domingo, 25 de julho de 2010

Inocência Pisada

E sobre sua vaidade, que não tinha
NADA A VER com a sua escrita, Clarice Lispector disse:

_ Gosto é que me achem bonita, confesso.
Isto, sim. Me faz um bem enorme. Eu tinha muitos admiradores.
Há homens que nem em dez anos me esqueceram.


Isso ela disse com quase sessenta anos, perto da sua partida. Pergunto-me como é importante para nós, mulheres, sentirmo-nos admiradas. Se me perguntassem pelo que eu preferiria ser admirada, pela inteligência ou pelo meu poder de atração, adivinha só. Sou do time da Clarice, e diga-se que, se ela pôde sentir isso, com tanto talento, e dom para as palavras e reconhecimento e prêmios e tudo que um autor pode desejar para sua obra, que dirá eu. Confesso-me como ela nesse sentido. Tudo pode acontecer num dia, todo trabalho ser reconhecido, realizar muitas vendas, obter muito lucro, falar com muitas pessoas, algumas até dizendo que sou bacana e tal, mas, pra dizer que ganhei o dia, isso tem a ver com um elogio do meu ser aqui de fora mesmo. Nem que seja do moço da obra falando algum elogio bem grosseiro, ou que seja um assobio distraído de algum carro passador. Se for específico, então. é a glória. Sentir-se bonita. A beleza tem poder. Tudo bem, tem que se saber fazer bom uso da beleza, ter acrescido a ela personalidade, blablabla, mas a verdade é que oque, no fundo, todas nós mulheres desejamos, é sim, nos sentirmos B O N I T A S. Não é à toa que um dos segmentos da economia que mais cresce seja o voltado para a beleza. Acho justo. Que descubram-se cada dia mais recursos para sermos ajudadas nessa luta inglória. Acabo de ler a biografia recente de Clarice, muito completa e densa, e a partir dela, arrisco-me a dizer que o que matou Clarice tão precocemente não foi a doença, mas a tristeza de se ver sem seus atributos tão afamados de beleza. Ela dizia: serão os lábios de uma velha não mais beijáveis? Preocupação efêmera? Falta de ter oque fazer? Não creio. É uma dor conhecida de todas as mulheres que envelhecem um ano a mais a cada ano em suas vidas, e com isso, sentem a consciência do fim. Fim do que? Fim, término, perda, o cabo da boa esperança, os escambau a quatro. Sei lá, acho que é isso, e se não for, mil perdões, mas ler Clarice é sempre algo diferente, inusitado e distante do mundo das ilusões. Lê-la é cair na real. Doa a quem doer.


*

3 comentários:

Lia Araújo disse...

Be Lins, adoro a Clarice!
Ela tem uma aura linda. Eu me identifico com tudo que ela escreve. E vc a definiu lindamente, é cair na realidade! Ela realmente era uma mulher linda e com todos os atributos de ser uma mulher inesquecivel, realmente! Acho que devem existir homens que ainda lembra-a saudosos.
Sobre elogios a nós... tem coisa melhor?
E sim, tento lugar contra estetiopitos, mas não consigo ver sapatos em liquidação, perfume e tudo mais! rsrs
Mea culpa!


Bjos querida
Obrigada!

bom semana

Redescubra disse...

Descobri blog lindo...

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

E você está maravilhosamente Lispectoriana neste texto.

Essa sua cabeça é profunda Bê, despontam formas que se alongam sabe. E faz a gente parar pra pensar nas incoveniências do tempo.
Nesse relógio humano que nem sabe marcar.


Te respeito demais.