segunda-feira, 28 de maio de 2012

Bocó, por Manoel de Barros




Ouviu a palavra bocó e foi para casa correndo a ver nos seus trinta e dois dicionários que coisa era bocó. Achou cerca de nove expressões que sugeriam símiles a tonto. E se riu de gostar. E separou para si os nove símiles. Tais: Bocó é sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é uma exceção de árvore. Bocó é um que gosta  de conversar bobagens profundas com as águas. Bocó é aquele que fala sempre com sotaque de suas origens. É sempre alguém obscuro de moscas. É alguém que contrói sua casa com pouco cisco. É um que descobriu que as tardes fazem parte de haver beleza nos pássaros. Bocó é aquele que olhando para o chão enxerga um verme sendo-o. Bocó é uma espécie de sânie com alvoradas. Foi o que colheu em seus trinta e dois dicionários. E ele estimou.

_ Manoel de Barros


E como sendo uma bocó, acrescento que bocó
é daquele tipo de gente que como eu, acredita,
só porquê acha muito bonito o dom de acreditar.

Acreditar em que?, perguntarão os espertos:
_ Em tudo, ué! Tudo que dér na telha.


*


2 comentários:

JasonJr. disse...

:D :D :D

Cris disse...

Então, vai aqui mais uma bocó!