quarta-feira, 30 de novembro de 2011

CHUVA





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Poderia ter sido uma chuva perfeita, mas faltou você. Não faltou por inteiro porque uma parte tua, que é minha e eu não largo, estava aqui. Então, foi uma chuva quase perfeita. Eu a vi da janela. Ainda não aprendi a me dar aos meus próprios ímpetos e com isso, não!, não fui lá fora, assisti da janela e algumas vezes coloquei os meus braços o mais perto que pude e trouxe a chuva pra perto de mim. Em cada gota sorvida, você estava. Estava sem estar, mas estava. Foi uma chuva esplêndida. Ou fazia muito tempo que eu não olhava com atenção ou realmente foi uma das chuvas mais bonitas que vi. Uma chuva com ares de boas novas. Tá certo que isso é puro desejo que seja mas, parecia. E você apreciaria. Ou apreciou já que a mesma chuva caiu pra você. Será que você me viu nela? Se viu nela comigo? Notou como estava calma, como as gotas eram grandes mas comportadas, caindo com ritmo como numa noite de dança devidamente ensaiada?!... Uma chuva ensaiada, encomendada, aguardada com todas as entradas vendidas. O perfume da água fresca lembrou-me tua pele. Você tem pele com gosto de água de chuva, _ eu já disse isso à você?... uma mistura estudada e alucinógena de folhas molhadas, de grama molhada, de vida regada somada à todos os meus suspiros doces que estão como que tatuados, milemetricamente em você, feitos por mim quando fechavas os olhos . Tua pele tem meu cheiro junto, tanto que sou de você. Misturei-me, e agora, assim é. Respiro. Essa chuva lavou-me por dentro. Trouxe-me alguma redenção. Ou salvação. Uma salvação que tem o tempo de uma chuva de verão. Respirar ficou sendo uma coisa mais leve, como se cada partícula de água que colhi entrasse pelos meus poros apaziguando minhas ansiedades de você. Foi uma hora perfeita. Noturna e convidativa. A chuva já parou, oque é uma pena, as coisas todas ficam mais belas molhadas. Mas deixarei a janela do meu quarto de dormir aberta hoje. Enquanto houver esse perfume de chuva, de alguma forma, eu quero estar lá fora. E estarei. De alguma forma também, sei que você também estará. E se eu te vir, terei coragem e sairei pra me molhar com você nas poças d'água que a chuva deixou.
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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Eu dancei dentro dos teus olhos

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Você quer mesmo me machucar?

Me dê um tempo para tomar consciência do meu crime
Deixe amar e roubar
Já dancei dentro dos teus olhos
Como posso eu ser real?

Você quer mesmo me machucar?
Você quer mesmo me fazer chorar?
Beijos precioso, palavras que me queimam
Amantes são aqueles que nunca perguntam porquê
Em meu coração há um fogo que arde
Escolha minha cor, encontre uma estrela
Pessoas preciosas dizem
Que isso já é dar um passo longo demais

Poucas são as palavras que eu falei
Eu poderia desperdiçar mil anos
Embrulhado em mágoas, palavras são garantias
Venha para dentro e apanhe minhas lágrimas
Você esteve falando mas acredite em mim
Se é verdade, você não sabe
Esta pessoa ama sem uma razão
Estou preparado para deixar você partir

Se é amor que você quer
Então pode levar ele embora com você
As coisas não são aquilo que você vê
Terminou, outra vez

Você quer mesmo me machucar?

[Do You Really Want to Hurt Me?/ Culture Club]


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'Você reclama contra o meu desalento. Tem razão, F., sou um pouco desalentada, preciso demais dos outros para me animar. Meu desalento é igual ao que sentem milhares de pessoas. Basta, porém, receber um telefonema ou lidar com alguém que gosto e minha esperança renasce, e fico forte de novo. Você na certa deve ter me conhecido num momento em que eu estava cheia de esperança. Sabe como eu sei? Porque você diz que sou linda. Ora, não sou linda. Mas quando estou cheia de esperança , então de minha pessoa se irradia algo que talvez se possa chamar de beleza (...) a hora de rir há de chegar, F..'

[Clarice Lispector]

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REFRESCO



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E então, eu me vi. Reflexos de mim por todas as partes. Vidros, espelhos, janelas, vitrines, olhos alheios e sonhos cortados ao meio, no susto... eu estava ali, em toda parte e em partes. Era preciso juntar tudo isso para entender, mas era impossível juntar tudo aquilo. Em cada reflexo havia um caco meu. Eu era uma centena de cacos espalhados ao meu próprio redor. Era quase uma cena de horror, eu estava dividida em pedaços, pequenos pedaços de frustração. Eu não era mais eu. Eu era um amontoado de cacos.

E isso era muito mal...

Foi então que eu parei. Parei e me detive em cada caco com atenção. Eu estava neles, mas não estava em nenhum deles. Eu havia me partido em mil pedaços tentando construir um eu que já se foi, ou que talvez, nunca tenha sido. Um eu e suas histórias de amanhãs e o eu, sou hoje. Não há como ser o eu que já fui, muito menos fugir do eu que serei mesmo que isso represente um ser formado anti-esteticamente de cacos.

E então, eu me vi fente a frente com a inevitabilidade da vida.
Foi nessa hora que notei minha garganta doendo.Eu tinha febre e sede. Eu tinha sede. Uma sede arcaica. Uma sede de muitas vidas. Uma sede de vida. Uma sede de querer bem . Uma sede nova. Uma sede só não tão urgente quanto a própria vida.
Nessa hora, só pude pensar que era mais do que hora de ME DAR UM REFRESCO.
Foi dessa hora em diante que resolvi desistir daquela que fui, e resolvi que serei só eu. Apenas eu, a eu que sobrou em mim. Eu e meus cacos devidamente aceitos e refrescados. Enfim!


[ás vezes, é permitido mentir]



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sábado, 26 de novembro de 2011

Conjunções


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O Amor me parece ser uma conjunção de boa sorte. Uma conjunção de tempo e espaço. De sincronicidade. Uma conjunção de boas intenções e disponibilidade. Um encontro de coincidências que aceleram partículas misteriosas que fazem o mágico do amor acontecer. Não passa pela lógica, não passa pela razão, não passa pelo conhecimento. Passa por uma ponte que só desce vezenquando. Ou quase nunca. Depende. Depende da sorte. E do encontro que haverá com outro alguém de sorte. E de coragem. E de coração grande. E de sorriso largo. E de gestos calorosos. E de palavras fluídas. E de segurança. Interior e contagiante. Amor parece querer fazer barulho. Amor que é amor é tagarela. É vontade incontrolável de tudo dizer, de tudo declarar, de querer estar junto. Amor é encarar a barra. Que houver. Qualquer uma. Conjunção de coragens. Conjunção de bem querer. Conjunção de decisões. CONJUNÇÃO DE GESTOS DE AMOR. Amor não tem nada de econômico, muito antes disso, é gastador desmedido. E não precisa de garantias, muito menos de fiadores e avalistas. Ou detetives e conselheiros. Amor não parece precisar de tempo para descobrir se é amor. Nem de questionários, indagações, muitas conversas, investigações minuciosas a caminho de pistas para obter certeza ou comprovação. Amor é intuição misturada à uma grande quantidade de fé. Amor é desejo de amar. Assim, desse jeito mesmo: você decide que quer amar, e se abre à caminho. E se joga. Ou se atira, se arremessa, se entrega. E deseja de todo coração que aconteça. E às vezes, ele acontece bonitinho. A tal conjunção de dois corações, e assim se faz um mundo. E o mundo. Assim caminha a humanidade. Quando é unilateral, amor sozinho, amor de um, amor sem par, aí, sei lá, que me perdoem os céus se me equivoco, mas aí não me parece amor, não!, parece-me mais como um castigo por mal comportamento. A sorte é que passa, só que a gente é teimoso e então... começa tudo outra vez, se a gente decidir que as conjunções valem a pena.


"O VERDADEIRO AMOR É COMO GRÃO"

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Hora Certa

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E o céu se fará azul, porque o azul decidiu assim,
E as flores se abrirão em perfume, porque escolheram a estação,
E os muros serão só detalhes porque, uma hora, a gente consegue ver, além,

E as suas palavras, por fim, serão ditas, não porque eu quis, exigi, supliquei
mas porque elas simplesmente acontecerão dentro de você,

o que eu pergunto, no entanto,  é:
_ Dará tempo?

Parece haver tempo e hora certa para tudo na vida,
exceto para as urgências de um certo coração.


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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Irá tudo mudar tão de repente?


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E exatamente então ela ouve alguma coisa. É uma coisa enxuta que a deixa ainda mais seca de atenção. É um rolar de trovão seco, sem nenhuma saliva, que rola mas onde? No céu absolutamente azul, nem uma nuvem de amor. Deve ser de muito longe o trovão. Mas ao mesmo tempo vem um cheiro adocicado de elefantes grandes, e de jasmim da casa ao lado. Irá tudo mudar tão de repente?

[Clarice Lispector]


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TRISTES

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Perguntei: por que estamos tão tristes?
Respondeu: é assim mesmo.
É assim mesmo!


[Clarice Lispector]


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_ Querida, cheguei!


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Pai é uma coisa engraçada, né? o meu era pelo menos. Tinha uma cara grandona que olhando meio rápido dava até um certo medo mas, chegando mais perto e depois de dois sorrisos e um pedido meio envolto à razões nem sempre muito lógicas, uma historinha, um pedido de parceria, uma piscadela de cumplicidade, e mais o irresistível _ ah, pai, deixa!... e _ voilá!... o desejo era concedido. _ Eu deixo! A gente ria das coisas, não como pai e filha mas como, pessoa e pessoa. Gostava de ver nos seus olhos o eu que ele via em mim. Acho que pai é aquele sujeito que não cresce muito, só faz carão. Eu sinto falta do meu grande brincalhão.

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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Lateral



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Eu acho que a lateral de uma casa fala muito mais de seus habitantes do que a frente da casa. Ou os fundos. A frente mantém-se porque é a frente. Os fundos, porque vive-se muito nos fundos... mas as laterais são apenas o que?... as laterais, certo? ... quem lembra de olhar a lateral? Quase ninguém, suponho, exceto eu, talvez, que sou uma pessoa assim, meio lateral também.




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domingo, 20 de novembro de 2011

Musiquinha pra dar SORTE

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Vivo esperando e procurando
Um trevo no meu jardim

Quatro folhinhas nascidas ao léu
Me levariam pertinho do céu

Vivo esperando e procurando
Um trevo no meu jardim


_ Fernanda Takai


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sábado, 19 de novembro de 2011

Disse Clarice:

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"DEUS FAZ DOÇURAS MUITO TRISTES TAMBÉM"



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Metáfora Lunar

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Século XXI - Quem guardará a lua em casa?

[Lianto Segreto]


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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Do que consegue ser Perfeito

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e não serão as coisas pequenas
as coisas mais importantes?


[são sempre as mesmas perguntas...]



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terça-feira, 15 de novembro de 2011

A Esperança é feito doce da Vovó


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A minha Esperança é sim, PAPO DE VOVÓ!... é papo de titia, é papo com a família. É a poção milagrosa das palavras de uma amiga, é papo de vizinha regado à bolo formigueiro e chá de calmaria. A minha Esperança é papo com o mundo. Com os livros. Com as imagens, com tudo que se move, se entrega, se derrete, se comove, se envolve, se restaura através do cuidado do outro. A minha esperança não é papo de Ilha: não sou só eu e as minhas escolhas, sou eu e o mundo e a sorte de cruzar com gente que acha que ESPERANÇA tem sim!, muito a ver com papo de vovó: aquelas bandagens que vão aliviando a dor e que aquela mãozinha tão doce aplicava, fazendo a dor parar. Esperança é amor multiplicado por dois. E cresce no abstrato apesar do concretismo que a dor causa. É coisa límpida que não se encontra em confessionários de carvalho cheios de culpas, mas antes, nos altares do perdão. Ou na casa rosa na rua dos Voluntários, onde a porta estava sempre aberta, o cheiro era sempre de café fresco e de biscoitos saindo do forno à lenha, e onde nunca, nunquinha da Silva, uma pessoa era preterida por suas interioridades escuras. Ao contrário, era convidada à dormir em casa e conversar pelas madrugada, onde nada deixava de ser dito, nem as verdades mais duras, mas sempre havia a delicadeza das toalhinhas quentes sobre os olhos para relaxar. Suavemente. Aliás, só conheço recomeços através das suavidades. A Esperança é um fio condutor. Faz-se um nó aqui, enlaça o outro acolá, e assim vai se formando o tricozinho da vida, outra coisa muita linda que aprendi com minha vó: Tricotar. Tricotar com os fios da vida.

Assim como a minha liberdade de expressão esbarra na
liberdade de expressão do outro e respeito idem,
esperança tem passe livre pra invadir corações.

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domingo, 13 de novembro de 2011

O FAROL




O que te serve de farol?


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Concreto

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Para tapear a consistência da dor
a efemeridade dos sonhos.
É difícil sonhar em meio à dor,
d e v a n e a r ,

mas é preciso.




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Móbile



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"SOU UM MÓBILE SOLTO NO FURACÃO"



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sábado, 12 de novembro de 2011

Insensibilidade me deixa louca

Sabe o que é?
_ não tem essa coisa de maluco se curar em terapia.

Cada um segue portando suas insanidades,
com maior ou menor grau de 'disfarceabilidade'.

Deve ter alguma coisa a ver com os signos e seus elementos.
Há os de fogo. Tão maravilhosamente intensos.
Há os da àgua. Tão profundamente calmos e amáveis...
Há os do ar. Tão sublimes em seus vôos.

E há os da terra, no qual me enquadro.
São os que mais sofrem. Seguem ali com seus pobres pés gravados
na terra, ardendo em fogo, desejosos de todo mergulho afetivo,
e os olhos quando olham para o céu e percebem a distância...,
quanta distância com suas naturezas ávidas de lógica.
Sua inquietude é um pouco mais doída, porque existe um cordão
indissolúvel de incompreensões das dádivas dos outros elementos
um misto de "também quero viajar nesse balão" com "o dia me que a terra parou"
e aquele infanto-juvenil desejo de à tudo mudar, e não tendo como, se inquietar.

por que sabe?
tem muita coisa estranha rolando no mundo,
e isso nos atinge à todos,
seja de fogo, de terra, de água ou de ar,

louco pra mim é ser insensível


e sair por aí à cutucar feridas.


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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Em 11.11.11

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Alma minha
Tenha pressa
Te empresto a bicicleta
Mas corre
E com as gentes
Te peço: seja prudente
Não pare para falar
Deixando de pedalar
Assim chegarás livre
E verás o começo do dia...

[Tradução Livre do poema de Giorgio Caproni]


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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Eu quero ÁGUA



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A leveza gosta de gente leve. A elite não acessível à qualquer mortal. Estou falando de estado de espírito. De estresse, de cansaço, de saco cheio, de um estado onde não se quer falar nada com ninguém porque as pessoas cansam, suas conversas sobre toda a banalidade do mundo cansam, e os lugares cansam, e todas as cadeiras, camas, sofás, e paredes, tudo parece ter espinhos e cansam ainda mais. A boca dói com isso, ATM mais severa do que nunca, e as costas parecem carregar todas as dores do mundo. O peso é tanto que só dá vontade de largar. Largar os bet's, gritar TÔ FORA!, pedir um tempo, chorar aos pés de Deus, rezar pra não pensar tanta besteira e por pouco não tomar algumas daquelas pilulinhas pequenininhas pra dormir e escapar de sonhar. Tá punk o negócio.

O limite. Não fui trabalhar de tarde. Excepcionalmente, declarei _ NÃO VOU!.Fui na minha ortodontista pedir pra refazer minha plaquinha. E voltei pra casa, escancarei todas as janelas e peguei uma jarra de vidro bonita, enchi até a boca de gelo, água, algumas gotas de limão e laranja e me esparramei numa espriguiçadeira no jardim. Embaixo da árvore mais frondosa que existe pra mim, pedi à Natureza que olhasse por mim. E finalmente, me senti melhor, não como uma pessoa leve porque amanhã não posso repetir a folga, mas me senti melhor por conseguir lembrar de como é ficar de papo pro ar, VIVENDO, porque trabalhar como loucos não é coisa de gente, é coisa de doido, enquanto que o ócio, esse sim, parece ser coisa de gente sã. E sábia.



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domingo, 6 de novembro de 2011

Ele é o meu Azul

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"Para vermos o AZUL,
olhamos para o céu.
A terra é azul para quem a olha do céu.
Azul será uma cor em si, ou uma questão
de distância?
Ou uma questão de grande nostalgia?
O INALCANSÁVEL É SEMPRE AZUL."


_ Clarice Lispector

sábado, 5 de novembro de 2011

Novembro

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Então tudo virou flor
só pra ver NOVEMBRO
passar bonito!



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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Onde você sempre está...




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Eu não sei como isso é possível mas alguma parte de mim está estacionada nos meus dozes anos de idade. Uma noite dessas tive um sonho intrigante onde eu aparecia tagarelando com duas pessoas sobre o tempo. Só que eu estava em outro tempo. Falavam sobre o tempo não ser do jeito que a gente está habituado a pensar. Na maior parte das vezes, achamos que o tempo é exatamente aquilo que o relógio marca. Vinte e quatro horas, uma depois da outra, uma à uma. E assim, seguimos os dias olhando as coisas pequenas perdidas no meio dessas horas pequenas e tudo parece até bem confortável. Quase sempre, exceto quando a mente resolve desobedecer o delicado comando de: _ Fica quieta!!, e sorrateira, sai querendo aprontar pra cabeça, literalmente. No sonho foi assim. Sonhei que essas pessoas me diziam, ou tentavam me explicar que existem fendas no tempo, entre um segundo e outro existem os milésimos de segundo e que entre esses milésimos, existem fendas milésimas até não poder ser mensurado tudo isso, e que, através dessas fendas pode-se estar, quase que ao mesmo tempo, em dois tempos diferentes, que necessariamente não precisam ser vizinhos. E isso, multiplicado por todos os tempos que coexistem. Uma coisa que poderia classificar como infinita. No sonho eu franzia a testa, não conseguia entender e aquelas pessoas se irritavam comigo, e no sonho, eu era uma menina de doze anos... Uma garota. Eu gostava de mim aos doze anos. Era bem viajona, e de fato, eu conseguia viver no meu meu mundo cotidiano aparentando normalidade, mas lembro que sumia da realidade por horas e horas, parada fazendo nada, ou sentada no jardim, ou pensando coisas que nem lembro mas que eram muito fora de padrão. Para onde ia a minha consciência naquelas horas quietas? Quase ausentes... Engraçado é que tento puxar na memória mas, não lembro. Lembro de coisas que fiz aos quatro anos, mas... nos meus doze eu só lembro de estar ali sem ali estar. Aí hoje comecei a ler um livro sobre uma menina de doze anos que fala sobre o tempo, e as fendas do tempo. O livro fala algo como se o tempo passasse ao mesmo tempo por todos os momentos, e esses momentos coexistissem e ficassem suspensos no espaço aguardando nosso retorno. Ou uma visita. O livro diz que oque importa é em qual momento você está. Como se a gente pudesse de fato escolher qual das milhares de facetas já vividas se quer estar. Desafiador esse enigma sem chave. Porque sabe?!... a chave é o poder. Com a chave você não precisa bater com a cabeça na parede para as minhocas se calarem, você as quer. Porque pensar nisso faz com que cada célula do meu corpo se esperte e parece que estão todas pedindo _ vamos lá! vamos lá! Mas lá aonde? Eu queria estar no mundo daqui uns cem ou duzentos anos, quando a mente humana conseguir ir além das comprensões atuais, porque como diz o livro, o senso comum de limite atrapalha o contato com a verdade que o véu embasado pelos milionésimos de segundos nos impedem de ver.

Agora, eu me pergunto porque eu quero tanto crer que isso existe?... Que vidas coexistem. Que uma mesma de mim pode estar aqui, e se atirar numa outra consciência sem que nem essa mesma eu perceba. Pra que eu quero isso? Tudo bem que o assunto é muito legal, muito intrigante, muito viagem e eu adoro!, mas no fundo, eu quero essa possibilidade só por causa de você. Só pra poder te alcançar, te abraçar imensamente e olhar mais uma vez tua expressão olhando a minha, e te tocar, e ter realidade corpórea nesse amor de tanto tempo. Coisas que se guardam, coisas que escondemos, coisas que viram segredos... que me importa escancarar meus delírios se você está onde tudo oque eu sou e em tudo oque eu vivo, como se fôssemos um menino e uma menina de doze anos que descobriram um jeito de brincar de esconde-esconde entre as fendas do tempo, mas que entre uma e outra brincadeira, sempre se acham pra trocar um beijinho. Um beijo muito casto, afinal, só temos doze anos.




"A experiência mais bela que podemos
ter é o m i s t e r i o s o . "


_ Albert Einstein
Livro " Como Vejo o Mundo" 1931

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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Mil Cores





Que cor você levaria pra sua cama?


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terça-feira, 1 de novembro de 2011

O VESTIDO

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Mas aí eu saí e comprei um vestido
todo lindo, todo florido,
até parece um jardim,

e então, estranhamente
a ESPERANÇA voltou
pra dentro de mim.


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"A Esperança é a meninice do mundo"

_ Machado de Assis


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A CURVA


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Eu acreditei por tanto tempo que acreditar parecia ser a única coisa óbvia a se fazer. Eu não fazia mais nada. Eu era o verbo acreditar. Eu pulava da cama para manhãs de acreditar. Acreditava que cada dia nascido seria O Dia. O dia de qualquer coisa que me fizesse acreditar que a curva que nos separa hoje não nos alcançaria. Era uma crença cega, desembasada, sem linha, sem chão, sem lógicas. Era uma crença formada de sóis que vinham de dentro de mim. Na verdade não eram os teus sinais azuis que me faziam acreditar mas a minha fé de que a curva não nos estava vendo. Eu tinha um olho na terra e outro no céu e não via a curva se aproximar e isso me fazia ainda mais acreditar. Então eram luas cheias de acreditar, céus de tantos sonhos, suspirantes confianças vindas de uma canção, de uma palavra que se escorregara em minha direção e me fazia forte, destemida, enganadora das curvas malvadas que separam as pessoas de seus amores. Mas ela era enorme. Tão maior que meus olhos tão cheios de apenas você não a viam. Nem mesmo a sombra que ela fazia já à algum tempo sobre nós eu percebia. Eu acreditava nos meus sóis internos iluminando ou despistando a curva. A curva única dona do banco de reservas de possiblidades. Sovina proprietária. A curva do destino que levou você pra longe de mim, não levou apenas você, ela levou a mim também. Trapaceira, catou esperancinha por esperancinha como quem cata morangos frescos na horta do vizinho, e devorou todo o frescor . Ela levou a colheita que não colhemos. Ela levou os frutos que não tivemos tempo para saborear. Ela levou a mim, levou a você e daqui de onde estou só sinto saudade que nem saudade mais é: saudade é coisa de quem ainda acredita e agora eu só acredito que as curvas existem, e são más, e não gostam de crianças. Não gostam das crianças que se mantém em espírito. Levam-nas embora e ficamos como restos de personagens de um velho romance qualquer ,esquecido na estante de alguém.
É a curva do tempo.
Mesmo assim, ainda deixo a luz daquela janela eterna acesa, para caso um dia a curva se distrair, você escapar e saber pra onde voltar.

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