terça-feira, 23 de junho de 2009

Um gole de nada

Conjecturas sobre a palavra NADA:

Nada sugere ausência.
Ausência sugere falta
Falta sugere vazio.
Vazio é o tudo cheio de nada.

Nada, no dicionário, tem como designação, pronome indefinido, que indica coisa nenhuma, de modo nenhum, sendo ainda citada como a não existência, ou ainda, com a lastimável palavra ninharia. O Nada pode ser relativo, senão vejamos. Quando alguém pergunta:

_ O que você tem?, e você responde,
_ Nada!

esse Nada pode indicar algo como um tédio, alguma irritação, cansaço, saco cheio. É um nada pacífico até, ele vem e passa, seria o Nada-Passageiro. Tem também aquele Nada que a gente diz quando algúem pergunta:

_ O que você tá afim de fazer?
_ Nada!

É um Nada de boa classificação também, porque sugere que você quer ficar morgandinho em casa, bem à vontade, tranquilo e sossegado. Seria o Nada-Ócio. Pode ser bastante benéfico, inclusive. Tem também o Nada que namorado diz para a namorada, ou vice versa, quando um está meio calado:

_ O que você está pensando, Amor?
_ Nada!

Aí, depende da relação. Se os pombinhos estiverem vivendo uma amor bem gostosinho, é um Nada de "ah, amor! até ficar quietinho com você é gostoso", seria o delicioso Nada-Conforto.
Agora, se a relação vai de mal a pior, pode ser um Nada tipo "o que é que eu estou fazendo aqui?", é o Nada-covarde, que não decide e não sai de cena. Um clássico.
Há na sequência, categorias de Nada de banda ruim. São os Nada-Lascado. Trata-se daquele sentimento que certas ocasiões ou pessoas nos causam. Você já saiu de cena assim?

_ Putz, depois disso tô me sentindo um NADA!

Pois é, tem gente que tem o dom para isso, o dom e nenhuma sutileza para te lembrar de sua insignificância, o fazem descaradamente e sem culpa nenhuma. Têm muitos graus de Nada-Lasqueira, desde aquele provocado por alguém que te ignora, lembrando a sua invisibilidade, como aquele provocado por aquelas pessoas tidas como superiores, que só porque o seu próximo não é tão lindo, tão culto, tão especial, tão próspero, tão raro, tão "Óh, Meu Deus", pisam nas pessoas para deixarem claro o Nada que é, quem não é tudo isso. É um gosto amargo oque essa gente consegue provocar no Nada, embora o Nada caiba mesmo aos soberbos , nesse caso. O Nada-Tudo. Existem os causadores de Nada sutis, aqueles que fazem quase sem querer, deixam apenas escapar o Nada que você significa. São aqueles que acham que só porque você é um Nada, você é burro também, incapaz de ler entrelinhas. O Nada-Burro.
Tem ainda, e como não poderia deixar de ter, o Nada-Claro, O Específico:

_ Sabe o que você significa para mim?
_ Nada!

Não há como não o reconhecer, é um Nada gigantesco, que o portador carrega, arrasta, e que fica encalacrado nos poros, para qualquer um que olhe, reconhecer:
_ Lá vai um Nada-Coisa-Nenhuma.

Por fim, não poderia deixar de citar o Nada-MeaCulpa. Um Nada que você atravessa deixando pelo mundo, um rastro de Nadas interiores, um Nada de gente que só sabe culpar os outros por tudo: o Nada-Tadinha-de-mim, minha especialidade. Falta tudo nesse categoria: bom senso, segurança, maturidade, humildade, aceitação. Falta senso de realidade, senso para saber se colocar no devido lugar, sobram apenas Nadas e falta apenas tudo.

Com isso, e no meio de todos esses Nadas, junto-os ao Nada que restou em mim, e vou ver se vou atrás de um bom livro, para ver se curo um pouco que seja, todo esse Nada que sou, todo esse Nada que há em mim. Meu nada, meu Tudo.


*

Um comentário:

Day disse...

não tenho NADA a dizer, a não ser: o post está TUDO de lindo.

P.S.:
o 'nada' utilizado no comentário é o 'nada-sem-palavras-para-definir-o-que-senti'.

Be,
querida.
estrela.

BEises*