domingo, 24 de janeiro de 2010

DEIXAR


A voz dele estava triste. Ele tentou dar aquela risada gostosa que, segundo o que ele diz, só eu sou capaz de despertar, mas algo não estava bem. Ele me queria por perto. Mais que perto. Dentro, pelos lados, envolta, em torno, profundamente, inteira, entregue, de portas abertas, ele queria ouvir que a casa é dele. Mas isso quebrava todas as regras. Dele. Ele é a combinação de todas as confusões juntas, e está aqui, efetivamente do meu lado. Se quisermos, em menos de cinco minutos estamos juntos. Mas não podemos. Nos machucamos, nos quebramos, não nos confiamos, sabemos que somos o fascínio e a dor conjugados no mesmo verbo amar, que estar perto significa o risco de um mergulho em águas perigosas, águas que não sabemos se rasas, ou profundas, mas em todos os casos, perigosas. Somos perfeitos na impossibilidade. Somos Tristão e Isolda por opção, por saber que assim nunca nos perderemos. Foi o acordo... mas ontem, ele parecia aflito, portando uma urgência que me assusta. Assusta-me justamente pelo irresistível sinal do querer. Recíproco imensamente. Já fomos um do outro. Já nos ferimos com ferro em brasa. Já choramos as dúvidas e as desconfianças que, justamente a segura distância é que consegue calar. Mas a delícia de encostar nossas palavras umas nas outras, e ver que a música que emitimos juntos, e somente juntos, nos aquece de forma única, não nos permite resistência. Somos improváveis juntos. Mas somos adoráveis juntos. Quando fecho os olhos e nos vejo juntos em qualquer cena, somos complementares, a peça um do jogo do outro. Comentei como ele estava bonito naquela foto, ao que ele disse, "imagine se você estivesse ao meu lado...". Estou aflita, e não aflita ao mesmo tempo, porque essa dor na voz dele é a minha única garantia. É a minha paz e a minha tortura. Por que eu resisto? Porque ele é um caçador por natureza. Quando ele me perguntou porque não, porque não aceitava quase nada dele, eu disse que não aceitava porque não queria perdê-lo. Ele consentiu. Conhecer-se é sábio. Eu sou a entrega e ele o conquistador. Esse é o nosso jogo, esse é nosso amor, seus suspiros de saudade podem ser minha armadilha fatal. É hora de saber jogar. Sim, porquê amor exige um pouco de estratégia, exige que se escutem os apelos da auto preservação, exige que não ignoremos as feridas, as marcas, os estragos que portamos na cara. Mas, a poesia não me larga, bate à minha porta e à ela não posso deixar de receber. Ela chega de mansinho e me entrega um pedaço de bolo docinho, que em seu interior, esconde um bilhetinho para me lembrar:



"...e de mãos dadas com o DEIXAR é que se vai além"


Ai, Ai !...



[ minha impulsividade parece cão doido louco pra fugir pra rua. Penso em todas essas conjecturas estratégicas, mas meu impulso é gritar que sou louca por ele e que, ás vezes, acho que ele é ainda mais louco por mim.]



*

8 comentários:

vanessa disse...

.
e quem não é?
eu sou


beijocas, maninha


=)



.

C. Juliana disse...

Você escreve tão lindamente!

Ailma Cintia disse...

E quem não é? (2)


Me apaixonei por vocês dois. Queria isso. Essa tormema e essa paz.
Já diria o poeta Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que se é.


Eu adaptaria: Cada um sabe a dor e a delicia de amar o que se ama.


Beeeeiiijos!

andressa disse...

q lindo,e ando confusa,e essa frase:"...e de mãos dadas com o DEIXAR é que se vai além"
é o q vou tentar fazer :)

beijos querida

renata carneiro disse...

me arrancou arrepios e quando é assim, pode saber, é porque agregou fundo.

p.s: fico toda toda de fazer parte disso!

um beijo, minha querida.

Renata de Aragão Lopes disse...

As dúvidas são pertinentes

- mas sempre
me sobrou ousadia
para ignorá-las...

Se ajo corretamente?
Não sei.
E quem haverá de saber? : )

Beijo,
doce de lira

Mayara disse...

Primeira vez que visito seu blog, fiquei encantada. Você escreve muito bem, parabéns! O texto ficou ótimo.
x)

Preto e Branco - Lilian Vereza disse...

simplesmente lindo Be!!! sou sua fã!!!