domingo, 22 de fevereiro de 2009

Haveria (...)

Haveriam de se completar.
Ela sonhava com livros.
Ele, com filmes.
Livros e filmes,
em uma casa de vidro,
onde na arte, fazia-se amor,
e fazendo-se amor, nascia arte.
Haveriam de sorrir de manhã,
e, por tudo ser tão belo,
haveriam de seguir sorrindo,
todo tempo, pra enganar o tempo.
Haveriam de olhar estrelas
de mãos dadas deitados na grama,
na areia, num chão de flores.
Haveriam de conhecer lugares,
e nesses lugares, nasceriam mais flores,
sensíveis são as flores, aos amores.
Haveriam de ter sonhos, e tão juntos
estariam, que seriam os mesmos
os seus sonhos.
Haveriam de se encontrar ainda,
em tantas outras vidas,
pois até o Divino
não resistiria a beleza desse Amor.
E o perpetuaria.
Haveria de ser assim,
para todo sempre,
não fossem os venenos
tão poderosos.


*

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

As Águas do Mar

Aí está ele, o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.
Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.
Ela olha o mar, é o que pode fazer. E vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal - a alegria é uma fatalidade - já a tomou, embora, nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda - e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido.


_Clarice Lispector


*

Das certezas...

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Afetos deveriam vir com selo de garantia.
Garantia Divina, se possível. E especificações:
profundidade, temperatura, precipitações,
variáveis, prazo de validade.
Aí sim, o mergulho seria profundo, de olhos
fechados. De olhos bem fechados.
Talvez, a previsibilidade roubasse um pouco
a cena dos afetos, mas quem se importaria
com isso, frente à águas quentes,
águas profundas, claras, envolventes,
convidativas, seguras?!...
Águas de alegria mansa.
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Paris

Paris
é um doce.
Paris
é um convite.
Paris
é um doce convite.



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domingo, 1 de fevereiro de 2009

Férias

Estou saindo de férias, vou á caminho do mar, do sol, da paz, e levo comigo uma música linda, ainda sendo cuidada em estúdio, da banda Tantra, que me foi apresentada pelo queridíssimo Gian Fabra, da banda. Um poema em canção:

LUZ DO DIA

Eu tenho tantos sonhos, tantas dúvidas e medos
E uma certeza: um incerto coração
Eu sei tantas palavras e podia até dizê-las
As palavras chegam tarde, você já se foi

Ontem fui dormir e debaixo das cobertas
Sua falta estava lá

Eu sei que é difícil para você falar das coisas
Que há tanto tempo tentam escapar dessa prisão
É como a sensação estranha de quem acelera o carro
Mesmo vendo o muro vindo em sua direção

Eu vi você calado e acho que fiquei confusa
Já não sei mais nada

Vem agora a luz do dia
Eu fecho os olhos e ainda vejo
Você podia mandar no tempo
Se percebesse que ao seu pedido...

Eu ouço os seus gritos dentro da floresta escura
Um pedido de ajuda cortando a escuridão
Eu fico dividida entre ver nós dois perdidos
E seguir o meu caminho que vai noutra direção

Eu chego na saída e já não escuto os gritos
Minha alma cala...

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http://www.tantra.art.br/carmem_manfredini_tantra.html