quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Triste assim

É que a tristeza é, às vezes, um lugar muito confortável. Nunca tive medo de me sentir triste. Creio que até muito pelo contrário, na tristeza eu me reconheço e me sinto em casa. Gosto de imaginar o lado bom das coisas que não parecem tão boas. Virou mania. A tristeza, por exemplo. Ela é o meio mais eficaz de me fazer fechar a matraca e a imaginação e cair na real. É como sair de um porre e voltar à lucidez. É bem mais real do que as efemêras alegriazinhas dessa vida. Na tristeza eu me pego no colo e canto pra eu mesma dormir. Sou mais carinhosa, pero non mucho, porque na tristeza não tem espaço pra bibibidobobobó, faz-se a luz. Nessas horas tristes, tão efemêras também, consigo perceber oque de fato é bom nessa vida, e constato que muitas dessas coisas eu possuo, e outras, muito provavelmente, nunca as terei. Mas tenho o direito de entristecer-me um pouquinho e não achar a pior coisa desse mundo, derramar meia dúzia de lágrimas bobas e me sentir a última de todas as princesas do castelo do rei. Acho consistente esse estado. O chão é firme, e daqui de dentro não há lugar para medos. Pelo menos não para os medinhos conhecidos. Creio que um bom descanso nessa cadeira vazia faça bem mais bem do que muitas situações vazias, nos lugares onde há um mundo de gente, um mundo de risos, mas estranhamente, pareçam todos, muito muito tristes. Eu aqui, na minha cadeira triste, estranhamente me sinto a pessoa mais feliz das redondezas. Vai entender...!


*

11 comentários:

Bia Rodrigues disse...

Adorei seu texto,palavras perfeitas,como se me descrevesse.Seu espaço está lindo.Beijos

Lua disse...

Muito bom o texto!

beijo!

Adriana ♣* disse...

Como se diz no Budismo: tudo é impermanente.
Tudo passa!
A felicidade passa...
A tristeza passa...
O bom é fazer como você: estar presente em todas as emoções. Sempre.

Patrícia disse...

Talvez estando triste a gente note mais as alegrias... me sinto assim também e já achei estranho. Bom saber que não sou só eu! As vezes preciso de um dia de tristeza para colocar a cabeça em ordem e cair na real!

Beijos

Taffarel Brant disse...

Bom é sentir-se bem, sem se importar com poréns.

Gostei das tuas linhas.

thie disse...

"Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza...
Senão, não se faz um samba não"

será efêmera esta sensação de felicidade que a tristeza trás consigo, esta lucidez, ou a tristeza que se sente quando vemos a felicidade tomar conta do mundo e percebemos que não é eterna?
é, a tristeza é uma cadeira de balanço em seu absoluto conforto. Apesar de tudo ainda gosto de sorrir.

Eliete disse...

Se não ficarmos tristes, de vez em quando, não saberemos dar valor à alegria.beijinhos

Michele disse...

Acho que o que acontece mesmo é que a gente se acostuma com os nossos sentimentos, Be. E eles, sejam quais forem, acabam se tornando nossa "zona de conforto". Sabe aquela história de que quando tudo está bem demais, feliz demais, dá medo? Deve ser por isso... meio tristes, não há tanto a se perder.

Um beijo, querida!

Alässe disse...

Gosto muito de seus textos aindei lendo o que vc escreve do canto direito da página, você já leu aquele livro Labirinto também não foi?

Be Lins disse...

Olá,
que prazer ver essas linhas,
e perceber nelas um pedacinho de seus tempos dedicado a se comunicar comigo. Chamo isso de pequeno milagre, nunca nos vimos, não nos conhecemos, mas nos comunicamos.Isso é bárbaro.

Um beijo bem especial em todos vocês.


...........


Alasse,
o livro Labirinto é sem dúvida um dos meus preferidos. Obrigada por sua observação.


*

Alexandre Spinelli disse...

Presentinho pra ti. Espero que não se importe... Beijo


No conforto da tristeza sempre faço o meu lugar
Identifico-me sem receio, como de costume.
Sei que em tudo há um lado bom, mesmo que nem sinta o perfume
Sei que sempre haverá algo para nos inspirar

Com minha tristeza não poderia haver variante
Ela me traz de volta à realidade, não mais sonho
Muito mais real que as efemeridades que componho
É retorno à lucidez depois de um porre enebriante

Na tristeza me pego no colo, me faço ninar
E canto leve para essa luz que se faz dentro de mim.
Vejo meu chão firme e que para medos não há lugar

Desta cadeira vazia olho para todos e, enfim
Percebo que seus sorrisos na verdade são tristeza
A minha, estranhamente, traz alegria à minha mesa