quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O FAZ DE CONTA DE CLARICE

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"Sentou-se para descansar e em breve
fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde,
talvez fosse azul...

faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações
faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos
faz de conta que uma veia não se abrira e
faz de conta que dela não estava em silêncio
faz de conta que amava e era amada
faz de conta que não precisava morrer de saudade
faz de conta que estava deitada na palma transparente de Deus
faz de conta que era sábia o bastante para desfazer nós
faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua, pois era lunar
faz de conta que se fechasse os olhos seres amados surgiriam quando os abrisse
faz de conta que tudo não era faz de conta
faz de conta que ela não estava chorando por dentro

_ pois agora mansamente, embora de olhos secos, seu coração estava molhado."

[Clarice Lispector]


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Quando eu era criança pequena
fazia de conta que já era grande
só pra já poder te encontrar.
Eu, quando criança pequena,
já fazia de conta que sabia amar.


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2 comentários:

Minnie_ disse...

Nossa, que coisa mais linda.
Acho que meu, meu mesmo, de minha propriedade, não tenho nem o meu corpo. Nada, nada mesmo. Só possuo o faz de conta, puramente o desejo de bem. Desejo de que seja realidade. Acho que é isso que nos move e que mais caracteriza a trajetória de toda uma vida. Que bonito!

Grande beijo!

Be Lins disse...

OI, MI!
Entendo, viu?
sinto-me desapropriada também,
meio errante de alma que é das carências a menos imediata, e mais profunda.

Desejo que a vida te faça proprietária de maravilhas.

beijo