sábado, 30 de abril de 2011

Adulterados

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A mulher dos novos tempos e o homem dos novos tempos marcaram um encontro. Chegando ao encontro, no entanto, não se reconheceram. O homem dos novos tempos esperava encontrar uma figura com ares românticos, serena e discreta, sentada em alguma mesa lateral, portando um grosso livro de poesias, uma flor nos cabelos longos enquanto degustava com elegância uma taça de vinho do Porto. Não poderia imaginar que aquela mulher falando sem parar ao celular, vestida com palidez uniforme e sustentada por saltos tão altos junto ao bar, com a tez intranquila e cabelos estranhos fosse ela. Ela, a mulher dos novos tempos, andava e falava de um lado para o outro, alternando ligações pois seu tempo não é mais o tempo de perder tempo com alucinações pseudo-românticas estava atenta a porta, de onde esperava a chegada de uma espécie de gigante,um homem muito grande, muito alto, exalando segurançae sucesso através de seu perfume bem escolhido e dosado. E por ser assim, não reconheceu o homem dos novos tempos com seu aspecto frágil-casual, olhos tímidos e seu inegável ar de desproteção. Com as mãos seguras dentro do jeans, ele foi até o bar, pediu um ice qualquer, enquanto observava seu próprio cabelo no espelho de moldura antiga, adorno do bar. Seus olhares sequer se esbarraram. Que estranho! Quando foi mesmo que homens e mulheres resolveram adotar justamente os mais sem graça dos gestos um do outro como troca?... Mulheres sempre se ressentiram com o distanciamento masculina, o egoísmo de suas ocupações, seu exibicionismo de Rei da Selva, sua pressa... e olhando para o lado, a mulher dos novos tempos vê-se , em suas atividades, _surpresa!, exatamente tal e qual... Enquanto isso, o homem dos novos tempos resolveu que a adolescência termina lá pelos quarenta anos, e que até lá, ele pode ser um moleque, e passou a ser inseguro, retraído, neurótico, emocionalmente dependente e carente. Mas que estranho!... não era justo isso que os afastava das mulheres? Evidentemente essa visão simplista não é regra. No entanto, para mim, parece tendência. Homens cada vez mais frágeis e vaidosos, e mulheres cada vez mais estressadas e distantes de sua essência feminina. No meio disso, o desencontro. Ou melhor, o desencanto. Não há nada de errado no que estava funcionando: Homens convidam, mulheres pensam. Homens abrem a porta do carro, mulheres sentam-se com elegantes movimentos de pernas. Homens pagam a conta, mulheres dividem. Às vezes. Homens trazem flores, mulheres a linda lingerie. Homens tomam a iniciativa, mulheres fecham os olhos. Metaforicamente. Homens são os fortes, mulheres as hábeis. Homens oferecem segurança à mulher, e a mulher, suavidade ao homem. Ambos amadurecem juntos e se realizam. Por talento, deteminação, capacidade, mas com cada qual no seu quadrado natural. Parece-me que deveria continuar a ser assim, ou então, o homem dos novos tempos e a mulher dos novos tempos vão acabar não se reconhecendo mais. Um ao outro e individualmente falando!


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2 comentários:

JasonJr. disse...

...viva a modernidade dos rótulos...
:P rs

Adriana ♣* disse...

Os opostos se distraem...
Os dispostos se atraem!

:D

Bjs