sábado, 24 de janeiro de 2009

A nudez de Clarice.

Quando leio Clarice Lispector, acabo ficando, invariavelmente, mais cheia de inquietações do que de costume. Ao se desnudar em palavras, faz-me ver minha própria nudez exposta em tantas transparências, tanto como em meio a tantos segredos guardados. Ela rasgava sua próprias carnes para viver, e não só para escrever. Sinto minhas feridas latejando mais quando leio as feridas dela. Nada era mero detalhe para ela. Qualquer que fosse o assunto, era um grande assunto. A morte de uma barata, abria precendentes para questionamentos profundos. Sempre rondados pela dor. Mesmo querendo ser alegre em algum tema, ela era triste. Não tristeza-melancólica, uma tristeza barulhenta, uma tristeza inquietante. Inconformada. Ser pessoa atenta demais à detalhes, parece subentender uma espécie de castigo. Ser feliz, é coisa para os distraídos. Mas essa, já é uma viagem minha. Quero, na verdade, apenas postar um fragmento de Clarice Lispector, onde ela se desnuda, se rasga e se fere, falando de Amor:
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"Enfim, terei uma resposta. Que resposta? a do Amor. Amor: eu vos amo. Eu amo o Amor. O Amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter olhos verdes e ninguém saber.
À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu á beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto. Oh, cachorro, cadê a tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou á beira de meu corpo. E feneço lentamente.
Que estou eu a dizer? Estou dizendo Amor. E à beira do Amor estamos nós."
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_ Ferida Latejante!
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