sábado, 30 de maio de 2009

Lascívia

Eram dois sem-vergonhas. Não valiam um níquel furado. Ela reclamava dele. Ele reclamava dela. Mas quando se encontravam, a razão não fazia nenhum sentido. Sentido só fazia as mãos dele na pele dela. O sentido só queria, o desejo dela, nas mãos dele. E assim os sentidos todos gritavam. Gritava a visão desnorteada sem saber o que fazer com oque os olhos de um, comunicava aos olhos do outro. Era incadescente demais, queimava as retinas. E as narinas, com o sutil perfume que dele vertia até ela, e que dela seguia até ele, ardente, picante, que fazia as papilas contorcerem-se sem entender como a saliva podia queimar assim, como fogo, e ainda assim, arder mais, e querer que mais ainda ardente se tornasse, e se multiplicasse, e suplicasse em palavras que nem eram ditas, para que o toque fosse urgente, e cessasse aquele tremor que aos dois dominava, sem que mais nada pudessem ouvir, a não ser a música que seus próprios corpos orquestravam, acelerando palpitações, anseando o encontro dos seus sentidos, onde palavra alguma se encaixava, a não ser a que ele sussurra baixinho para ela, e a qual ela responde ainda mais baixo para ele:

_ depois a gente pensa, vamos sair daqui.
_ vamos!

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terça-feira, 26 de maio de 2009

Surreal

Ele disse:
_ você veio?

Ela disse:
_ segui os balões.

Ele disse:
_ então, vamos?

Ela disse:
_ SIM.


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domingo, 24 de maio de 2009

Leve como deveria ser...

Uma bicicleta,
um livro de Amor,
algumas flores bem lindas,
e todo aquele mar à sua frente.

O que mais ela poderia precisar?
_ Claro! Ele perto. Bem perto.

Ele acha que ela não sabia que sempre que ela saía
para passear, colher suas flores e ler um pouco em frente ao mar, ele ficava lá de cima, só a observar. Ela ria dele. E mandava beijos pelo ar, beijos que voavam até ele, como pipas a bailar.
Bem calmo, ele esperava ela voltar.
E ela sempre voltava para ele.


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sexta-feira, 22 de maio de 2009

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Há no Amor um momento de grandeza
Que é de inconsciência e de êxtase bendito:
Os dois corpos são toda a Natureza
As duas Almas são todo o Infinito.

É um mistéro de força e de surpresa!
Estala o coração da terra, aflito;
Rasga-se em luz fecunda a esfera acesa,
E de todos os astros rompe um grito.

Deus transmite o seu hálito aos amantes:
Cada beijo é a sanção dos Sete Dias,
E a gênese fulgura em cada abraço;

Porque, entre as duas bocas soluçantes,
Rola todo o Universo, em harmonias,
E em glorificações, enchendo o Espaço!

_ Olavo Bilac


(tem razão, nós vemos tudo de forma muito diferente)

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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Eu, caio.

Não, meu bem,
não adianta bancar o distante:

_ lá vem o Amor nos dilacerar de novo...



(Caio Fernando Abreu)


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terça-feira, 19 de maio de 2009

Mando-te um sonho bom


Meu Querido,

Escrevo-te para contar que sonhei contigo na noite que passou. Foi uma noite fria, dessas noites frias que gostas tanto. Deixei aquela luzinha acesa, o pequeno ponto de luz em forma de estrela que me destes. Ela brilhava estranhamente mais nessa noite. Dormi embalada pela luz e pelas saudades. Quando dei por mim, estava ao teu lado, dentro de um sonho bom. Estávamos os dois a flutuar dentro de um balão branco, e ríamos e flutuávamos, como duas crianças que somos.
Somos, não somos, meu bem?
Quero mandar-te essa cartinha ainda hoje, para que logo chegue. Sentirei quando ela chegar às tuas mãos, pois ela segue repleta de meu afeto, que ao tocar as tuas mãos e o teu afeto, com o encontro de nossos afetos, emitirá faíscas. Nessa hora estarei a olhar para o céu e, certamente, nossa estrela brilhará. Como sempre, só que com um brilho a mais. Ela me avisará.

Meus beijos são seus,
Lola

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quarta-feira, 13 de maio de 2009

Murmúrios

Dans la vie ou dans le songe
Tout a cet étrange éclat
Du parfum qui se prolonge
Et d'un chant qui s'envola

O claire nuit jour obscur
Mon absente entre mes bras
Et rien d'autre en moi ne dure
Que ce que tu murmuras

_ Louis Aragon


( Jet'aime, idiot!)


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terça-feira, 12 de maio de 2009

Por que não?

Quando
muito
foi tanto,

mas o tanto
virou pouco,
ou quase nada,

é hora de mudar,
buscar outros mares
nunca antes navegados.



É hora de
colocar todos os
sonhos cor-de-rosa
na mala,
e recomeçar.

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segunda-feira, 11 de maio de 2009

sábado, 9 de maio de 2009

E a menina, dança

Essa semana estreei idade nova. Um ano a mais para estar por aqui. Decidi receber a idade nova com algum capricho. Não sou muita dada á celebrações, mas algo anda mudando consideravelmente em meu modo de ver as coisas todas. Esse ano já começou muito diferente de todos os outros. Os primeiros minutos do ano, ou horas, melhor dizendo, foram embalados por um pilequinho de champagne e a companhia de um certo alguém que não vou esquecer nunca. Foram especiais os primeiros instantes do ano...

Com meu aniversário, resolvi celebrar também, dizer para vida:
_ ei, vem cá então vem, vamos dançar.

E aí a gente dançou.


http://www.youtube.com/watch?v=XZYz5h76dEw
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quarta-feira, 6 de maio de 2009

Em Lugar de uma Carta

Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto -
um capítulo do inferno de Krutchônikn.
Recorda -
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje, te sentas
no coração - aço.
Um dia mais

e me expulsarás,
talvez, com zanga.
No teu hall escuro, longamente o braço
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
lançarei meu corpo á rua.
Transtornado,
tornado,
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor,
meu bem,
que digamos até logo agora.
De qualquer forma
o meu amor
duro fardo, por certo -
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.

Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.

Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.

Afora o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com o seu brilho.
Amanhã esquecerás
que te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos - rodopiante carnaval -
dispersarão as folhas do meus livros...

Acaso as folhas secas desses versos
far-te-ão parar
respiração opressa?
Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.


Vladimir Maiakóvski
26.maio.1916 Petrogrado


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