sábado, 31 de outubro de 2009

O DOBRO DO AMOR

Era meia noite. Para variar, estava junto á janela. Despedia-me da noite e de você. E aí, aconteceu de novo. Outra estrela cadente, linda, branquinha caiu bem diante dos meus olhos. Nada de alucinação, nem acréscimos etílicos. De verdade, mesmo. Minha reação faz-me rir. Eu solto aquele _OH!, de quem não está acreditando no que está vendo. Sabe como é? Ah, sim! esqueci que você não sabe. Esquece. O fato é que não considero isso normal. Se em minha vida toda, vi umas cinco ou seis estrelinhas cadentes, foi muito. Nesse mês, no entanto, é a segunda. Tudo bem que hoje em dia eu vivo com os olhos pregados no céu, especialmente à noite. Procuro alguma coisa, mas não sei definir exatamente oquê. Creio que algum tipo de comunicação mágica, porque afinal, o mesmo céu que me abraça, abraça à todos os que amo. Abraça VOCÊ, que no fundo é quem eu busco todas as noites no meu céu. Nas estrelas que vejo, nos sonhos que me ambalam, nas músicas, nas imagens, no canto dos pássaros, em cada partícula invisível de ar. Eu te respiro todo e inteiro. Sou seu satélite, sabia? Giro em sua órbita infinitamente, mesmo sem saber se você me vê. Ou me sente. Ou me quer por perto. Por isso procuro fazer silêncio. Vou te contar uma coisa: eu adoro esse meu particular. Você é o meu mundo secreto. Com isso, conclui-se que devo adorar você, não é?... em público e em particular. Sabe, quando fui até a janela nessa noite, fui tão rapidinho, apenas para dar aquela olhadinha, desenhar um coração na janela e deitar. Estava tão ligada à você, queria deitar logo para sonhar nossos sonhos. Como se você soubesse, e estivesse com aquela estrelinha na mão, pronto para mandá-la pra mim, eu mal apareci na janela, e aconteceu. Foi bonito demais. Foi como um beijo de amor de noite e corpo inteiros. Preciso agradecer aos céus por essa magia que me cerca, e agradecer por ter você de alguma forma, acrescentando estrelas na minha noite, e paixão à minha existência cor de rosa. Beijos, Amor.

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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

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c
o
n
s
a
g
r
e

seus desejos!



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You need chaos in your soul
to give birth to a dancing star.

(Friederich Nietzsche)

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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

CURIOSIDADES















































Você não me conhece. Pensa que conhece, mas não creio que você saiba nada de fato. Nada de importante. Nada do que importa. Quer ver?... Aposto que você desconhece o quanto adoro andar pela praia, e tomar sol com meus seios nus. E isso importa pra mim, porque gosto da sensação de minha feminilidade mais delicada, sendo beijada pelo vento. O Vento, ser masculino que imagino como sendo você. Será que por isso que aprecio tanto o vento pelo meu corpo? Como se todo o teu ser estivesse nele, e adentrasse pelos meus poros. Como sendo vento. Como sendo você. Você sabe disso? Não, você, não sabe. Assim como você não sabe que a cor que prefiro para os lençóis é branco. Como as cortinas, as velas e o tapete de pétalas de rosa que imagino que você prepara pra mim, para minha chegada. Como você disse que seria. Ou será que não disse? Seu ser urgente pensaria em coisas assim? Uma noite tântrica, branca, de sentidos muito mais do que de meros apelos visuais. Você não sabe que amo janelas, sabe? Não, você não sabe. Amo janelas e portas. Gosto de imaginar acolhidas. Portas lembram-me abraços, enquanto janelas, fazem-me lembrar noites sorrateiras. Acho uma fantasia interessante, imaginar você entrando pela janela branca do meu quarto, que está sempre destrancada. Por que será? Você não sabe, certamente! Muito menos saberia que tenho nostalgia pela França porque a minha tataravó, de quem trago o nome, nasceu lá, casou aqui, mas desapareceu um dia, sem maiores explicações, para voltar para os braços de seu amor francês que finalmente decidiu romper barreiras e assumir o amor por ela. Ela deixou pequenas delicadezas para cada filha que teve. Uma delas está comigo. Um broche pequenino em forma de uma estrela lilás. Você não sabe, mas ela aparece pra mim ás vezes, e me diz coisas. Conta-me segredos e diz que não é pecado ter segredos. Pecado é não saber viver. Sonhei com seu amante francês uma vez, um jovem intrigante. Sorria para mim no sonho, e piscava o olho . Mas você não liga pra essas coisas, né? Nem deve ligar se mulheres ficam mais femininas de vestido. Pois eu amo vestidos. Uso vestidos sempre. Sinto-me mais bonita usando vestidos. Curtos, longos, brancos, transparentes. Vestidos. Coisas de moça boba. Coisas. Outra coisa que você não sabe. Sou louca por coisas. Apegada às lembranças que elas carregam. Como aquele coração, lembra? Não, claro que você não lembra. Eu carrego um coraçao na bolsa. Um coração e um tercinho de contas transparentes. Beijo o terço ao sair, e depois de beijar o seu coração, peço proteção para nós dois. Mesmo que você nem ligue. Tenho caixas, malas, pacotinhos, meu tesouro é feito de pedaços de papel, flores secas, poemas, prosas, frou-frous cor-se rosa. Não, não ao estilo barbie. Estilo mulher que ama sua antiguidade, simplesmente. E ama transparências. Sinto-me bonita entre transparências. Certas vezes, danço entre as cortinas do meu quarto, nua, como se fosse para você. Apareço e desapareço, e nessa fantasia, você não olha só meu corpo, você vê minha alma. Alma de louca. Alma de quem nunca está só. Alma de quem tem segredos e orgulhos. Mas que tem leveza quando amada. Leveza de flores de campo. Flores de campos perto do mar. Flores que não são as mais belas e desejadas da constelação floral, mas que é flor mais do que nunca. Flor de resistência. Flor que se rende ao mar, aos portões, ao sol, ao lilás de toda uma vida. Sabe por quê? Porque tenho sorte. Muita sorte. Quando eu nasci, meu pai achou um trevo de quatro folhas no jardim da maternidade. Mandou fazer um, bem pequenininho em ouro, e me deu como presente de nascimento. Trago ele comigo. Dia e noite. Sabia?... não, você não sabe. Você nem sabe a cor do meu sorriso, como poderia saber disso? E como poderia saber que a palavra mais linda do mundo para mim é ENCONTRO? Sim, encontro. Encontrar. Tenho encontrado tantas coisas na vida! Curiosas e bonitas. E pessoas. Curiosas e bonitas. Queria que você tivesse curiosidades sobre mim, e me achasse bonita. Encontrasse em mim o que eu encontro em você. O que eu encontro em você? Aposto que você não sabe, mas isso eu não vou contar. É segredo e está guardado na mesinha de lado da minha cama, junto ao terço de contas transparentes, junto ao coração, ao broche de estrela e ao trevo pequenino. Está tudo guardado junto a mim, e protegido pela janela branca que está sempre destrancada, muitas vezes escancarada, para um vento quente que não cansa de entrar. E trazer o que amo. E trazer vida. E trazer-me de você!









sábado, 24 de outubro de 2009

"Pra você viver mais..."

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Sei que você gosta de borboletas,
Sei que elas vivem te rondando,

então, a próxima que você vir
é só pra você lembrar de mim.






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Relicário


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O que você está
dizendo?
Milhões de frases
sem nenhuma

[flor]

O que você está fazendo?
Por que está fazendo assim?



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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O Entardecer







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Em certa tarde de Maio eu nasci. Naquela data comecei a amar os finais de tarde, e a entardecer junto com elas. Tenho jeito de tarde, e alma de noite. Mas meus sonhos são matinais, benditos e acolhidos, amados e beijados com o frescor de cada manhã. E assim, seja!
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"E SE O BEM E O MAL
EXISTEM,
VOCÊ PODE ESCOLHER,
É PRECISO
SABER VIVER"






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DA VIDA

É o movimento da vida. Pessoas entrando e saindo das vidas umas das outras, num infinito mar de tantos sentimentos. Sentimentos de chegada. Sentimentos de partida. Entremeios. Os começos. Ninguém pensa muito quando está no começo. Deve ser a paixão que nos deixa um tanto quanto crentes no super poder daquilo que começa. Falo isso porquê, se pensássemos que haveria um fim, nos apegaríamos com mais força à magia dos inícios e, empregaríamos mais empenho para alargar a sensação. As certezas nunca são possíveis. Só há a certeza do fim, e mesmo essa certeza não é bem certa, ninguém sabe oque vem depois, quando o filme acaba e a tela mostra o THE END. Viver é uma coisa bastante ilógica. O grande Criador das coisas todas deve ser um sujeito bem complexo, _ pelo amor de Deus! Ontem mesmo foi um dia daqueles, sem lógica nenhuma. Na noite anterior, comemorávamos em família meu irmão preferido, e na manhã do dia seguinte acordamos com a notícia da passagem brutal de um conhecido nosso. Garoto de vinte e cinco anos. Levado da vida com tiros na cabeça ao deixar sua namorada fofa no portão de casa. Ela na UTI, com tiros também. Lindinhos os dois, bons filhos, queridos de todos, e a palavra fim chegou dessa forma inimaginável junto com o dia. E o dia foi punk. A gente pára, pensa e se pergunta que sentido existe na estupidez humana. No cinismo, no abuso da inocência, no furto gratuito das emoções puras, no ultraje. Portar a dor. Qual a função disso, mesmo? Foi um dia de episódios de ignorância e incompreesão. Um dia de absurdos. Mesmo assim, um dia de amor. Vida estranha. Na verdade, nem pretendia escrever sobre, mas agora está escrito e segue com um enter e um pedido:
_ Pessoas queridas que passarem por aqui. Please! entreguem-se de braços abertos à VIDA, mas protejam-se muito. Queria muito crer que só o bem existe, mas o mal nos espreita também.


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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Peço licença, mas preciso gritar.

Que droga!
Que droga!
Mas que puta droga!

Perdão, mas como sou moça que não sabe gritar, vim gritar justo aqui, nesse espaço de carinho. Mas tem gente que consegue, não é? Quer dizer, a gente permite. Ou melhor, eu permito. É feito criança pequena, você diz zilhões de vezes que se botar o dedinho na tomada de luz, vai levar choque. Aí, a abobada da criança vai lá com a mão toda babada e leva um baita choque. E aí chora. Dá vontade de dar umas palmadas, que aliás, é o que ando merecendo por não saber me respeitar. É que sou daquele tipo de gente que, como diz um desconhecido, perdoa rapidamente , ama intensamente, esquece abobalhadamente, se equivoca ininterruptamente, tudo sem noção DEMAIS. Está sempre, sempre tudo embaixo do nariz, e a gente não vê, é incrível! precisa esfregar no seu nariz com força pra cair a ficha. Bem feito, Maria! agora chora, mas vai chorar na cama que é lugar quente.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Polaroides Amorosas







Eu queria ter esse poder, sabia? O poder de , dando um simples sinal de minha graça em sua direção, fazer seu céu se iluminar em cores, azul de bolinha de gude, céu de festa, sorriso de coração, palpitações musicais apaixonantes, suspiros compassados, descompassados, corpo leve, gosto de esperança, crença na sorte, na boa sorte, na eterna sorte de te saber por perto. Ah! coração... esses segundos de crença deixam-me transparente como bolha de sabão. Recebi uma recomendação hoje, já pela manhã, de um amigo especial. ENTRELINHAS ele me dizia para me proteger mais, me cobrir mais, me cuidar mais. Mas, você sempre me faz quebrar regras de segurança. O fato é que não poderia de deixar de te mostrar como o meu céu está hoje por você.
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terça-feira, 20 de outubro de 2009

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

É fácil ser pedra, quero ver é ser vidraça!

Nossa! Nossa! Nossa!

_ será que preciso comprar um espelho novo?
Será que as minhas minhocas mentais me fazem
assim, a réplica de um monstro?

Nossa! Nossa! Nossa!


[diz um preceito bíblico que é sempre bom tirar
antes de mais nada, o cisco do próprio olho]


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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Cinza

Hoje o dia está morno. Sabe morno? Mas no bom sentido. Aquele sentido que lembra um chá de anis, morninho, ou um banho morno, ou de bolo saindo do forno, que a gente espera dar uma esfriadinha, e prova asssim, morninho. Um dia de sensação meio branca, mas não bem branca, apenas clarinha, com nuances de cinza, cinza azulado, porque pra fazer o cinza, tem que ter o azul, sabia? Tenho que apurar meus olhos, e sentidos todos para apreciar os meio-termos. As calmarias. As não-notícias. O filme mais ou menos. A conversa que foi meio fiada. O final não surpreendente daquele livro. A reação não tão intensa. Os meios sorrisos. As eventuais faltas de assunto. Não existe exatamente o tédio. O que existe é o entre espaço. Intensidades ininterruptas geram estresse. Uma vigília permanente pela próxima emoção. Estado de esperar. Às vezes, não esperar nada pode ser bom. Saudável. Salutar. Está certo que ando controlando a ansiedade com umas gotinhas mágicas que o doutor me deu, calar as feras internas é trabalho árduo, mas tá legal assim, Não ando tendo tantos pesadelos à noite, e o sono tem vindo assim, como o dia, morno, apreciável ao toque, acolhedor como uma cama com almofadas fofas. Almofadas de florzinhas coloridas e fundo cinza, porque afinal o cinza também pode ser bem bonito, e o morno, pode ser bastante reconfortante. Um entre espaço até a próxima emoção, que virá em cores fortes, lilases intensos e temperaturas em alta. Oxalá!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Sorriso de uma Estrela


Precisei esfregar os olhos para acreditar, mas juro que não foi delírio. Estava na janela ontem à noite para variar, quando, do nada, eu vi uma estrela cadente. Linda. Foi caindo de mansinho, branca e brilhante, emitiu um brilho verde e evaporou. Fiquei tão feliz, mas tão feliz, que quase esqueci de fazer um pedido. E nem sei se fiz direito um pedido, porque, na verdade, naquela hora eu queria mesmo era só agradecer, porque para mim, foi como um presente do céu, um sinal, um beijo de um anjo, um abraço do cosmos, uma carta de amor, um aval divino de que sendo simplesmente quem sou, sou amada e protegida. Suspirei, claro. Os pensamentos são tão velozes, as ideias se interligam e tantos desejos vêm a mente... Silenciei meio que na marra todas as vontades e apenas agradeci aquele momento especial. E todos os possíveis significados que aquela estrela tão linda trouxe para mim. Que seja tudo como Deus quiser!

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[Como dizia Clarice, vivo em estado de receber carta. Acabei recebendo uma estrela.]

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Mar.ia



Quando se leva o mar no próprio nome, justifica-se mais do que nunca essa paixão, não? Lembro-me da primeira vez que estive em frente ao mar. Fui no colo do meu pai, ele foi me soltando aos pouquinhos, o susto de ver aquela grandiosidade perante os meus olhos de criança pequena. Mas a atração foi tão maior, que após a segunda escapulida das ondas, já estava com os pezinhos buscando o contato. O mar entrou nos recônditos do meu ser e virou tradução de felicidade. Todos os meus sonhos passam-se perto dele. Toda calma que busco para meus dias, eu busco nele, mesmo que de longe, de olhos fechados. Noto nas pessoas que moram na praia, uma calma privilegiada, um olho mais doce, uma s u a v i d a d e . E a alegria tão mais presente. É algo assim que busco para os os dias da minha vida. Quanto às noites, já está tudo certo, depois que fecho os olhos, já sou dele. Sou a Maria do MAR.


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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

QUERIA ESTAR PERTO

D
O

M
A
R

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Quem nunca se sentiu assim?

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Creio que as pessoas são como valises - cheias de certas coisas, levadas daqui para lá, deixadas em qualquer canto, jogadas fora, abandonadas, perdidas e achadas, de repente, meio esvaziadas ou mais cheias do que nunca, até que finalmente o Último Carregador joga no último trem e lá se vão chacoalhando.

[Katherine Mansfield]

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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Faz de Conta

São os dias de Outubro. Faz de conta que não estamos longe. Estamos perto. Em alguma praia mansa onde o sol nasce bem cedo, e no lusco fusco, ao entardecer, vai indo embora devagarzinho, deixando rastros de cores suaves, lilases, um rastro de estrelas que anunciam uma imensa lua cheia. Faz de conta que em dias de lua assim, a gente faz tudo ser especial. Ainda mais especial. Colhemos morangos na nossa horta, colocamos para gelar aquela bebida preferida, nos banhamos separadamente para nos acharmos mais tarde, na nossa varanda branca, da nossa casa de vidro, de frente à nossa praia dos sonhos. Faz de conta que você chega lindo, de branco, cabelos ainda molhados, e vai se embalando na nossa rede branca, imensa, mas onde só cabemos nós dois. Faz de conta que eu escolho aquele vestido levinho, de flores e tranparências, que você tanto gosta. E faz de conta que não uso nenhuma pintura no rosto, só o hálito de málvia fresca e o cheiro dos meus cabelos enfeitados por flores, flores que você colhe todos os dias para mim, no nosso jardim. Faz de conta que quando nos olhamos, na nossa varanda, da nossa casa de vidro, depois de tantas luas cheias juntos, ainda sentimos o coração bater em descompasso, e a pele estremecer naquele misto mágico de paixão e desejo. Faz de conta que sorrimos um para o outro e que ao ver, até a lua e suas milhares de estrelas sorriem junto, e suspiram encantadas. Faz de conta que juntos ficamos, ali, até o amanhecer, entre banhos de lua, de mar, de beijos, de amor, de encanto, de felicidade. Faz de conta que isso isso pode ser verdade, que sonhos se realizam, que você me ama e que o paraíso, pode ser assim. Depois, feche os olhos e faz de conta que ao amanhecer a gente volta pra dentro, deita no nosso quarto de cores suves, e dorme abraçado, com o som do mar vindo de fora, com as flores exalando perfumes de cor, e a gente sonhando com tudo de novo, numa ciranda infinita de amor.
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[CLAIR DE LUNE, claro!]

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

P e s a d e l o

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Para onde foi todo mundo? Que sensação horrível, sensação de que o trem partiu, de que cheguei com atraso à estação. Ainda é possível ouvir o som da locomotiva se afastando, ao longe, apertando bem os olhos, quase consigo ouvir as risadas das pessoas todas. Todas indo para algum lugar. Sensação familiar, essa: sentir-se só na estação. Sento-me ali, em algum dos tantos bancos vazios, e penso que nada adianta, nem choro, nem velas, nem mesmo fitas amarelas. Nem mesmo a meia dúzia de sorrisos e de gotas salgadas que me restam. Será que foi sempre assim? A inexoralidade das coisas... A palavra cruel me ocorre, mas não sei bem o porquê. Ou sei, são as sombras. Todos partiram, mas deixaram suas sombras por alguns longos minutos à mais, para cumprirem seus papéis de sombra. Não, não aquela que se combina com água fresca, mas aquela que é má, assombra. Com tantos sentimentos bons para dividir, por que dividimos o amargo? A dor, claro! As consequências da dor. A ausência das compreensões. Olhando melhor, vejo-me como sombra também, não estou na estação, não me movo. Sem me mover, acordo. Mais um sonho ruim... Digo olá à Vida, com olhar triste. Os fantasmas foram cruéis essa noite. Houve ranger de dentes. E ironia. Odeio mais que tudo na vida, a ironia. Deve ser a falta de talento para. O cheirinho de café me acalma, há luz do dia que reconforta, os espinhos dos lençóis se foram. Fecho os olhos de novo, mas sinto medo, há eco. Rezo. Peço que meus pecados sejam perdoados e que um anjo bom me socorra. E proteja. Faça-me ter bons olhos para poder ver as coisas boas. O dia, então, me abraça. Que ele seja carinhoso! Algo sopra em meus ouvidos, beija meu pescoço. Fecho os olhos. Durmo mais quinze minutos. Tudo está calmo, o dia pode começar. Que venha!

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