sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A Esperança é um Surto

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Suas esperanças perdiam-se em datas.
Laura era assim, dada à esperas.
Amava surpresas, mas morria de medo delas.
Então, fugia delas,
só espiava, vez enquando,
porque tinha esperança, afinal.
Certa vez,
viveu uma espécie de surpresa.
Policarpo escreveu-lhe uma carta.
Com o envelope pardo em suas mãos pequenas,
esqueceu todo medo de surpresas que tinha,
e sorriu:
_ uma carta!!!
Cheirou o envelope, sentiu sua textura,
lambeu o selo que fora retirado com cuidado,
selo bonito, pensou, com desenho de céu cheio de estrelas, e quase não acreditou em tamanha alegria.
Tão emocionada ficou, que decidiu preparar-se devidamente para a leitura da carta. Repousou o envelope com a carta de Policarpo sobre a mesinha, ao lado do vasinho de flores que fora de alguma tia, não lembrava, mas que achava bonito, e mais bonito ainda, achou olhar o envelope ali, encostado nele. Banhou-se com alguma languidez, dessas que supõem encontro, vestiu-se à capricho. Decidiu usar brincos, aquele sapato de salto que a fazia parecer mais gente, e pôs também uma flor nos cabelos, que ficaram soltos. Por fim, perfumou-se. Quanto tempo não usava aquele perfume doce, pensou. Olhou-se no espelho e sem queixas seguiu à sala. Lembrou-se, então, de uma cena de um filme antigo, onde uma personagem vivia á luz de velas, á luz delas, sonhava. Foi, pois, acendeu velas, apagou as luzes, afofou as almofadas, um pouco puídas, mas que á luz das velas, até pareciam bonitas. Mas ainda faltava algo, queria convidar seus sentidos todos para a festa da carta de Policarpo. Então, decidiu beber algo fino. E resolveu abrir aquela garrafa de vinho, á tanto ali, observada. Pôs duas taças altas ao lado do envelope, e o vinho aberto com certa falta de jeito. Policarpo deve saber abrir com classe um vinho, pensou. E sorriu. E imaginou a presença de Policarpo ali, em sua sala. Ela achava ele bonito. Alto, magro, ares de moço do Afeganistão. Sempe que ele sorria para ela, ao passar pela sua sala na repartição, sentia o calor a lhe subir as faces, e não percebia seus olhos desgovernados, e que suas mãos suavam, e que parava de respirar por alguns segundos. E que quando quase sufocava, tossia feito uma tonta, a tonta! Policarpo era moço reservado, pensava, sabia-se pouco dele. Ouvira uma vez, no cafezinho, que ele era dado à escrever, e que um dia publicaria um livro. E era solteiro, sabia-se. Seus sorrisos que lhe falavam coisas, e o gosto pela escrita, a fizeram, ao ter o envelope de Policarpo em mãos, supor o óbvio. Ele resolvera se declarar à ela com sua arte. Isso fez Laura tremer. Por isso resolveu fumar um cigarro, mas pararia, pensou, pois Policarpo não haveria de aprovar. Mas fumar a acalmava tanto, pensou. Para concluir seus cuidados com os sentidos, colocou música. Sua preferida de toda vida, Claire de Lune. Então, sentiu o calor de suas velas, sorriram suas almofadas, rodou sua saia pela sala de tacos lisos, fumou e serviu o vinho. Nas duas taças. E sentou-se. E tremeu. Como surpresas lhe davam medo, resolveu rezar, e em suas preces pediu à Deus que a protegesse das dores do Amor. Do Amor, queria suas delícias. Reforçou isso em sua oração. E pensou que não haveria de ser pecado usar a palavra delícia em reza. Amava tanto aqueles trechos do Antigo Testamento que falavam , justamente, das delícias que sonhava. Que bela noite, pensou. E sorriu, e chorou ao pensar em Policarpo ali, em breve. Lentamente, tomou o envelope em suas mãos. Gostava de ver seu nome ali no alto, Laura Dantas, e no verso, Policarpo de Souza. A sonoridade dos nomes juntos a encantou, e a fez, sem mais delongas, abrir o amado envelope. Beijou o papel de carta ainda dobrado, imaginando que as mãos de Policarpo a haviam tocado, e pensar nisso deu-lhe arrepios. Desdobrou as duas partes dobradas da carta e percebeu um anexo junto á carta, algo parecido com um convite. Um convite? Impresso? Em mal-traçadas linhas, Policarpo comunicava que no próximo dia dezoito, lançaria seu primeiro livro, e que, junto à sua noiva Esther Mendes, receberiam amigos e familiares para o coquetel de lançamento. A apresentação do convite era indispensável, e continha o RSVP, o que a fez supor, seriam muitos os convidados. Parou de respirar. E quando quase sufocava, voltou a respirar tossindo feito uma tonta. Apagou as velas com os dedos, jogou fora o vinho, muito seco, deixou a música, tirou o vestido, os sapatos, a flor dos cabelos, deitou-se e, dormiu. E na manhã seguinte, á caminho do trabalho, decidiu que almoçaria no Surtu's. Gostava, sobremaneira, da sonoridade do nome daquele lugar. Surtu's.


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2 comentários:

urbanoideiluminado disse...

a esperança é a única que morde!

GIAN disse...

que delícia de texto...

ser descritiva sem se tornar enfadonha é uma arte, e vc faz isso parecer tão natural. A imagem é tão clara q me vi na sala de Laura, como um fantasma.

Incrível a vida q vc coloca no texto. E é quase um trabalho de garimpo arrancar poesia da crueldade da vida.

mais, mais...
bis, bis...
palmas para vc.
bjs