quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Quando Clarice rezou


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Resolveu rezar,
"como se o que fosse pedir a si mesma e a Deus precisasse de muito cuidado porque o que pedisse, nisso seria atendida.
Pedir? Como é que se pede? E o que se pede?
Pede-se vida?
Pede-se vida.
Mas já não está tendo vida?
Existe uma mais real.
O que é real?

Ela sabia que não devia pedir o impossível.
Então fez sua prece:

Alivia a minha alma,
Faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha,
Faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na Eternidade,
Faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega não significa a morte,
Faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária,
Faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta,
Faze com que eu receba o mundo sem receio,
Abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que como,
O sono que durmo,
Faze que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou,
Faze com que eu perca o pudor de desejar,
E que na hora da minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha,
Amém!


[Clarice Lispector, O LIVRO DOS PRAZERES]

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2 comentários:

Luzia Trindade disse...

Que texto, que oração mais linda!

Bom feriado :)

Aksa Bandeira disse...

Que lindo texto flor!

Bjus**