instante perfeito. Eu guardava uma gota de chuva durante uma vida toda e agora eu era o dono da chuva. Eu podia imagina-la cinza, e cinza ela ficava. E todos esses tons de cinza viravam rosáceos quando você sorria. E eu fiz a chuva ser morna, quente, ardente, doce, oscilante de aromas, de ilusões, de óticas, de toque, de simplicidades que eu sou.

Foi dentro de você que eu sorri. E te chamei de Chuva que era a única coisa bonita que eu conhecia. E você gostou de ser chamada de Chuva. E cantou pra mim. E dançou pra mim. Me contou coisas. Abriu uma janela e me falou das estrelas, de uns absurdos românticos que eu nem entendia, mas sabia, você não sossegaria, até eu saber. Depois, você me chamou pra passear por você. Vi seus quartos, seus livros, seus altares, suas vaidades. Tuas luzes, teus cristais, tua fragilidade, tuas meninices, tuas flores e acabamos no teu jardim, onde por fim, você me convidou à morar.

Que nem por um segundo eu pensei em aceitar. Fui tomado por uma nova onda de medos e um pânico tão genuíno que só pensava dali me arrancar. Eu só queria escapar. Fugir dali. Fugir de você e desse alguém que eu nascia dentro de você. Porque eu não me via mais? Eu sumi. Eu não me reconheci mais nada. Eu morri. Eu deixei de existir no antes e nesse teu durante perfumado. Você era o medo de perder. Eu não queria te conhecer. Eu não queria nada de você saber. Eu era o estremecer. E estremeci quando você abriu tua boca tão fina e falou. Você disse palavra por palavra, num flashe frenético que me trouxe para fora de ti com meus sentidos todos retidos pelas mãos do destino, palavra por palavra você disse:_ tô nervosa!

E riu. Então era isso? Você abria a tua boca e resumia tudo da forma mais simples do mundo? Eu descobria a beleza de uma menina simples. Covardemente, então, você tocou meu braço. Tão de leve... Você sabia exatamente oque estava fazendo... Você estava dando ao amor a qualidade do IRREVERSÍVEL. Você me mostrou o reverso do verso. E pude ver pelo toque da tua mão, a tua viagem para dentro de mim, com todos os medos de inesperados fins acontecendo, passo a passo, em mim. Como fora eu, em você. E foi então, que eu me rendi.

Havíamos morrido e nascido na coincidência perfeita da mão de um carteado quântico qualquer. Formamos a canastra real e até o próximo segundo explosivo do Universo, éramos nós. Renascidos em ouro, acolhidos um no outro pra saber oque é amar. E eu soube.

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Eu não sei oque ele cala, eu não sei oque ele diz, mas sei exatamente oque o seu coração sentiu.
 Nem sempre a gente vai achar na palavra tudo aquilo que deseja escutar.


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2 comentários:

Preto e Branco - Lilian Vereza disse...

Be! minha flor...esse texto simplesmente toca! transcreveu aqui exatamente meus caos interno....belas palavras querida! tudo lindo demais!

Preto e Branco - Lilian Vereza disse...

Be minha linda! esse texto simplesmente toca!! vc descreveu aqui exatamente meu caos interno em forma de belas e transparentes palavras!! lindo demais tudo por aqui!!!