sexta-feira, 6 de abril de 2012

Há coragem no afastamento?



É feito uma noite fria. Numa rua deserta. Sem luz. Tem medo e tem dor. Têm o conteúdo dos pesadelos que a gente não lembra, só sabe que teve porquê despertou no susto. E que susto! É feito uma casa à muito abandonada. Desprovida de beleza. Caem pedaços. É apavorante. Nada se ouve, exceto o som da ausência de tudo. É feito a sensação de perder-se no meio do nada e saber que não há pra onde correr no meio do nada.

A F A S T A M E N T O S


Os humanos conseguem ser bons em quase tudo e se superam nos afastamentos. Parece tão simples para quem se afasta. Como o desligar da tomada. Ou apertar o OFF. Como seguir viagem porquê os trilhos estão prontos para serem trilhados. Não há lenços brancos sendo acenados na janela. Ninguém mais usa lenços brancos entre seus pertences. Não há lágrimas. Quem chora hoje em dia, em dias que ninguém mais chora? Todos estão ocupados demais até para chorar. Não há mais lugar para quem fica para olhar para trás. Só se olha pra frente. Estabeleceu-se que não é de bom tom aparentar-se com arrependimentos. Há que se vencer sempre e não há espaço para sentimentos tidos como MENORES . Por menores decidiu-se chamar a fraqueza, o medo, a dor, a tristeza, a dúvida, a insegurança. Por amostragem descartada, restaram os afastamentos. Parece justo para quem segue. É inexplicável para quem fica.

Quem precisa da coragem à moda antiga? À coragem deu-se um conceito diferenciado. Coragem passou a ser o predicativo dos que seguem sem olhar pra trás. Dos que não se prendem. Não se retardam. Não se atrasam. Não se retêm em meio à pequenezas de meros mortais. Não existem mais mortais. Foram descartados para dar lugar aos que perpetuam-se. A nova coragem é dos... Dos que fazem oque tem que ser feito custe oque custar. Dos que almejam sem devaneios. Dos alcançadores. Dos que não se permitem sentimentos pequenos, muito menos paranóicos. Há tanto a se fazer. E o trem não para além das estações. Ninguém pode ficar parado. As mãos estão ocupadas demais em teclados ínfimos que realizam conexões infinitas. Há o sucesso, o topo, o melhor. Aos corajosos estabeleceu-se o predicativo de não cansar. Não se abater. Não pestanejar. É proibido parar. Há que se seguir. E aos que ficam, fica o aviso de que não impaquem o caminho, e restem-se, silenciosamente, no afastamento.

Aos que ficam
Aos que choram
Aos que ardem


aos que ficaram no meio do caminho, à estes é que digo:
_ há que se ter muita coragem para prosseguir sozinho.
Nesta estação eu vejo coragem. Somente nesta.
G E N U I N A M E N T E .




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3 comentários:

Pipa. A Pipa dos Ventos. disse...

Quem se afasta...você sabe, quer ser buscada.

Patrícia disse...

Adorei seu texto. Essa vida moderna nos deixa sem tempo para sentir. E é mais fácil deixar para trás do que lutar para levar consigo. Uma simplificação que complicou os corações que precisam passar por tudo minimamente. Beijo

Mara Melinni disse...

Be,

Concordo com vc!

Não quero essa coragem dos que fazem o que tem de ser feito CUSTE O QUE CUSTAR... Não, eu penso como vc. Portanto, vejo a coragem que se ampara na grandeza da alma, que não atropela, que conforta. Essa sim, é o que nos torna diferentes e maiores!

Parabéns pelo post!!!
Bjs e uma Feliz Páscoa!