quarta-feira, 18 de abril de 2012

As Tartarugas não são ninjas

Um dia Clarice perguntou-se distraidamente:
"_ E AS TARTARUGAS?..."


Muito tempo se passou e hoje sou eu quem ousa respondê-la: "Vamos bem, obrigada!" . Sempre em busca da impermeabilização perfeita, continuamos a, grão por grão, edificar nossa couraça de aço. Não encontramos ainda uma forma muito eficiente de convivência. Se nos recolhemos de corpo inteiro, nada vivemos e sempre corremos o risco de algum menino desavisado nos tomar por bola e sair por aí, a nos chutar pelo chão. Se não há ninguém por perto e não corremos o risco de nos virem, então, saímos. Camufladas, claro, já que gostamos muito da arte das camuflagens e misturadas ao meio temos algum sossego. Na maior parte do tempo ficamos assim, encolhidas no conforto de nossa prisão escolhida até algum tipo de fome apertar. Dinossáuricas que somos, aprendemos a ver o tempo passar. Passar e passar e passar... Se tudo parece calmo, muito disfarçadamente, vamos saindo pra fora. A testa, os olhos esbugalhados, o nariz achatadinho, a boca grande e o pescoço. Somos verdes. E enrrugadas. Temos cara de bravas, mas é só cara mesmo. Então a gente solta as patas, as pernas e passo por passo vamos fazendo o reconhecimento do caminho que sempre parece novo, ainda que sempre seja o mesmo de toda uma vida. E até que parece bom. Algum movimento, ainda que lento. Ainda não achamos uma forma de ir mais depressa. Nem de sermos mais corajosas. Tudo nos apavora. Deve ser um medo jurássico de quem sempre foi pequeno no meio de tantos gigantes. Já nos perguntaram porque não fazemos o casco maior, de forma a nos cobrir a cabeça mesmo quando resolvemos sair. Estamos sempre pensando nisso e temos certeza que havemos de evoluir um dia. É que não somos muito chegadas à modernidades nem novidades e afins. A gente é assim, meio fora de moda. Nossa nostalgia tem a ver com o dia em que seremos. Não sabemos muito bem oque queremos ser, ou no que queremos nos transformar, na verdade a gente anda muito ocupadas pra ninguém nos atropelar. O mundo mudou. E que tanto! A gente sente que não está no lugar certo, não que um dia tivéssemos estado, mas também, oque adianta? a gente não sabe a quem reclamar. Então a gente resolveu não reclamar muito. Com isso, não emitimos muitos sons, nem mesmo quando andamos. Somos aparentemente silenciosas. É que assim como nós, nossas palavras levam tempo...Creio que uma boa ideia seria uma forma de camuflagem que nos deixasse invisíveis. Aí, sim!, seria a evolução da nossa espécie. Tartarugas borboletando soltas por aí... lépidas e fagueiras, já pensou? Quando o céu está bem escuro e nem estrelas a gente vê, nós, as tartarugas, nos reunimos e ficamos a imaginar justamente isso. Nós, perambulando por aí, sem esse peso todo nas costas, sem correr nenhum perigo de virar carne exótica na geladeira de alguém, só nos fartando das delícias da terra. Nesses dias de ritual no escuro , nós as tartarugas rezamos. É!, a gente reza. A gente até canta. E arrasta as patinhas meio pra lá, meio pra cá, a gente até ri. É o nosso tipo de reza. Nossa prece pede pra que de vez enquando façam-se umas noites bem escuras, pra gente poder sair pra fora das couraças e sentir o vento bom que só sopra assim jeitoso de noite. Você pode se perguntar, "mas vocês não pedem mais nada além de uma meia dúzia de noites escuras feito breu? E o sonho da invisibilidade, de zanzar por ai feito mariposas transparentes?" _ Não!... reza é reza. Sonho é sonho. A gente reza que é pra não perder o sonho. Coisa de tartaruga. Sabe como é?!...


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