quinta-feira, 30 de abril de 2009

BE AMOR

Ontem, nessas idas e vindas cotidianas para lá e para cá,
deparei-me com isso pichado num muro branco:
BE AMOR.

Para quem seria essa expressão de amor?... alguma Berenice,
Bernadete, Bernarda, Betina, Beatriz?
Quem seria a moça que inspirou esse poeta minimalista?, o que
será que essa moça fez de tão especial para arrebatar de seu
poeta, uma demonstração assim? Fico pensando em como até
os gestos mais prosaicos, em nome do Amor, fazem-se imensos.

É claro, que por um momento, fantasiei que pudesse ser pra mim.
Meu amor, teria pressentido que ando "meio sei lá", e usando seus
poderes mágicos, ultrapassou todas as barreiras de tempo e espaço
e distância e orgulho, só para me ver sorrir.
Por um décimo de segundo, ele conseguiu. Sorri, e suspirei.
Suspirei de saudade da palavra Amor em sua boca. Sua boca
de menino bonito
de ares apaixonados. Olhei para os lados, te procurei. Não te achei.
Claro!

Passarei por lá hoje, novamente. Talvez eu pare, fotografe, traga pra
junto de mim, aquele pedacinho de Amor. Talvez eu sorria, te procure,
e talvez responda, baixinho, que és o meu Amor também. Pra sempre!


*

*

terça-feira, 28 de abril de 2009

... mais ela do que ela mesma

E a menina corria...
Corria contra o tempo,
contra as bolhinhas no esmalte rosado,
contra o suor que insistia em escorrer por entre seus cabelos,
contra as coisas que não podem ser,
contra os sonhos que ela insistia em sonhar só nos sonhos...

A menina corria arteira com rosto de quem não se cansa.
Rosto de maratonista da vida. Ela corria... Corria!
Vez enquando ela pulava. Saltitava. FLUTUAVA.
Plainava sob o chão como quem persiste no desejo de voar,
de vencer as leis da física que aprendera e desaprendera no colegial.

A menina corria a favor do vento...
Em direção ao mar.
Corria para o seu submundo poético que a fazia ver a vida
preta e branca em infinitas cores. E as cores tinham cheiro.
Cheiro de jasmim. Gosto de sorriso de avó.
E as cores formavam o rosto dele.
E ela o tocava.
E suas mãos se lambuzavam
de cor,
jasmim
e sorriso.

A menina corria para o mundo em que as coisas invisíveis
são sentidas e não precisam ser vistas para se crer que elas ali estão.
Ela corria para um mundo só dela.
Um autismo lírico que a fazia subjugar as constantes decepções cotidianas
e mergulhar num mar onde o Amor não é distante,
onde o espelho não é o inimigo,
onde o seu coração parece
pulsar entre as mãos de alguém que parece ser muito
mais ela do que ela mesma.

E a menina coria,
corria,
e não se cansava de correr.


(presente de Dona, uma amiga querida)


*

sábado, 25 de abril de 2009

(...)

Deslizo ao teu lado sobre as águas.
Deslizo sobre teu peito como vento.
Deslizo e apago meu nome das areias.
Desço do elefante
e passeio à beira d'água.


Às vezes, me esqueço de ti,
às vezes, te ouço.
Estou ao teu lado, mesmo aqui.


(Thereza Christina da Motta)


MESMO AQUI


*

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Leite Derramado

Nem parei pra pensar
de onde vinha a minha raiva
repentina,

só sentia que era alaranjada,
a raiva cega
que sentia.


(Chico Buarque)

.
.
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Leite Derramado

Eu,
por mim,
sonhava com você
em todas as cores;
... mas meus sonhos são que nem cinema mudo.
*
(Chico Buarque, do livro Leite Derramado)
.
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quarta-feira, 22 de abril de 2009

Casa 12


_ Mas quem estará batendo? perguntou-se.

Abriu a janela e deu de cara com um rapazinho que carregava várias caixas de presente nas mãos, e que, ao vê-la, prontamente disse:

_ Entrega, moça!

_ Ah, não! Você deve ter errado de endereço, rapaz, não deve ser aqui, não.

_ É sim, moça! Rua da Glória, número 12.

_ Está em nome de quem?

_ Só consta endereço, e tá sem remetente também.

_ Moço, com certeza isso não é para mim. Sinto muito mais não vou receber.

_ Moça, eu sou pago para entregar no endereço. Esse é o endereço, por isso vou deixar as caixas aqui. Fui!

_ Como assim, fui?... Volta aqui!




Já tinha ido no segundo seguinte, deixando junto ao pequeno portão de ferro, as caixas de presente. Obrigou-se, muito a contra gosto, a abrir a porta e apanhar os pacotes.


_ Mas que raios de pacotes serão esses?


Ela não era dada a apreciar surpresas, não conhecia uma única alma que fosse capaz de fazer uma coisa dessas, e além de tudo, nunca tivera sorte com presentes. Não gostava de presentes. Os poucos que recebera, foram repetições tediosas do mesmo tema: lenços, meias, pentes de cabelo, e até um esmalte ganhara uma vez. Quem presenteia alguém com um vidro de esmalte? bufou.

Colocou os embrulhos sobre a mesa. Detalhista que era, examinou-os primeiro com os olhos, e depois, meio receosa, com as mãos. Cinco caixas embrulhadas com papel refinado, em vários tons de cor-de-rosa. Apreciou a textura do papel, a cor. A cor rosa fez-lhe lembrar que havia recebido um buquê de rosas cor-de-rosa em certa data. Preferiu não pensar nisso, no entanto.



_ E agora?... o que eu faço com esses pacotes?


Não havia etiqueta de loja que pudesse indicar algo, nenhuma coisa escrita, nenhuma indicação que pudesse apontar do que se tratava. Pensou. Pensou e decidiu não abrir.


_ Pronto! não vou abrir. Bateria nos vizinhos, até encontrar para quem de fato eram esses presentes. Aqueles pacotes finos, imagine, "presentes para mim... isso é certo que não". Devem ser para a vizinha da casa quase ao lado, da casa 14. Com certeza! Ela sim tinha jeito de quem recebe esse tipo de coisa. Certamente, algum admirador secreto que enganou-se no número.

E assim fez. A tardinha, foi até a vizinha que tinha jeito de quem recebe mimos, e bateu. Não eram amigas, nem conhecidas, apenas vizinhas. A vizinha abriu a janela, sorriu um sorriso cheio de dentes, e com aquele jeito de quem é feliz todo dia, disse olá, efusivamente.

_ Ei, o que você tem aí? perguntou.

_ Oi, sou sua vizinha, moro na casa 12. Chegou essa encomenda no meu número, mas suponho terem se enganado. Acho que podem ser para você, disse, mostrando os pacotes.


Saltitante, a vizinha abriu a porta, olhou-a e perguntou:

_ Por que haveriam de ser para mim? Não tem nome?

_ Não, sem remetente, sem destinatário, o que sei é que pra mim não são! isso é certo. Aí, imaginei que pudessem ter errado o número da casa, e acho que são pra você mesmo.


Olharam-se interrogativamente, uma a pensar por que raios, ela não pegava logo os pacotes; e a outra, pensando por que ela havia de supor que os embrulhos fossem para ela.
Irritada, ela estendeu os pacotes em direção á vizinha, que sem argumentos, recebeu-os. Despediram-se.


Aquela bobagem toda tirou-lhe o resto de humor, que escasso já lhe era. Pensamentos repetitivos invadiram-lhe a mente, lembranças acomodadas insistiam em pronunciar-se, sensações dolorosas e aquela falta de ar voltaram, depois de tanto tempo.

_ Que droga! que droga!... eu não vou pensar,eu não vou pensar. Sou perfeitamente capaz de me controlar. Respire, respire, respire. Tomou um banho e fez um chá de melissa. Acomodou-se na bérgere macia da sala, acendeu só a luz do abajour, e foi se acalmando enquanto bebericava o chá.

De repente, a campanhia tocou.

_ Ah, não! não pode ser. Por hoje chega. Não vou abrir. Isso, não vou abrir.

A campanhia tocou de novo. E de novo. Ela não teve escolha, e de arrasto, foi ver pela janela do que se tratava aquela incomôdo. Era a vizinha, com os pacotes na mão.

_ Não acredito!

Abriu a porta, desceu as escadinhas, e falou:

_ E então?

De mau humor a vizinha disse:

_ Eu abri, e não são para mim. Tenho certeza que são pra você. Pegue-os.

_ Não são, não! eu não vou pegar isso.

_ Ah, vai sim! e empurrou os pacotes nos braços dela. A vizinha já tinha se virado para ir embora, mas voltou e disse:

_ Olha, acho você muito estranha, acho você azeda se quer saber. Mas, vendo essas coisas aí, acho que entendo você. Abra os pacotes, não tenha medo, vai que as cores voltam, hein?


[Mas que abuso, pensou. Ainda por cima, ter que ouvir as avaliações dessa sujeitinha, francamente!]


E recolheu-se com os pacotes nos braços. A vizinha tomara o cuidado de reembrulhar todas as caixas com capricho, quase não pareciam terem sido abertos. Admirou a atitude, e pensou, como de fato andava azeda. Nas últimas encarnações, pensou.
Decidira abrir os pacotes, afinal. Admirou de novo o bom gosto daqueles papéis lindos que embrulhavam as caixas. Deve ser algúem refinado o remetente dessas coisas, pensou. Pegou a primeira caixa, a maior, e chacoalhou para ouvir o barulho, mas sentiu apenas o deslizar de algo que parecia ser um tecido.

_ Mas o que será isso?

Abriu cuidadosamente o embrulho, e destampou a caixa, que era branca e igualmente elegante. Um fino papel de seda embrulhava algo, e um perfume delicado emanava da caixa. Abriu a seda, e pasma, deparou-se com um lindo vestido de cor marfim, de um tecido leve, lindo e fluído como um canteiro de margaridas. Junto ao vestido, um cartão dizia:

"Feliz Aniversário!"

_ Aniversário? Esquecera-se completamente disso. Iria aniversariar naqueles dias, mas preferira esquecer. Achava não ter sorte com datas, nem com presentes...
Abriu a próxima caixa e nela encontrou uma pipa. Uma pipa! Pequena, delicada, branca, rosa e lilás, suas cores favoritas. E um cartão que dizia:

"Eu gosto de ver pipas no céu!"

Ao ver aquela pipa á sua frente, sentiu-se tonta, tudo girou a sua volta, perdeu o chão e nele sentou-se. Na próxima caixa, que foi aberta avidamente dessa vez, encontrou uma linda caixa de aquarelas de todas as cores, e um pequeno cartão que dizia:

"PINTE".


[Respire, respire, respire, repetia sucessivamente, sem poder crer no que seus olhos viam, e no que aquilo tudo apontava.]

Na próxima caixa, havia um livro. Bastante gasto, marcado, parecia um livro de estimação. E um disco que tinha na capa, uma pipa desenhada num céu azul. Outro cartão:

"Abra seus sentidos!"

Abriu a última caixa, a menor de todas, não sem antes acarinhá-la, cheirá-la, como fazia com todas as coisas que gostava. Sentia-lhes o perfume.
Dentro da pequena caixa branca, havia um punhado de pétalas de rosas cor-de-rosa, e um outro cartão. Nele, estava escrito:

"Roubei essa rosa do buquê que te dei, e guardei-a comigo. Mando-a de volta, apenas com uma pergunta:
_Volta pra mim?

Colocou o disco para tocar e dormiu. Dormiu abraçada a todos aqueles presentes que eram, sim, todos para ela.

Passados alguns dias, ela chegava em sua casa, e ao olhar para o lado, avistou sua vizinha na janela. Ela lhe sorriu um sorriso imenso de todos os dentes, e com olhos curisos pode ver, desta vez, um belo sorriso, em retribuição. Um sorriso imenso, um lindo sorriso de todos os dentes, um sorriso doce.
A vizinha soube, então, que as cores haviam voltado á casa da moça que parecia azeda,mas que doce era. Soube que os sorrisos também voltaram áquela casa.
A casa 12, da Rua da Glória.



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A música:




*


segunda-feira, 20 de abril de 2009

Todo delírio será permitido

Encontram-se, afinal.
E todo aquele mundo de mágoas,
ressentimentos e palavras ensaiadas,
de acusações elaboradas,
desmoronaram quando olharam-se
nos olhos, afinal.
O castelo de cartas de mau agouro
que os separava, que os mantinha,
um do lado de dentro,
outro do lado de fora,
caiu sonoramente.
Estavam frente á frente,
depois de todas as sucessões de
equívocos,
e pensavam como nada mais fazia sentido,
além de poderem
olhar-se nos olhos, afinal.
Reservas esvairam-se,
saudades silenciaram,
e ele estendeu-lhe as mãos,
ela recebeu-as,
aproximaram-se, até os olhos de um
estarem quase dentro dos olhos do outro,
e saboreando o mesmo ar,
suavemente,
encontraram-se no beijo,
afinal.
Um beijo de horas, de corpos, de almas.
O beijo deles.
Sairam do aeroporto,
deixando para trás,
bagagens, documentos,
coisas, coisas e mais coisas,
deixaram tudo para trás.
Não precisavam de mais nada,
tinham-se um ao outro,
e ambos,
um imenso balão colorido,
que os levou para um vôo infinito.
Um balão colorido,
os amantes,
o seu amor,
e todo o céu azul,
para os abençoar.

Aquele balão ali?
_ São eles, em seu vôo de Amor.
Um vôo que será sem fim,
afinal!


*

Um sonho de um filme de cores

Assistir a um filme de Almodóvar é, sempre, uma experiência e tanto. "Volver" foi o filme que vi ontem, uma história bem cuidada, que mostra a força das mulheres, sua imensa capacidade de ultrapassar dificuldades, a determinação feminina e também a beleza das relações de amor familiar.
Com a estonteante Penelope Cruz no elenco, elenco esse, cativante.
Mas o bom mesmo é o espetáculo das cenas. É uma sucessão ininterrupta de imagens que poderiam ser, uma a uma, quadros a seram admirados em uma galeria. Todas, todas as cenas, sem excessão, são enquadradas numa simetria de capricho milimétrico, carregadas de cores de uma harmonia estudada, poesia saltando em cada elemento de cena, é um delírio artístico.
Claro que tudo isso já foi falado milhares de vezes, constatado em todos os cantos do mundo, mas mesmo assim, não resisti a vontade de expressar minha admiração, o filme causou-me tanto bem estar; ver todas aquelas cores, todas aquelas falas, toda aquela sensibilidade escancaradas, precisei registrar meu deleite. E também porque, nessa noite, ao deitar, sonhei um sonho de mil cores, cores de Almodóvar, como canta a Calcanhoto.
No sonho, eu sorria, sentada numa cadeira vermelha, perto de uma parede amarela, sobre um tapete de mil listras coloridas, vestindo um vestido verde de estampas de tantas flores... em frente a mim, havia um moço, vestido de preto e branco e vermelho, a pintar o meu retrato numa imensa tela de cinema. Ele pintava e sorria. Em certa altura, já não se distinguia mais, oque era tela, oque era cena, sorriam como que em espelhos.
Sonho surreal esse!...
sonho inspirado por Almodóvar,
foi um sonho inesquecível.

*

Dos ímpetos...

Ímpetos do Bem:

Beijos roubados,
Telefonemas inesperados,
Eu te amo declarado,
Bombons devorados,
Voltas,
Perdão pedido,
Perdão concedido,
Pegar na mão,
Espiar o bonitão,
Comprar sem precisar,
Elogiar,
Mimar,
Abraçar de supetão,
Abrir o coração,
Sorrir para estranhos,
Ousar no decote,
Presentear fora de data,
Fazer faxina,
Sair para dançar,
Chorar na rua,
Ligar para ouvir a voz,
Dizer a verdade toda,
Viver...

.

Ímpetos do Mal:

Toda e qualquer atitude que vise magoar alguém.

.

É muito simples avaliar nossos ímpetos. Somos seres racionais, perfeitamente capazes de dominar nossos impulsos. Ofender, sair na porrada, dizer verdades indesejáveis, julgar, condenar, ironizar, humilhar, ficar na espreita...
São atitudes cinzas, cinza de resto de coisa queimada, que lembram destruição, caos, tristeza, lembram o vazio, o eco do intolerável.
Por ímpeto pode-se mudar tudo, amolecer um coração embrutecido, desmoronar reservas, despertar sorrisos, encher de luz o momento de alguém. Esses são os ímpetos de mil cores, que fazem das relações algo belo.
Por ímpeto, no entanto, pode-se também mudar tudo, machucar, abrir feridas desnecessárias, amedrontar, botar terror, destruir, pisar, escolhambar, derrubar...
São os ímpetos bestiais que enegrecem o mundo, minam as relações, atingindo em especial ao que ataca.
Como tudo na vida, vários são os lados, as justificativas, as razões, mas não há muito o que questionar quanto ao bem ou ao mal que nossos ímpetos podem causar em alguém ou em nós mesmos.
Por ímpeto, escrevi essas palavras, e vou classificá-lo como um ímpeto do bem, porque desejo apenas lembrar, principalmente a mim mesma, que atitudes positivas abrem alas para outras tantas positividades, lembrar que a vida é curta para perder-se tempo com tons acinzentados, que ímpetos devem ser como estrelas que pipocam no céu quando a noitinha vem chegando, e que enchem nossos olhos de renovada surpresa, que nos fazem atentar á magia de nossos existências, e , principalmente, lembrar que entre fazer alguém sorrir ou alguém chorar, não há nem oque questionar.
Sejamos impetuosos, pois, mais que sejam nossos ímpetos, conquistadores de sorrisos, fazedores de alegria, renovadores, expressões de delicadezas, leves e coloridos como pipas no céu, que sejam eles:

Beijos roubados,
Bombons devorados,
Palavras faladas,
Abraços apertados,
Rancores superados,
Alívios causados,
Sorrisos multiplicados,

cenas de brilho, luz e cor
que sejam, de preferência, ímpetos em direção ao Amor.
Ah, o Amor!...que grande aventura atirar-se aos ímpetos do Amor, mas aí o assunto já muda,
e Amor é prosa longa.

*

sábado, 18 de abril de 2009

nada
como
um
lindo
vestido
na
vida
de
uma
mulher
.
.
.
.




Vestidos não mordem!


*

sexta-feira, 17 de abril de 2009

(Saudades)

Quando acordou,
hoje,
pensou nesse
tempo de silêncio
amoroso.
Sentiu saudades
de escrever para ele
de manhã,
sentiu saudades
da alegria de ler
as palavras dele
de manhã.
Sentiu saudades da
voz dele falando de
amor, de pipas no céu.
Sentiu saudades de
dizer que o amava
tanto,
tanto,
tanto,
e de ver escrito que
ele a amava
mais,
e mais,
e mais.
Sentiu saudades
das trocas,
dos mimos,
dos recados,
dos suspiros.
Beijou o telefone,
ligou
o número dele,
só para ver algo dele
ali,
ao alcance das
suas mãos.
Lembrou das horas
que passavam juntos,
do arrepio
que atravessava
seu corpo todo,
com cada troca, com cada
intensidade
experimentada
ao lado dele.
Sentiu saudades do jeito
dele chamar por ela,
aquele jeito,
que só ele sabia,
dos seus códigos amorosos,
da batida acelerada de seu
coração
a cada contato que
tinham,
e como seu coração
era feliz por isso.
Sentiu saudades,
e foram tantas e tão
apertadas,
e tão doídas,
que quase esqueceu
que acabou,
(tudo estava tão vivo),
que aquele
"eu sou seu , você é minha",
foram apenas palavras,
e que por mais querer,
e saudades,
e pensamentos
que ela sentisse,
ainda assim,
nada adiantaria.
Agora, dela eram apenas
as saudades multiplicadas,
e o saber
que ele não era mais seu,
talvez, nunca tivesse sido,
mas que ela,
continuava ali,
tonta e apaixonadamente,
toda dele.
Dele e das saudades.
Múltiplas,
aparvalhadas,
e nada reticentes.


*

terça-feira, 14 de abril de 2009

Dos sorrisos


Em certas ocasiões, sorrir é um gesto meio difícil de realizar. Você tem que mover aqueles músculos faciais todos para o sorriso sair, o coração não ajuda, bombeia descompassado, as sinapses recusam-se a colaborar e não enviam seus sinais, os olhos olham mas não vêem, não encontram o motivo, e só a alma fica ali, desesperada, gritando:

_ ei !... reaja, sorria, não seja ingrata com tantas pessoas e coisas e vidas que merecem um sorriso seu. Não importa o que te roubou a vontade de sorrir, pense... isso simplesmente não é tudo.

Temos certa tendência á sentir conforto ao que nos causa dor. A gente fica ali, quietinho, alisando lembranças, e cativo, vamos privando o mundo da gente e a gente do mundo.

Sorte é que dona Alma não dá sossego. Acredito que na alma exista algo como "a partícula original", nosso elo com a criação, o Amigo Invisível presente, e Ele deve sofrer mais que a gente, e em dado momento, acho que Ele fica tão cansado de ver aquela tristeza nossa que insiste em reinar, que Ele acaba operando, Ele e sua partícula divina em nós, abrem nossos olhos para VER.

São os pequenos milagres do dia a dia. São simplicidades que falam, amigos que se mostram mais carinhosos do que nunca, um vestido bonito á preço de banana, um telefonema daquela pessoa querida, um convite para a praia, um elogio sincero. Pode até ser aquele sonho de creme que está mais divino do que sempre. O que acaba acontecendo, é uma sucessão de presentes cotidianos que vão nos trazendo de volta. E aos sorrisos também.

Quando a gente volta a sorrir, o movimento se inverte, e você sente de novo uma vontade grande. A vontade, o querer, a partícula inquieta que nos quer sorrindo. E aí, novos encontros acontecem, outras músicas te inspiram, aquele corte novo no cabelo fica até bem bonito, você faz as malas, vai pra praia, reencontra-se com dona Alma, que acelera o coração, que bombeia o sangue nas veias com mais ritmo, intensidade, desejo, as sinapses precipitam-se em eletricidades multicoloridas, e os sorrisos reaparecem. Tímidos, desconfiados, mas sorriem.

A dorzinha, as saudades, a lembrança?... estão todas lá, mas não ocupam mais o espaço todo, precisam se encolher, se ajustar, porque o milagre do novo, insiste em acontecer. E sorrir. E porque como diz a música, "é melhor ser alegre que ser triste, a alegria, é a melhor coisa que existe...", e além de que, sorrir faz bem ao coração. Literal e romanticamente.


*

segunda-feira, 6 de abril de 2009

As meninas, em criança, brincam de roda.
Entre as canções que cantam, feito mantras,
repetidas e inúmeras vezes, está
a Ciranda.

Elas cantam:

Ciranda, cirandinha,
vamos todos cirandar,
vamos dar a meia volta,
volta e meia vamos dar.

O anel que tu me destes
era vidro e se quebrou,
o amor que tu me tinhas
era pouco e se acabou.

Por isso, dona mocinha
entre dentro dessa roda,
Diga um verso bem bonito, diga adeus e vá se embora.


*


Que coisa mais bizarra, as lindas menininhas cantando o
que as aguarda. Vão passar a vida toda cantando:

O anel que tu me destes
Era vidro e se quebrou
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou.


Comprarão seus anéis, seus colares, e viverão de versos.


*

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O cacto

O cacto é uma espécie estranha. Tem beleza, é certo. Mas sua beleza é rude. Agressiva.
Seus espinhos são um aviso: não se aproxime. Admire-me se quiser, mas não me toque, você vai se machucar. São frios. São resistentes. Não brotam em jardins, não são cultiváveis, são raros mas não enfeitam. São sedutores, mas perigosos, alguns, venenosos.
Preferem os desertos. Os silêncios. Os vazios. O ocasional. O efêmero. Suportam bem o calor infernal que mataria qualquer outra espécie mais frágil. Não necesitam de quase nada. Nem de água, quase. Abastecem-se de si mesmos e de suas interioridades inatingíveis.
Sentem-se superiores, e devem ser, pois duram. Resistem e perduram. O segredo de sua força estaria justamente no fato de não precisarem de nada?

Não precisam de cuidados,
Não precisam de água,
Não precisam de zelo,
Não precisam de mimos,
Não precisam de bom tempo,
Não precisam de gente,
Não precisam de nada.

Interessantes são os cactos. Interessantes e frios.
Não raro, são considerados predadores...
Não deve-se tentar tê-los como espécie de estimação, são selvagens demais, não fazem companhia, murcham em ambientes de acolhida, morrem ao toque, não exalam.
Existem para si mesmos, e lá devem ficar, reinando apenas para si mesmos e para os que deles se assemelham:

os espinhos,
a distância,
o deserto,
a solidão,
o vazio.


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(impressões meramente pessoais baseadas em experiência com um cacto)


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