quarta-feira, 22 de abril de 2009

Casa 12


_ Mas quem estará batendo? perguntou-se.

Abriu a janela e deu de cara com um rapazinho que carregava várias caixas de presente nas mãos, e que, ao vê-la, prontamente disse:

_ Entrega, moça!

_ Ah, não! Você deve ter errado de endereço, rapaz, não deve ser aqui, não.

_ É sim, moça! Rua da Glória, número 12.

_ Está em nome de quem?

_ Só consta endereço, e tá sem remetente também.

_ Moço, com certeza isso não é para mim. Sinto muito mais não vou receber.

_ Moça, eu sou pago para entregar no endereço. Esse é o endereço, por isso vou deixar as caixas aqui. Fui!

_ Como assim, fui?... Volta aqui!




Já tinha ido no segundo seguinte, deixando junto ao pequeno portão de ferro, as caixas de presente. Obrigou-se, muito a contra gosto, a abrir a porta e apanhar os pacotes.


_ Mas que raios de pacotes serão esses?


Ela não era dada a apreciar surpresas, não conhecia uma única alma que fosse capaz de fazer uma coisa dessas, e além de tudo, nunca tivera sorte com presentes. Não gostava de presentes. Os poucos que recebera, foram repetições tediosas do mesmo tema: lenços, meias, pentes de cabelo, e até um esmalte ganhara uma vez. Quem presenteia alguém com um vidro de esmalte? bufou.

Colocou os embrulhos sobre a mesa. Detalhista que era, examinou-os primeiro com os olhos, e depois, meio receosa, com as mãos. Cinco caixas embrulhadas com papel refinado, em vários tons de cor-de-rosa. Apreciou a textura do papel, a cor. A cor rosa fez-lhe lembrar que havia recebido um buquê de rosas cor-de-rosa em certa data. Preferiu não pensar nisso, no entanto.



_ E agora?... o que eu faço com esses pacotes?


Não havia etiqueta de loja que pudesse indicar algo, nenhuma coisa escrita, nenhuma indicação que pudesse apontar do que se tratava. Pensou. Pensou e decidiu não abrir.


_ Pronto! não vou abrir. Bateria nos vizinhos, até encontrar para quem de fato eram esses presentes. Aqueles pacotes finos, imagine, "presentes para mim... isso é certo que não". Devem ser para a vizinha da casa quase ao lado, da casa 14. Com certeza! Ela sim tinha jeito de quem recebe esse tipo de coisa. Certamente, algum admirador secreto que enganou-se no número.

E assim fez. A tardinha, foi até a vizinha que tinha jeito de quem recebe mimos, e bateu. Não eram amigas, nem conhecidas, apenas vizinhas. A vizinha abriu a janela, sorriu um sorriso cheio de dentes, e com aquele jeito de quem é feliz todo dia, disse olá, efusivamente.

_ Ei, o que você tem aí? perguntou.

_ Oi, sou sua vizinha, moro na casa 12. Chegou essa encomenda no meu número, mas suponho terem se enganado. Acho que podem ser para você, disse, mostrando os pacotes.


Saltitante, a vizinha abriu a porta, olhou-a e perguntou:

_ Por que haveriam de ser para mim? Não tem nome?

_ Não, sem remetente, sem destinatário, o que sei é que pra mim não são! isso é certo. Aí, imaginei que pudessem ter errado o número da casa, e acho que são pra você mesmo.


Olharam-se interrogativamente, uma a pensar por que raios, ela não pegava logo os pacotes; e a outra, pensando por que ela havia de supor que os embrulhos fossem para ela.
Irritada, ela estendeu os pacotes em direção á vizinha, que sem argumentos, recebeu-os. Despediram-se.


Aquela bobagem toda tirou-lhe o resto de humor, que escasso já lhe era. Pensamentos repetitivos invadiram-lhe a mente, lembranças acomodadas insistiam em pronunciar-se, sensações dolorosas e aquela falta de ar voltaram, depois de tanto tempo.

_ Que droga! que droga!... eu não vou pensar,eu não vou pensar. Sou perfeitamente capaz de me controlar. Respire, respire, respire. Tomou um banho e fez um chá de melissa. Acomodou-se na bérgere macia da sala, acendeu só a luz do abajour, e foi se acalmando enquanto bebericava o chá.

De repente, a campanhia tocou.

_ Ah, não! não pode ser. Por hoje chega. Não vou abrir. Isso, não vou abrir.

A campanhia tocou de novo. E de novo. Ela não teve escolha, e de arrasto, foi ver pela janela do que se tratava aquela incomôdo. Era a vizinha, com os pacotes na mão.

_ Não acredito!

Abriu a porta, desceu as escadinhas, e falou:

_ E então?

De mau humor a vizinha disse:

_ Eu abri, e não são para mim. Tenho certeza que são pra você. Pegue-os.

_ Não são, não! eu não vou pegar isso.

_ Ah, vai sim! e empurrou os pacotes nos braços dela. A vizinha já tinha se virado para ir embora, mas voltou e disse:

_ Olha, acho você muito estranha, acho você azeda se quer saber. Mas, vendo essas coisas aí, acho que entendo você. Abra os pacotes, não tenha medo, vai que as cores voltam, hein?


[Mas que abuso, pensou. Ainda por cima, ter que ouvir as avaliações dessa sujeitinha, francamente!]


E recolheu-se com os pacotes nos braços. A vizinha tomara o cuidado de reembrulhar todas as caixas com capricho, quase não pareciam terem sido abertos. Admirou a atitude, e pensou, como de fato andava azeda. Nas últimas encarnações, pensou.
Decidira abrir os pacotes, afinal. Admirou de novo o bom gosto daqueles papéis lindos que embrulhavam as caixas. Deve ser algúem refinado o remetente dessas coisas, pensou. Pegou a primeira caixa, a maior, e chacoalhou para ouvir o barulho, mas sentiu apenas o deslizar de algo que parecia ser um tecido.

_ Mas o que será isso?

Abriu cuidadosamente o embrulho, e destampou a caixa, que era branca e igualmente elegante. Um fino papel de seda embrulhava algo, e um perfume delicado emanava da caixa. Abriu a seda, e pasma, deparou-se com um lindo vestido de cor marfim, de um tecido leve, lindo e fluído como um canteiro de margaridas. Junto ao vestido, um cartão dizia:

"Feliz Aniversário!"

_ Aniversário? Esquecera-se completamente disso. Iria aniversariar naqueles dias, mas preferira esquecer. Achava não ter sorte com datas, nem com presentes...
Abriu a próxima caixa e nela encontrou uma pipa. Uma pipa! Pequena, delicada, branca, rosa e lilás, suas cores favoritas. E um cartão que dizia:

"Eu gosto de ver pipas no céu!"

Ao ver aquela pipa á sua frente, sentiu-se tonta, tudo girou a sua volta, perdeu o chão e nele sentou-se. Na próxima caixa, que foi aberta avidamente dessa vez, encontrou uma linda caixa de aquarelas de todas as cores, e um pequeno cartão que dizia:

"PINTE".


[Respire, respire, respire, repetia sucessivamente, sem poder crer no que seus olhos viam, e no que aquilo tudo apontava.]

Na próxima caixa, havia um livro. Bastante gasto, marcado, parecia um livro de estimação. E um disco que tinha na capa, uma pipa desenhada num céu azul. Outro cartão:

"Abra seus sentidos!"

Abriu a última caixa, a menor de todas, não sem antes acarinhá-la, cheirá-la, como fazia com todas as coisas que gostava. Sentia-lhes o perfume.
Dentro da pequena caixa branca, havia um punhado de pétalas de rosas cor-de-rosa, e um outro cartão. Nele, estava escrito:

"Roubei essa rosa do buquê que te dei, e guardei-a comigo. Mando-a de volta, apenas com uma pergunta:
_Volta pra mim?

Colocou o disco para tocar e dormiu. Dormiu abraçada a todos aqueles presentes que eram, sim, todos para ela.

Passados alguns dias, ela chegava em sua casa, e ao olhar para o lado, avistou sua vizinha na janela. Ela lhe sorriu um sorriso imenso de todos os dentes, e com olhos curisos pode ver, desta vez, um belo sorriso, em retribuição. Um sorriso imenso, um lindo sorriso de todos os dentes, um sorriso doce.
A vizinha soube, então, que as cores haviam voltado á casa da moça que parecia azeda,mas que doce era. Soube que os sorrisos também voltaram áquela casa.
A casa 12, da Rua da Glória.



*


A música:




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3 comentários:

Day disse...

Be...
olhos curiosos, coração acelerado,imaginação correndo solta...
essa foi a sensação ao ler essas linhas...degustando as palavras...
incrível,Be...

[dessa vez, essas são minhas únicas, e sincersas, palavras.E tenho dito.]

beises

Bia disse...

Suas palavras
são sempre múltiplas,
vibrantes e generosas.
Elas tem poder, alegram.

Obrigada por tudo, Day!

beijo

Dani Cabrera disse...

Lindo Bê.
Lindo mesmo.


Tenho medo de lidar com mudanças só pelo perigo de perder-se as cores.
Mas essência é essência.
Não se pode deixar de ser aquilo que se é.


Um beijo!