segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O VENTO E A FLOR



















Não que eles fossem especialmente diferentes, embora, de fato, fossem. Ela mais lembrava uma camponesa de algum campo florido da Provence, imensamente livre de conceitos, mas portadora de tão poucas malícias para os dias atuais... Tinha dentro dela espaços reservados apenas ao que era leve e belo, como suas flores ou suas águas, e suas contas e suas miçangas e seus balangandãs de palavras bobas. Ele, por sua vez, era um selvagem. Se ela era livre, ele era o vento. Um viajante do tempo que se encaixaria em qualquer século das existências. Sua alma a ninguém pertencia, era resistente ao Amor, mas perguntava-se : _ seria capaz de resistir para sempre? NÃO. Souberam-se, e desde então, pertenciam-se. O paradoxo do impossível. Sem elos, nem amarras. Ele a levava em suas andanças, enquanto ela, o retinha em seus livres verdes campos. Pertenciam-se espiritualmente. Mundos distantes. Essências opostas. Antagonistas na vida. Amores de morte. O tempo teria que parar por instantes para estarem juntos, então, não poderiam se encontrar em um lugar comum. Não eles. Seria uma única vez. Precisavam de uma luz cuidadosa, que os protegesse um do outro, que iluminasse a única coisa que tinham em comum: o Amor, o desejo de serem um, o outro. SEREM UM. Precisavam que ninguém houvesse por perto, apenas olhos e ouvidos angelicais os espiassem, nenhum vestígio humano, além deles mesmos. Precisavam de um lugar mágico, marcado como portal, pois se quisessem, poderiam abrir mão da vida. Poderiam optar por partirem juntos. Como almas. Como Romeu e Julieta. E pagariam, como já pagavam, por não saberem como resistirem-se. Poderiam ficar e aceitar. Cumpririam seus carmas separados, na esperança de encontrarem uma possibilidade. Improvável possibilidade. O vento e a flor. Um distruiria o outro. O vento veloz quando parado, não existe. A flor, ao sabor daquele vento inquieto, despedaçaria-se. Aqueles instantes juntos seria a exceção concedida pelo Senhor do Amor, condoído com aquela paixão irrealizável.

Então, a terra girou mais lenta naquela tarde. Ninguém notou, mas foram acrescentados muitos minutos a mais àquele dia. Os minutos deles, para a tarde eterna deles. Notou-se na terra apenas uma brisa mais leve, uma calmaria estranha, as falas tão mais baixas, fora do habitual, e um eco de beijos e suspiros, e uma luz dourada que fazia aquele pôr do sol, ter o dourado mais incrível que se vira. E aquele perfume de azaléias.

[ como a pequena Azaleia branquinha que você deixou no meu portão hoje. Foi você, não foi?]

Pássaros cantaram mais lindo do que nunca, e as borboletas surgiram tantas, em tantas cores, e tudo pareceu tão mais intenso e lento naquele dia... Houveram mais beijos e mais abraços no mundo. Mais sorrisos, mais afetos. Mais calma. O mundo teve um dia mais lindo, que é o que sempre acontece quando algum milagre de Amor é permitido. Há que se prestar atenção aos dias... e as noites...
O vento e a flor? O que teriam decidido? Teriam arriscado, e ultrapassado o portal? Separaram-se, ou teriam achado maneira de convencer o super rígido senhor do Amor a liberá-los do carma?
_ Não sei. Mas sopram-me aos ouvidos uns anjos safados, que foi uma linda tarde Amor. A tarde de Amor do Vento e da Flor.














4 comentários:

renata disse...

quando o amor floresce nos olhos, o mundo fica mais bonito.

você é uma boniteza!
uma beijoca.

Bloguinho da Zizi disse...

... é tão lindo que não se pode comentar, senão sentir....
gratidão

Arco Irís disse...

".. . É tão lindo, não precisa mudar, é tão lindo,deixa assim como está, e eu adoro"...
Essa musiquinha veio a cabeça apos ler seu texto.
Deve ter sido pela leveza pureza, das palavras-flores e do amor-cor.

:)

Noemyr disse...

Uau... Suspirei aqui!
LINDO =)
Beijos :*