quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Uma História de Natal


Fazem três anos. Poderiam ser quatro, dez, tanto faria. É uma data parada no meu espaço sideral. Dia 24, véspera de Natal, meu pai e minha mãe resolveram preparar toda a ceia pessoalmente. Todos os detalhes. Passaram o dia todo juntos em casa, coisa não tão comum para dois 'rueiros juramentados', como comuns não pareceram as atitudes e o comportamente do meu pai naquele dia. Ficou grudado em minha mãe o tempo todo, falando de coisas do passado. Queria conversar, falar sobre tudo... Do nada, saiu. Voltou com chocolates. Pra comerem juntos enquanto preparavam tudo. Ferrero Rocher. Virou o 'chocolate do pai', aqui para nós. Arrumou-se bonito para ir à missa, e durante, ficou calado e com uma expressão muito diferente no olhar. Na saída da missa ele disse à minha mãe que a data mais amada dele era justamente o Natal. Nunca ele havia dito isso. Ele amava o Natal. Chegaram por primeiro ao salão onde seria nossa ceia, como por primeiro ele sempre chegava em todas as festas, porquê se considera um festeiro por natureza, e preparar a festa já é festa para os bons festeiros. Mas ele não parecia um festeiro naquele dia. Estava introspectivo. Mas doce, muito doce. Quando desci para a festa, o vi no portão. Fumava um dos seus cigarros, placidamente, olhando para o céu, e olhando pra mim. Abraçou-me e disse que estava a minha espera e que eu demorei demais. Demorei demais, sem dúvida. Perdi tempo com detalhes bobos, coisas banais tipo esqueceram de acender aquelas velas, telefonando pra minha tia atrasada como sempre, falando coisas corriqueiras com minha minha mãe. O meu eu racional. O meu eu ali presente. Mas o meu eu intuitivo observava coisas que só me lembrei tempos depois. Tive a certeza de haver um 'eu interno' depois dessa ocasião. Eu havia percebido coisas que ficaram registradas por olhos internos que registravam que algo não estava correndo normal naquela noite. Papai sempre foi um apreciador dos prazeres etílicos, mas naquela noite, aceitou apenas água. Notei aquilo, mas não atinei ao significado daquilo. Conduziu a ceia, à cabeceira da mesa, falou umas palavras bonitas e serviu o peru de Natal orgulhosa e pessoalmente à todos. Falou sobre sonhos. Falou que no próximo ano ele queria mudar muitas coisas. Estava cheio de planos de se tornar uma pessoa mais leve. Fiquei tão feliz por ouvir seus novos planos para uma nova vida. Uma vida mais leve. Ele estava com uma suave expressão em seu rosto forte e único. Foi uma bonita e tranquila noite de Natal. Na hora da despedida, quando ele decidiu se recolher, pegou minhãs mãos e disse: _ desculpe! Eu devo ter feito uma cara de espanto, obviamente. Perguntei, _ desculpe de que, Pai?... Ele apenas respondeu: _ as besteiras que eu possa ter dito à você. Abraçamo-nos e ele subiu. Fiquei com um amargo na boca, eu e meus eus ali parados no portão. Meu pai me olhou na chegada, e eu fiquei ali, olhando a sua saída.





[Se a gente soubesse...]





Entrei, dei umas voltas em torno da mesa, do pátio, estava inquieta, bem mais do que o costume. Liguei pra mim minha mãe, queria saber do meu pai. Ela disse que ele já havia deitado, e como boa portadora da síndrome DDA, minha mãe distraída nada percebeu demais. Perguntei se ela achava que ele tinha gostado da ceia, se tinha se distraído, se estava bem. Ela disse que sim e que eu precisava relaxar a minha cabeça tensa. Desliguei com a confirmação de que ele estava bem. Sempre foi um gigante. Creio não ter lembranças de tê-lo visto com dor, ou deitado, ou doente. Ele sempre estava bem. Mas com a saída do meu pai da festa, decidi ir dormir também. E dormi um sono estranho, ainda mais estranho do que os meus já costumeiros sonos estranhos. No meio do meu sono o telefone tocava insistentemente. Uma vez, duas, três... eu tinha que atender mesmo não querendo. Temendo. Não era sonho, o telefone tocava. Meu irmão, às oito horas da manhã do dia de Natal me ligava para avisar que o nosso pai estava no hospital. Ele apenas disse: _ Venha logo! De repente pareceu que eu nunca tinha dormido na vida. Vesti a primeira porcaria de roupa que vi pela frente e sai rumo ao hospital com meus dois eu falantes: meu eu racional ia no caminho pensando em qual hospital devíamos transferí-lo, quais amigos médicos ligar para pedir orientação, operacionalizando ensandecidamente. Meu eu intuitivo apenas sabia, e acarinhava minha parte de alma que tanto doía. Entrei no hospital e avistei em cada canto alguém conhecido.Meus irmãos, minha mãe, caras conhecidas e tristes iam chegando, em silêncio. Tantos amigos. Nossos, os amigos deles, os amigos nossos. Um médico amigo. Doutor André. Aproximou-se de mim e eu, feito uma louca fui perguntando oque iríamos fazer, para onde levar, se precisaria operar, oque eu poderia ir providenciando. Ele ficou em silêncio e me olhou como se nos conhecêssemos a anos. Pegou as minhas mãos e disse apenas: foi fulminante, fizemos tudo oque podíamos.



[COMO ASSIM?]



Ele acordou muito cedo e ficou zanzando. Eles iam para chácara preparar o almoço de Natal. No caminho, ele não sentiu-se bem. Estacionou o carro, e mamãe sugeriu passarem primeiro no hospital. Como um gentleman, ele dirigiu até o hospital, estacionou o carro, desceu e caminhou até o saguão do hospital, onde desmoronou. Ele não deu trabalho nenhum, trouxe minha mãe até aquele local para que ela não tivesse que passar pelo susto em casa. Nem ela, nem nós. Creio que essa é a pior parte. Imaginá-lo sentindo uma dor absurda capaz de roubar-lhe a vida. Ele caminhou até a morte como um cavalheiro autêntico. Meu pai sempre foi um gigante. Foi um construtor. Traçou seus planos, e seguiu feito um trator realizando. Era bonito, um lorde. Muito alto, muito charmoso, muito elegante, uma cabeleira cinza muito vasta, parecia um leão,tinha porte, alguma alegria, muitos enigmas. Era triste também, portava essa tristeza genética de quem não consegue se adaptar, não consegur entender, embora não alardeasse isso. Eu sabia oque ele sentia porque sentia igual. Éramos muito parecidos. Somos todos dados a parar e ficar olhando o nada por horas a fio. Sem pensar nem entender nem procurar. Apenas, plainar. Ele queria ser aviador. Mas vovó não deixou. Queria seu filho com os pés no chão. Roubou-lhe as asas e o sonho, a boba. Toda vez que um avião pequeno risca o céu, eu penso nele. Penso que pode ser ele num aviãozinho celestial me vigiando pra ver se não cometo o mesmo erro que ele: pensar demais. Sua frase preferida foi talhada por uma vida movimentada e testada nos limites:

_ não esquente a cabeça. O homem de cabeça quente, recomendava o que não seguia.



Doutor André ficou me olhando. Olhando a minha não reação. Devo ter ficado com os olhos arregalados e sem movimento. Nunca imaginei algo tão bizarro para viver. A morte. Eu apenas perguntei se ele tinha certeza que nada mais poderia ser feito. Ele contou-me que seis meses antes, perdera seu pai nas mesmas condições fulminantes. Disse-me no meio das suas lágrimas que tudo que ele queria ter feito para salvar o pai dele, ele fez pelo meu pai. Nos abraçamos e uma paz entranha tomou conta de mim. Ele foi falar com os outros todos, e fiquei só. Fechei os olhos, e senti meu pai ao meu lado. Ele dizia num som que não sei definir, que andava muito cansado, e disse algo sublime _ ... aqui está tão bom! Eu ri, abracei ele apertado dentro da minha mente e fiz oque ele esperava de mim. Levantei a cabeça. Não entrei para vê-lo. Não repcisava ver aquilo. Ele não estava mais ali. Ele estava do meu lado. Livre. Livre de todo e estava bem. Em partes. Óbvio.

Fomos os quatro, eu e meus irmãos providenciar tudo, enquanto amigos pipocavam de todos lados, cuidando da minha mãe, trazendo cafés, calmantes, balas, carinho, abraços, lágrimas, dor. Assinamos um papel onde constava o nome do homem que esteve em meus registros de vida todos. Aquele nome elegante num atestado que falava de causas que ningupem queria conhecer. Um abrigo para o seu corpo de carvalho maciço. Um local de despedida distante, no meio de um parque onde o pó voltaria ao pó, para brotar verde. Nunca imaginei que ele fosse tão querido. Um dia de Natal e todos os amigos, parentes, clientes, funcionários, abriram mão do dia de festa para estar conosco. Para ver o amigo sair dessa cena, e adentrar dignamente na próxima. Fiquei em silêncio durante todas aquelas imensas horas estranhas. Mas não senti dor. Física. Nenhuma dor. Ficava pensando como de fato ele era um festeiro. Fez sua despedida no dia da sua festa preferida e conseguiu reunir todos, todos os seus seres amados num dia de Natal.

[Estranho conseguirmos reunir tanta gente na morte e não conseguirmos reunir igualmente na vida...]

Passados esse anos sem a presença física de meu pai eu noto o quanto ele foi especial. Muitas nuances maravilhosas dele eu só percebo a grandiosidade hoje, e arde feito brasa pensar que não disse muitas coisas à ele, não fui oque poderia ter sido, perdi tanto tempo, podia ter feito tanto... queria tanto que ele soubesse da minha admiração. Da minha imensa admiração. Resolvi escrever para lembrar. Para sentir. Nunca mais vai haver um Natal realmente feliz. Fico pensando nas pessoas, que como eu inclusive, acham que é só uma data comercial, que tudo é uma palhaçada, que reunir e abraçar uma vez por ano é hipocrisia, aqueles argumentos insensíveis vindo de corações que na verdade doem, né?... fico pensando que se eu soubesse, antecipadamente que aquele seria o meu último Natal com ele, teria feito todas as extravagâncias imagináveis para que a noite de Natal fosse muito mais linda. Muito mais repleta de alegrias, de surpresas, de abraços, de euteamo, mesmo que depois a gente não fosse tão efusivo assim, mas naquela noite, eu não perderia a chance de fazer quem eu amo feliz. Ele feliz. E é pelas pessoas que eu amo e que são muitas e especiais, minha mãe, meu anjo e meu amor, meus irmãos, meus amigos, meus queridos, toda gente que me faz sentir um pouco gente também que escrevo aqui essas mal traçadas linhas, para acarinhar a lembrança e para que a força me habite, para que, apesar de tudo eu ainda consiga realizar um Natal cheio de amor. Por ele, e por todos que igual a ele, um dia irão partir. E a hora, a gente nunca sabe na véspera...

[Ele, meu pai, segue leve dentro de algum aviãozinho intergaláctico, porquê céu deve ter a ver com sonho, e o sonho dele era voar. Leve, tenho certeza que ele voa. Amo você, Pai!]


*

6 comentários:

Xica disse...

Nossa, eu chorei lendo seu texto agora.. faz um tempinho que não comento mais aqui, mas não pude deixar de comentar hj..perdi meu pai dia 22/12, ontem fez 14 anos, nós rezando pra que ele aguentasse até o Natal, mas ele quis ir antes.. mas no meu caso ele já estava doente.. É uma barra né? Parece que fica marcado pra sempre. Mas de onde eles estão, estarão sempre olhando por nós..
O amor é eterno.
bjus

vanessa leonardi disse...

Li até a parte do aviãozinho e juro que não sabia do sonho de ser aviador... Mandei a imagem como recado no orkut, sem saber de nada...!

Chorei tanto...
Tenho orgulho imenso de vc
beijo com o cheio

.

Lu_ib disse...

Preciso dizer que me emocionei muito lendo seu texto. Chorei feito criança aqui na frente do computador. Você é muito iluminada, viu!? Muita luz em sua vida é o que desejo!

;**

Patrícia disse...

Prefiro só dizer que você escreve muito bem!

Beijo
Fique bem.

Mi disse...

Sempre entro aqui pra ler seus textos que são quase uma fuga pra mim. Hoje eu quis comentar (na verdade, eu sempre quero, mas esqueço).
Um dos meus planos para 2011 é valorizar aquilo que realmente me acrescenta. E a gente nem se conhece, mas você acrescenta beleza na minha vida toda vez que eu entro aqui.
Amei seu texto. Escrever é pegar o que transborda de dentro de nós e transformar em palavras. Por isso eu desejo que transbordemos pra sempre!
Um beijo

Adriana ♣* disse...

Nossa, Be!

Desabei aqui...
Perdi o meu pai há 6 anos. Só sei que a dor de não poder mais ver aquele 'ser' ainda nessa vida é imensa.
Acho que com essas perdas fica uma grande lição: aproveitar o agora porque quem nos garante que teremos o instante seguinte ou o amanhã?
Lindo texto!

Beijão,

Adri