terça-feira, 29 de novembro de 2011

REFRESCO



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E então, eu me vi. Reflexos de mim por todas as partes. Vidros, espelhos, janelas, vitrines, olhos alheios e sonhos cortados ao meio, no susto... eu estava ali, em toda parte e em partes. Era preciso juntar tudo isso para entender, mas era impossível juntar tudo aquilo. Em cada reflexo havia um caco meu. Eu era uma centena de cacos espalhados ao meu próprio redor. Era quase uma cena de horror, eu estava dividida em pedaços, pequenos pedaços de frustração. Eu não era mais eu. Eu era um amontoado de cacos.

E isso era muito mal...

Foi então que eu parei. Parei e me detive em cada caco com atenção. Eu estava neles, mas não estava em nenhum deles. Eu havia me partido em mil pedaços tentando construir um eu que já se foi, ou que talvez, nunca tenha sido. Um eu e suas histórias de amanhãs e o eu, sou hoje. Não há como ser o eu que já fui, muito menos fugir do eu que serei mesmo que isso represente um ser formado anti-esteticamente de cacos.

E então, eu me vi fente a frente com a inevitabilidade da vida.
Foi nessa hora que notei minha garganta doendo.Eu tinha febre e sede. Eu tinha sede. Uma sede arcaica. Uma sede de muitas vidas. Uma sede de vida. Uma sede de querer bem . Uma sede nova. Uma sede só não tão urgente quanto a própria vida.
Nessa hora, só pude pensar que era mais do que hora de ME DAR UM REFRESCO.
Foi dessa hora em diante que resolvi desistir daquela que fui, e resolvi que serei só eu. Apenas eu, a eu que sobrou em mim. Eu e meus cacos devidamente aceitos e refrescados. Enfim!


[ás vezes, é permitido mentir]



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2 comentários:

Adriana ♣* disse...

Hummm...

Bom isso, hein?

Aceitar os cacos refrescados...

:)

thiê disse...

http://www.pessoa.art.br/?p=394

absurdamente impressionante é ler isso a manhã inteira, debruçar sobre um texto meu com o mesmo nome da poesia de pessoa e vir aqui ler sobre os cacos em que todos inevitavelmente se transformam depois de algumas batidas da vida.
que a poesia seja sempre sua cola, bê, como é pra mim.