terça-feira, 1 de novembro de 2011

A CURVA


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Eu acreditei por tanto tempo que acreditar parecia ser a única coisa óbvia a se fazer. Eu não fazia mais nada. Eu era o verbo acreditar. Eu pulava da cama para manhãs de acreditar. Acreditava que cada dia nascido seria O Dia. O dia de qualquer coisa que me fizesse acreditar que a curva que nos separa hoje não nos alcançaria. Era uma crença cega, desembasada, sem linha, sem chão, sem lógicas. Era uma crença formada de sóis que vinham de dentro de mim. Na verdade não eram os teus sinais azuis que me faziam acreditar mas a minha fé de que a curva não nos estava vendo. Eu tinha um olho na terra e outro no céu e não via a curva se aproximar e isso me fazia ainda mais acreditar. Então eram luas cheias de acreditar, céus de tantos sonhos, suspirantes confianças vindas de uma canção, de uma palavra que se escorregara em minha direção e me fazia forte, destemida, enganadora das curvas malvadas que separam as pessoas de seus amores. Mas ela era enorme. Tão maior que meus olhos tão cheios de apenas você não a viam. Nem mesmo a sombra que ela fazia já à algum tempo sobre nós eu percebia. Eu acreditava nos meus sóis internos iluminando ou despistando a curva. A curva única dona do banco de reservas de possiblidades. Sovina proprietária. A curva do destino que levou você pra longe de mim, não levou apenas você, ela levou a mim também. Trapaceira, catou esperancinha por esperancinha como quem cata morangos frescos na horta do vizinho, e devorou todo o frescor . Ela levou a colheita que não colhemos. Ela levou os frutos que não tivemos tempo para saborear. Ela levou a mim, levou a você e daqui de onde estou só sinto saudade que nem saudade mais é: saudade é coisa de quem ainda acredita e agora eu só acredito que as curvas existem, e são más, e não gostam de crianças. Não gostam das crianças que se mantém em espírito. Levam-nas embora e ficamos como restos de personagens de um velho romance qualquer ,esquecido na estante de alguém.
É a curva do tempo.
Mesmo assim, ainda deixo a luz daquela janela eterna acesa, para caso um dia a curva se distrair, você escapar e saber pra onde voltar.

*

5 comentários:

quanto pesa o vento? disse...

que lindo!
as tuas palavras tem tanta ternura.

"Mesmo assim, ainda deixo a luz daquela janela eterna acesa, para caso um dia a curva se distrair, você escapar e saber por onde voltar."

abraço-te daqui.

Karine disse...

Ai, dona Bê.

Mariana Pimentel. disse...

Uau! Incrível.

Adriana ♣* disse...

Máximo, Be!

:D

Lia Araújo disse...

Vc me fez chorar... essas curvas me levaram um amor... que se distraiu com as possibilidades que tem nas curvas... ele não volta mais.
Posso postar no meu blog?
Me doeu todinha!