quinta-feira, 22 de abril de 2010

Só Você

Meu pai faria 70 anos na semana que passou. Estou com muitas saudades dele. Hoje, especialmente, não sei se por causa do meu lado criança tão presente nesse momento, ou do dele, que era o adulto com mais facetas infantis que eu conheci. Somos, ou éramos, não sei bem que tempo usar, mas enfim, somos muito parecidos, meu pai e eu. Sempre dispostos. Sempre botando a roda pra girar. Sofrendo sempre com todas as coisas que não entendemos, mas nos consolando com tanta facilidade com os pequenos agrados que a vida nos dá, ou que a gente compra mesmo... O rosto do meu pai, é um rosto com traços que guardam a expressão dele de quando menino. Olhar uma foto dele com dez anos, ou com sessenta, e a gente diz, não há dúvidas, lá está ele com sua cara de moleque de olhinhos apertados. Fico pensando tanto que agora, onde ele está, ele pode ver minha realidade de forma mais ampla, total... me instiga saber o que ele diria das confusões todas em que me coloco. Ou caio. Ou despenco, de gaiata no navio. Queria estar do lado dele agora. Ele diria, tenho certeza, frente à minha aflição, a sua mais célebre frase:
_ Não esquenta a sua cabeça!
_ Quantas saudades da simplicidade que você fornecia aos meus grandes pequenos problemas. E qual foi um deles, Pai, que você não tenha solucionado pra mim? Agora você está em ainda maior vantagem, além de continuar a ser um gigante, está no reino das crianças, da pureza, e dos olhos que a tudo espiam e alcançam, que tudo vêem, só que com doses muito mais generosas de amor. Ah! Pai, não há nesse mundo todinho, uma única pessoa que eu quisesse mais do meu lado agora do que você, e antes de dormir, sentir seus passos vindo pelo corredor, ouvir o suave abrir da porta do quarto, e você entrando de mansinho, espiando por cima das cobertas pra ver se eu estava bem e soprando o seu beijo mais terno pra eu dormir feliz. Você sempre deixava a luz do corredor acesa, e eu achava isso tão engraçado, porquê nunca tive medo de escuro, lembra?... Qual foi mesmo a última música que ouvimos juntos, naquela noite, no portão de casa, na última vez que nos vimos?
_ Vem cá querida, me dá sua mão!... Você sempre trocava o Luiza de Jobim, pelo querida, que era eu. Que sou eu pra você. E você pra mim. Será que ainda tenho direito a um pedido?
_ Pai, canta pra eu dormir essa noite?


*

10 comentários:

Leo disse...

Bezinha querida.
Fiquei emocionado ao ler,
pude sentir a emoção e amor
em cada palavra que escreveu.
tenho certeza que um dia
vai reve-lo, na casa de nosso
Pai, há muitas moradas.

Hoje eu deixo a ti o meu
beijo cheio de carinho, direto
do palácio do princípe.

Letícia* disse...

lindo...

Denise Portes disse...

Que lindo Be!
Beijos
Denise

Melina disse...

Lindo post, Be*.

Tenho certeza de que ele continua cantando para você.

Mel.

Aline Lima disse...

ôÔô minha querida...
que texto lindo!!! meu pai partiu, há um ano, e sei exatamente o que vc sente... o mundo sem eles é menor, de certeza!

lembro,de uma música do gonzaguinha que diz assim:

FELIZ
Para quem bem viveu o amor
Duas vidas que abrem
Não acabam com a luz
São pequenas estrelas
Que correm no céu
Trajetórias opostas
Sem jamais deixar de se olhar

É um carinho guardado no cofre
De um coração que voou
É um afeto deixado nas veias
De um coração que ficou
É a certeza da eterna presença
Da vida que foi
Da vida que vai
É a saudade da boa
Feliz, cantar

Que foi, foi, foi
Foi bom e pra sempre será
Mais, mais, mais
Maravilhosamente amar

Um abraço carinhoso!
aline.

silvioafonso disse...

.


Be Lins, eu ainda me lembro bem...
Parece que vejo o meu pai deitado cobrindo o rosto, escondendo os olhos.
Corri ao quarto e me joguei por sobre ele, o meu herói. Fiquei meio que sem jeito com o que vi e senti a minha cara enrubescer. Eu não sabia o que fazer com a certeza que eu tinha de que cisco algum havia caído nos olhos dele para deixá-los tão úmidos, avermelhados. Foram estas as suas desculpas ditas ao pé do meu ouvido enquanto abraçava e beijava o filho que eu era. Hoje eu sei o quanto é difícil esconder o pranto que não cessa. Como é duro não chorar e ter que explicar as lágrimas que entristecem a alma.
E o meu pai chorou...
Chorou por não ter o mínimo necessário para nos manter a mim e as minhas irmãs naquela época para que fôssemos como as crianças que frequentavam a nossa casa.
Hoje eu choro por coisas que eu não sabia existir no meu peito, que me sufocam e quase matam.
Ah, meu pai...
Que saudade eu tenho de você. Como é difícil bancar o super herói só com palavras exatas e atitudes coerentes, como você era comigo.
Estou fazendo de tudo, meu pai, para me parecer contigo e isso tem pesado em minhas decisões. A cada dia eu me vejo mais distante dos seus passos e, não fosse o homem forte e honrado que você fez de mim e eu pensaria até, em parar de caminhar.

silvioafonso.





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Denise disse...

LINDO!

Me pego pensando na palavra "querida" e me lembro de uma canção que diz + ou - assim:
Que nunca se contamina
E sempre fica contente
Com o que lhe é oferecido
Este me é muito querido
É muito querido a mim

Este me é muito querido
É muito querido a mim

ser QUERIDA assim é pra poucas.
afagos

Schleiden disse...

Tentei. Mas à vezes a sensibilidade é silenciosa.
Não há o que comentar.

Inefável.

Be Lins disse...

Quero agradecer bastante todas as delicadas palavras que vocês, pessoas tão bonitas, deixaram aqui hoje. Nos unimos na emoção, nas lembranças, na sensibilidade, obrigada por estarem por perto, e fazerem desse espaço, um lugar especial.

É nosso, e grande como um coração.

Beijos em todos.

thie disse...

nossa, moça, impossível não se emocionar com uma declaração tão pessoal e de tanto amor...
que a saudade nunca seja maior que a memória linda que guarda.
um beijo, uma estrela e um sonho pra ti...