terça-feira, 17 de agosto de 2010

Apesar de

A moça chegou tarde, depois daquela tarde tão fria. Tirou o casaco pesado e cansado de tanto espantar os cinzas golpes do frio, e o amparou junto ao cachecol num canto da casa que a aguardava como ninho. Havia pensado em algumas coisas curiosas no trajeto pelas calçadas e ruas vazias. Ela existia. Estranha sensação que não havia sido notada até então. Ela existia. Algo concreto, estabelecido, havia espaço preenchido exatamente por ela. E só por ela. Ninguém mais poderia ser ela, além dela mesma. E ela existia. Percebia-se como um ser vivente. Apesar de qualquer coisa. Nenhuma variável poderia roubar o fato dela ser quem era. E reconhecer-se como uma pessoa. Nenhuma pessoa desse mundo poderia mais, nunca mais, roubar dela a sua descoberta. Ela existia. Repetiu a frase como mantra, muitas e muitas vezes: EU EXISTO. Eu existo por mim, e não por você. Ou por alguém. Ou por ser útil, ou conveniente. A frase certa seria: EU EXISTO PARA MIM. Podia se ver. Estava presente, mesmo só. Um momento único. Mas será que essa doida nunca havia experimentado esse fato tão óbvio? Não!, não exatamente. Por exemplo, ela nunca sonhou com ela mesma. Sonhava com todas as pessoas do mundo, até com astronautas sonhara, mas nunca se via em seus sonhos. Ela não tinha forma. Expressão. Não ocupava lugar no espaço. Não tratava-se de ser coadjuvante em suas próprias cenas sonhadas. Ela apenas não existia nos seus sonhos. Talvez, fosse transparente demais e com isso, não pudesse ser vista nem por ela própria. Isso faz sentido, parece-me. Essa moça era capaz de ver tudo, todos , até oque não era comumente observado, mas não percebia-se. Entrava e saía da cenas da vida como um fantasma quase inofensível, ou quem sabe um anjo invisível aos olhos humanos que vez por vez, até soprava coisas boas pras pessoas. Uma resposta certa para uma prova. Uma vaga no estacionamento lotado. Uma rua para virar antes de uma rua que oferecesse perigo. Soprava palavras de carinho. De positividade. De amor. Distribuía carinho, e algumas vezes, algumas sombras provocativas para a elucidação de alguma questão. E seguia como nos seus sonhos. Transparente. Sem se notar. Até essa tarde, em que caminhava pelas calçadas e ruas vazias que a conduziam para sua casa que ansiosa a aguardava para fazer-se seu ninho. Em que momento exato isso se deu? Que fato tão eloquente teria feito essa moça perceber-se, afinal, como ser vivente de fato... Alguém a acordou dessa aparente hipnose de ausência com um grito? Com um sopro? Com um abraço? Com pedras na mão? Com sonhos no céu? Para falar a verdade, eu não sei. Parece ter sido o silêncio, mas não sei. A única coisa clara que podia-se saber dessa breve passagem de vida de uma moça que não se percebia, ao final daquele dia, é que ela descobrira, com veemência e alegria, que ela existia. E que isso era bom. E que por isso, ela sorria. E não tinha nada a ver com a presença de ninguém, a não ser com a presença dela mesma. Existindo. Foi dormir feliz, a moça. Na sua casa quente, envolvida pos suas cobertas quentes, e com a sensação sedosa de que se sonhasse nessa noite, sonharia afinal, com ela mesma. Essa é a moça que descobriu que existia, descobriu nessa tarde fria, que existia, 'apesar de', ou mais precisamente, sobretudo e absolutamente.





*

5 comentários:

Marina disse...

Simplesmente LINDO! Quantas vezes nos vemos como meros figurantes em nossa propia história... e qnd descobrimos que podemos EXISTIR independente do que o mundo ache é simplismente mágico ^^


Deus abençoe

Sem mais
Mari

Adriana ♣* disse...

M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O!!!!

Sabe quando lemos alguma coisa que parece que foi escrito pra você?

Sinto assim. Parece que você escreveu pra mim...

E é isso...

Você escreveu para todas nós que estamos nessa sintonia fina...

Beijos e obrigada,

Adriana

Shuzy disse...

Esse blog é perfeito*

Roberta Mendes disse...

Ser é um susto. Sempre que me ocorre o quanto sou, meu coração dispara ao encontro da vida.

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Há silêncios por aqui também...

Será que um dia vamos conseguir arfar todos os vazios?

Onde estão nossas asas de gaivota?


Te abraço com respeito