terça-feira, 24 de março de 2009

RUNAS

Maria Clara era famosa na região. Diziam, suas cartas não erravam uma. Aprendera o ofício do ocultismo com sua avó Dulce, velhinha que jogava runas, búzios, lia a borra do café, as linhas das mãos, a Alma e os corações feridos. Maria Clara, de menina, imitava a Vó Dulce.


Vó Dulce ia mexer nas ervas, e menina ia junto, estava atendendo, e lá estava ela,em algum cantinho, atenta, e com isso foi se inteirando e virou oque virou.


Parou os estudos, passou a fazer tranças nos cabelos e a fazer suas próprias roupas, muito coloridas, enfeitadas com flores, fuxicos, fitas de mil cores, bordados de mil formas. Tatuou estrelas pelo corpo, e mantinha-se limpa de maquiagens, embora abusasse dos brincos. Argolas redondas e grandes. Era bonita a danada! Quem a via vindo assim, não sabia se era uma cigana, uma louca, uma excêntrica ou uma mulher de época. Época de bruxas. Perseguidas e lindas.



Maria Clara era feliz. Nas consultas que concedia, tratava a todos com um cuidado quase maternal, ouvia-lhes suas desesperanças, suas aflições e no fundo daquelas almas aflitas, conseguia ver o sonho, o anseio mais caro,... e quando falava oque via, sorriam-lhe os clientes, porque era disso que se tratava, tocar os sonho. Sonho que quase sempre envolvia Amor. Se a pessoa queria dinheiro, era pra se casar. Se a pessoa queria saúde, era pra poder ficar ao lado de quem amava. Se queria viajar, era pra esquecer um grande Amor. Se queria saber do futuro, dele queria a pessoa saber as coisas do Amor, de modo que ficou conhecida como Maria Clara , a moça que lia o Amor.


Aprendera com Vó Dulce que o Amor é, sempre, o bem mais caro dos Homens, e por isso, recebia a todos com Amor. Acendia incensos suaves de baunilha, porque ouvira que era o cheiro mais próximo do Amor, usava lâmpadas rosas, porque ouvira que essa era a cor do Amor, oferecia chás quentinhos, porque achava que isso aquecia e relaxava os corações. Atendia seus clientes num tapete macio, repleto de almofadas coloridas e macias também, e ficava perto, tocava-lhes as mãos, os olhos, sentia-lhes o cheiro, soprava pós coloridos sobre eles, e a magia acontecia sempre. Quase sempre.


Quando uma pessoa vinha até ela, vinha predisposta a ser tocada, metade de tudo o que acontecia, já estava feito. Quase sempre. Em certa data bateu-lhe á porta um moço. Bonito moço. Tinha uma voz envolvente que pegou Maria Clara de surpresa:


_ é aqui que se vê a sorte?





[O coração de Maria Clara começou a bater descompassado, não entendia o poder daquela voz quente. O coração do moço, Sales era seu nome, batia acelerado também, não estava preparado para uma moça com ares de princesa, esperava uma senhora idosa cheias de verrugas e cabelos brancos.]





_ Sim, claro, entre, por favor!





Convidou-o a sentar no sofá da saleta de espera, perguntou-lhe o nome, e pediu que esperasse ser chamado. Entrou em sua sala, respirou, respirou, respirou e não conseguia se acalmar. Chamou-o mesmo assim. Ele sentiu um estranho conforto naquele ambiente tão feminino. Esboçou um sorriso tímido, e acomodou-se, naõ sem uma certa falta de jeito, nas almofadas macias. Sentiu tontura ao olhá-la. Ela pediu que ele fechasse os olhos, e quando tocou-lhe os olhos com suas mãos pequenas e perfumadas, ambos estremeceram. Uma corrente quase visível de mil partículas lilases se anteciparam, e ele, num sobressalto, afastou-lhe as mãos.


Disse que tinha vindo ali pra ver a sorte e não para ser tocado, que na verdade nem queria vir, veio porque sua irmã, com quem dividia a morada,não suportando-lhe mais o mau humor diário, o intimou a visitar Maria Clara, para ver se ela lhe apontava alguma direção. Disse que não acreditava em nada daquilo, que não gostava que lhe tocassem, que estava infeliz, que não via sentido nas coisas, que queria morrer, que queria desaparecer da face da terra, e quando deu-se conta, Sales chorava. Aquele toque em seus olhos, aquelas mãos suaves fizeram-lhe ver. Ver sua imensa infelicidade, seu vazio, seu medo. Mas não foi nada disso que Maria Clara viu.


Calmamente, serviu á ele um chá de muitas ervas doces, em uma xícara antiga e delicada, e depois que ele tomou o chá, pediu que ele fechasse os olhos de novo e lhe desse as mãos. Ao tocar-lhe as mãos, quentes, grandes, morenas, de uma masculinidade quase refinada, beijou-as. Uma palma, depois a outra. Aí, orou a seus anjos, a sua avó Dulce, a seus santos e ao Criador, e pediu que lhe dissesem o que dizer a esse moço lindo que em sua frente estava, cheio de dor, e com tanto amor escondido. Decidiu jogar Runas. Estendeu um veludo roxo e jogou. E o que viu, deixou-a sem palavras. Claro como uma noite de luar, viu-os juntos, naquele exato momento, viu o desenho do encontro, o desenho da descoberta e de algo mais que nunca tinha visto em sorte alguma.



_ Sales, algo em sua sorte mudou repentinamente. Você não terá sua resposta de forma clara, apenas saiba que no seu choro de hoje estavam todas as suas mágoas, que em suas lágrimas estava a despedida de algo que há muito o atormentava, e que, por algum motivo, ao sair daqui, sua vida será outra. É oque diz a sua sorte.



Olharam-se demoradamente, quase podia-se ver, de novo, as milhares de partículas brilhantes e lilases em torno deles. Não falavam, não sorriam, eram suas almas que se tocavam, se encontrando, se reconhecendo. Ele pôde vê-la em tantas outras vidas e pôde entender sua própria amargura causada por aquela imensa saudade que por ela sentia, e ela, pôde vê-lo como o seu Amor de todas as vidas.

Voltaram juntos do transe, e sorriram, e em seus sorrisos se reconheceram e souberam que tudo aconteceria outra vez.



Maria Clara acompanhou Sales até a porta, e antes que ela pudesse abrir, ele tomou-lhe as mãos e disse:

_ Você liberou algo em mim, vir aqui causou-me o melhor bem que já experimentei nessa vida. Você é maravilhosa. Obrigado!



Ela sorriu, ficou um pouco agitada e pensava,

[ Meu Deus, ele não pode ir embora, o que eu faço?...]

Fez a única coisa que lhe ocorreu: convidou-o a voltar. E ele voltou. Naquela mesma noite.



Com lindos Lisyanthus rosas, brancos e lilases em suas mãos, ele chegou. Ela sabia que ele viria, e o esperava com seu vestido rosa antigo, que com as flores que adornavam seus cabelos, hoje soltos, conferiam-lhe um ar de ninfa. Haviam velas acesas, perfume no ar, e um vinho raro a lhes esperar. Amaram-se de pronto, um amor de delicadas urgências, e no encaixe de seus corpos, experimentaram a mais perfeita de todas as emoções. E brilharam sobre eles, as centenas de milhares de partículas brilhantes e lilases, que souberam, tratava-se do Amor.



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4 comentários:

Flor de Bela Alma disse...

Amei isso, linda e amei o vestido rosa antigo...eu que fiz! Lálálá! Beijo doce para a menina dos romantismos lindos e delicados!

GIAN disse...

vc domina a arte de transformar letras em partículas brilhantes e lilases...

bruxinha!!!

se tiver a oportunidade de visitar Maria Clara novamente ela lhe dirá pra escrever um livro de contos...

love it!

Srta Débora disse...

Pude sentir a baunilha. Doce como sua história!

Danielle disse...

Quanta delicadeza =D
Tenho certeza que partículas lilases rodeiam você sempre.
>_<