sábado, 31 de janeiro de 2009

David Leão, do Blog "Penso Torto", um espaço muito especial, fez-me a gentileza de indicar esse blog, novamente, ao Prêmio Dardos. E como um agrado é sempre bem-vindo, agradeço muitíssimo, e indico blogs para o prêmio também. Novos nomes, novas descobertas, e a intenção do prêmio anterior reforçada, dos blogs indicados naquela ocasião, todos queridíssimos por aqui.

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"Com o Prêmio Dardos se reconhece o trabalho do blogueiro, que mostra através do seu empenho, capacidade para transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, que demonstram sua criatividade, através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras."
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Regras para o recebimento:
* aceitar e exibir a imagem do Prêmio;
* linkar o blog do qual recebeu a indicação;
* escolher 15 blogs para o Prêmio.
Indico com muito carinho e admiração, os seguintes blogs:
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Todos esses, com suas particularidades, são espaços onde se encontra a vida em palavras bonitas. Bonitas como a vida deve ser.
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domingo, 25 de janeiro de 2009

A Partida do Trem

Ela lembrou-se do bilhete que deixara para ele:
_ não me procure. Vou desaparecer de Você para sempre.
Te amo como nunca. Adeus!
Tua Laura não foi mais tua porque você não quis.

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Do livro "Onde Estivestes de Noite", de Clarice Lispector.


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sábado, 24 de janeiro de 2009

Interrogação

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Primeiro,
fez-se o Amor.
Da falta do Amor,
fez-se o desamor.
E do desamor,
fez-se toda a dor.

Toda dor
nasce no desamor,
que nasce
na falta do Amor,
que é de onde nasce
toda a dor.

Para o que serve mesmo o Amor?


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A nudez de Clarice.

Quando leio Clarice Lispector, acabo ficando, invariavelmente, mais cheia de inquietações do que de costume. Ao se desnudar em palavras, faz-me ver minha própria nudez exposta em tantas transparências, tanto como em meio a tantos segredos guardados. Ela rasgava sua próprias carnes para viver, e não só para escrever. Sinto minhas feridas latejando mais quando leio as feridas dela. Nada era mero detalhe para ela. Qualquer que fosse o assunto, era um grande assunto. A morte de uma barata, abria precendentes para questionamentos profundos. Sempre rondados pela dor. Mesmo querendo ser alegre em algum tema, ela era triste. Não tristeza-melancólica, uma tristeza barulhenta, uma tristeza inquietante. Inconformada. Ser pessoa atenta demais à detalhes, parece subentender uma espécie de castigo. Ser feliz, é coisa para os distraídos. Mas essa, já é uma viagem minha. Quero, na verdade, apenas postar um fragmento de Clarice Lispector, onde ela se desnuda, se rasga e se fere, falando de Amor:
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"Enfim, terei uma resposta. Que resposta? a do Amor. Amor: eu vos amo. Eu amo o Amor. O Amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter olhos verdes e ninguém saber.
À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu á beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto. Oh, cachorro, cadê a tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou á beira de meu corpo. E feneço lentamente.
Que estou eu a dizer? Estou dizendo Amor. E à beira do Amor estamos nós."
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_ Ferida Latejante!
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A Esperança é um Surto

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Suas esperanças perdiam-se em datas.
Laura era assim, dada à esperas.
Amava surpresas, mas morria de medo delas.
Então, fugia delas,
só espiava, vez enquando,
porque tinha esperança, afinal.
Certa vez,
viveu uma espécie de surpresa.
Policarpo escreveu-lhe uma carta.
Com o envelope pardo em suas mãos pequenas,
esqueceu todo medo de surpresas que tinha,
e sorriu:
_ uma carta!!!
Cheirou o envelope, sentiu sua textura,
lambeu o selo que fora retirado com cuidado,
selo bonito, pensou, com desenho de céu cheio de estrelas, e quase não acreditou em tamanha alegria.
Tão emocionada ficou, que decidiu preparar-se devidamente para a leitura da carta. Repousou o envelope com a carta de Policarpo sobre a mesinha, ao lado do vasinho de flores que fora de alguma tia, não lembrava, mas que achava bonito, e mais bonito ainda, achou olhar o envelope ali, encostado nele. Banhou-se com alguma languidez, dessas que supõem encontro, vestiu-se à capricho. Decidiu usar brincos, aquele sapato de salto que a fazia parecer mais gente, e pôs também uma flor nos cabelos, que ficaram soltos. Por fim, perfumou-se. Quanto tempo não usava aquele perfume doce, pensou. Olhou-se no espelho e sem queixas seguiu à sala. Lembrou-se, então, de uma cena de um filme antigo, onde uma personagem vivia á luz de velas, á luz delas, sonhava. Foi, pois, acendeu velas, apagou as luzes, afofou as almofadas, um pouco puídas, mas que á luz das velas, até pareciam bonitas. Mas ainda faltava algo, queria convidar seus sentidos todos para a festa da carta de Policarpo. Então, decidiu beber algo fino. E resolveu abrir aquela garrafa de vinho, á tanto ali, observada. Pôs duas taças altas ao lado do envelope, e o vinho aberto com certa falta de jeito. Policarpo deve saber abrir com classe um vinho, pensou. E sorriu. E imaginou a presença de Policarpo ali, em sua sala. Ela achava ele bonito. Alto, magro, ares de moço do Afeganistão. Sempe que ele sorria para ela, ao passar pela sua sala na repartição, sentia o calor a lhe subir as faces, e não percebia seus olhos desgovernados, e que suas mãos suavam, e que parava de respirar por alguns segundos. E que quando quase sufocava, tossia feito uma tonta, a tonta! Policarpo era moço reservado, pensava, sabia-se pouco dele. Ouvira uma vez, no cafezinho, que ele era dado à escrever, e que um dia publicaria um livro. E era solteiro, sabia-se. Seus sorrisos que lhe falavam coisas, e o gosto pela escrita, a fizeram, ao ter o envelope de Policarpo em mãos, supor o óbvio. Ele resolvera se declarar à ela com sua arte. Isso fez Laura tremer. Por isso resolveu fumar um cigarro, mas pararia, pensou, pois Policarpo não haveria de aprovar. Mas fumar a acalmava tanto, pensou. Para concluir seus cuidados com os sentidos, colocou música. Sua preferida de toda vida, Claire de Lune. Então, sentiu o calor de suas velas, sorriram suas almofadas, rodou sua saia pela sala de tacos lisos, fumou e serviu o vinho. Nas duas taças. E sentou-se. E tremeu. Como surpresas lhe davam medo, resolveu rezar, e em suas preces pediu à Deus que a protegesse das dores do Amor. Do Amor, queria suas delícias. Reforçou isso em sua oração. E pensou que não haveria de ser pecado usar a palavra delícia em reza. Amava tanto aqueles trechos do Antigo Testamento que falavam , justamente, das delícias que sonhava. Que bela noite, pensou. E sorriu, e chorou ao pensar em Policarpo ali, em breve. Lentamente, tomou o envelope em suas mãos. Gostava de ver seu nome ali no alto, Laura Dantas, e no verso, Policarpo de Souza. A sonoridade dos nomes juntos a encantou, e a fez, sem mais delongas, abrir o amado envelope. Beijou o papel de carta ainda dobrado, imaginando que as mãos de Policarpo a haviam tocado, e pensar nisso deu-lhe arrepios. Desdobrou as duas partes dobradas da carta e percebeu um anexo junto á carta, algo parecido com um convite. Um convite? Impresso? Em mal-traçadas linhas, Policarpo comunicava que no próximo dia dezoito, lançaria seu primeiro livro, e que, junto à sua noiva Esther Mendes, receberiam amigos e familiares para o coquetel de lançamento. A apresentação do convite era indispensável, e continha o RSVP, o que a fez supor, seriam muitos os convidados. Parou de respirar. E quando quase sufocava, voltou a respirar tossindo feito uma tonta. Apagou as velas com os dedos, jogou fora o vinho, muito seco, deixou a música, tirou o vestido, os sapatos, a flor dos cabelos, deitou-se e, dormiu. E na manhã seguinte, á caminho do trabalho, decidiu que almoçaria no Surtu's. Gostava, sobremaneira, da sonoridade do nome daquele lugar. Surtu's.


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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Mudando de assunto ...

Há que se cultivar
a Alegria.
No dia da Aliança
do Amor,
rezei o propósito,
e à ele serei fiel.

Calem-se as entranhas,
os interiores febris,
as perturbações;

E reinem estrelas,
e sorria a lua, só e nua,
e cantem todos os seres,
os encantados e os pirilampos,
pois quero festa no meu coração.

Um Grito no Avesso

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Houve um tempo
Em que Laura acreditou.
Acreditando, passou a sorrir.
Sorrindo, desfez suas guardas.
Desprevenida,
Flutuava de novo,
Com a fé dos desavisados.
Entre um vôo e outro,
Deparou-se com a ilusão.
De novo.
Sorrindo pra um anjo,
Não supunha sua maldade.
E caiu. Espatifou-se.
E feriu suas mãos.
Feriu seu corpo. Feriu sua Alma.
E chorou seus cacos.
E gritou blasfêmias.
E feito muda e louca
Aquietou-se. De novo.
E foi assim que acabou-se
Oque não é, nem nunca foi
Doce.


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sábado, 17 de janeiro de 2009

O Amor e o vestido

Choraminguices à parte, não nasci para o Amor. Nossos relógios batem dissonantes, quando ele é dia, eu sou noite, quando ele chega, já fui embora faz tempo. Não sei amar quem me ama, e amo com desespero quem em fere. Algoz destino. Olho para trás, para os ensaios de Amor que vivi, e me vejo lá, morrendo de tédio ou morrrendo de dor, e aí me pergunto, que raios eu ainda quero com o Amor. Não sou dada à invejas, mas quando vejo o Amor entre os abençoados que por Ele foram escolhidos, sinto uma coisa estranha. Uma certa tristeza, umas certa raiva, um certo desconserto. Lembro de quando eu era uma menininha linda, de maria-chiquinha no cabelo, uma carinha de espera, que via todas as outras menininhas indo para o carro dos pais na saída do colégio, e que seguia com ares de louca até o motorista, porque papai não tinha tempo para essas coisas menores de que se trata o Amor. Devo estar sendo ingrata com os Céus nesse instante, mas quando o coração dói, se não há Amor, talvez haja alguma tolerância com seres como eu.

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A foto do vestido?
_ sei lá!

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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Refulgência Afrodisíaca

Passei num sebo dia desses. Comprei dois títulos, "Filha da Fortuna", de Isabel Allende, e "Uma Vida Inventada", da surpreendente Maitê Proença. Eu prefiro a delícia dos livros novos, ser a primeira a inaugurar suas páginas, possessiva que sou, ser a única dona, mas os Usados, aqueles livros que nos escolhem em meio a tantos livros que carregam almas, vêm com um significado extra que nenhum livro novo oferece. Optei pelo "Uma Vida Inventada" para zanzar. Não botei muita fé no livro, fui folheando ao "Deus dará", como faço antes de mergulhar verdadeiramente, um flerte pra me ver conquistada ou não. Lá pelas tantas percebi que o livro merecia ser lido como se deve. Bloco de anotações ao lado, lápis bem apontados, e a cerimônia do encontro. O livro é uma dádiva que a escritora oferece generosamente. São muitos os trechos que merecem citação, muitos mesmo, Maitê Proença escreve visceralmente, e eu amo seres viscerais, que rasgam seus interiores sem nenhum pudor, com grande prazer. Mas o trecho que vou postar aqui, nem é de tanta relevância de forma e conteúdo, é algo até bem prosaico, mas me fez suspirar pela sutileza contida na cena. É da casa dos imaginativos, a quem admiro, sobremaneira. E é da casa dos prazeres, que inicia-se na casa das particularidades, e que exige muita vocação para tal. Senhoras e senhores, sem mais delongas, o texto:
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"Lembro-me bem daquela vez. Eu era muito jovem. Havia um rapaz por quem nutria uma paixão escondida e atordoante, de passar horas sonhando romantismos. Um dia, ele me convidou para ir ao cinema. Estávamos ali, lado a lado sem encostar, fingindo que assistíamos ao filme, a sala escura, um frisson danado, e ele me pega a mão. Quase tive um treco, mas segurei a onda. Quando achei que estava de novo no comando do meu corpo, ele encostou minha mão na boca e começou a lamber os nós dos meus dedos bem devagar, um a um. Aquilo foi me dando um desnorteio, passou-me um furacão por dentro, um maremoto, e para meu espanto, antes de chegarmos ao indicador, eu havia explodido em êxtase. O impacto daquilo foi assustador."
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Por que a foto do Jonnhy Depp em "Dom Juan de Marco"? Simples. Nesse filme, tem uma cena muito semelhante, e porque Dom Juan , o do filme pelo menos, também sabia muito das coisas.
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sábado, 3 de janeiro de 2009

Das coisas mais lindas.


Já tinha sido tudo tão perfeito. Mas ele não cansava de surpreendê-la. No meio na noite, assim, do nada, acordou-a com um beijo. Em seguida, com aquele jeito que só sendo seu jeito mesmo, pediu que ela se levantasse, eles iam sair. Meio tonta, meio zonza, de sono, de amor, de fascinação, ela olhou pra ele e sorriu. E ele, olhou pra ela e sorriu. Pegou uma manta, colocou sobre eles e a puxou pela mão. Então, ele disse:

_ vem amor, quero fazer amor com uma estrela, olhando as estrelas.

Eles nunca viram um céu tão estrelado...





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