*Aposto
que ninguém te imagina mais lindo,
do que eu te imagina ao meu lado.
[nem mais feliz]
*
e um sonho no céu




Não que eles fossem especialmente diferentes, embora, de fato, fossem. Ela mais lembrava uma camponesa de algum campo florido da Provence, imensamente livre de conceitos, mas portadora de tão poucas malícias para os dias atuais... Tinha dentro dela espaços reservados apenas ao que era leve e belo, como suas flores ou suas águas, e suas contas e suas miçangas e seus balangandãs de palavras bobas. Ele, por sua vez, era um selvagem. Se ela era livre, ele era o vento. Um viajante do tempo que se encaixaria em qualquer século das existências. Sua alma a ninguém pertencia, era resistente ao Amor, mas perguntava-se : _ seria capaz de resistir para sempre? NÃO. Souberam-se, e desde então, pertenciam-se. O paradoxo do impossível. Sem elos, nem amarras. Ele a levava em suas andanças, enquanto ela, o retinha em seus livres verdes campos. Pertenciam-se espiritualmente. Mundos distantes. Essências opostas. Antagonistas na vida. Amores de morte. O tempo teria que parar por instantes para estarem juntos, então, não poderiam se encontrar em um lugar comum. Não eles. Seria uma única vez. Precisavam de uma luz cuidadosa, que os protegesse um do outro, que iluminasse a única coisa que tinham em comum: o Amor, o desejo de serem um, o outro. SEREM UM. Precisavam que ninguém houvesse por perto, apenas olhos e ouvidos angelicais os espiassem, nenhum vestígio humano, além deles mesmos. Precisavam de um lugar mágico, marcado como portal, pois se quisessem, poderiam abrir mão da vida. Poderiam optar por partirem juntos. Como almas. Como Romeu e Julieta. E pagariam, como já pagavam, por não saberem como resistirem-se. Poderiam ficar e aceitar. Cumpririam seus carmas separados, na esperança de encontrarem uma possibilidade. Improvável possibilidade. O vento e a flor. Um distruiria o outro. O vento veloz quando parado, não existe. A flor, ao sabor daquele vento inquieto, despedaçaria-se. Aqueles instantes juntos seria a exceção concedida pelo Senhor do Amor, condoído com aquela paixão irrealizável.
Foi um início de noite chuvoso. O céu estava eletricamente bonito com aqueles raios todos. Eletricidade. Positivos e negativos em choque. Seriam dores de amores entre nuvens? À pouco parou de chover. Há um cheiro de limpeza no ar. Não há estrelas, mas elas merecem uma folga. Fui até a janela como sempre, te desejar Boa Noite, pois ia me recolher, eu e o meu sono de séculos. Notei algo estranho. Aqui, na região onde moro, as nuvens caminham sempre do sul para o norte. Mas, de repente, vejo umas nuvens pequenas e baixas, muito distantes umas das outras, vindas do norte para sul. Pareciam, _ oras vejam! , sinais de fumaça. E formavam corações. De todo jeito. Pequenos, grandes, tortos, de ponta cabeça, redondos e quase perfeitos. LINDOS. Delírios de uma mente que não pára? Não sei. Mesmo assim, resolvi vir aqui avisar que recebi os teus sinais, e que para cada coração que me enviastes, seguem rumo ao norte, beijinhos, afetos, coração acelerado e um pedido que não te demores, pois tenho sono e sonhos de séculos. Boa Noite, Amor Meu!
Acho sonho uma palavra gordinha. Lúdica palavra. Ilusória palavra. Diferente de pesadelo, que é uma palavra magrinha e ruim de falar. Não tem nada de lúdico e tudo a ver com ilusão. Estranha associação. Sonho, ilusão, pesadelo. Verbos associados. Sonhar, se iludir e acordar. No pesadelo. Estados mentais que invadem as entranhas. Mas quem consegue resistir a palavra sonhar? Amiga irmã da palavra ACREDITAR. Sou doida em sonhos. Os de creme com aquele açúcar fininho de confeiteiro são a minha tentação. Acho que sou capaz de comer uns dez de uma só vez, se bobear. Gulosa, credo! Feito cair em tentação. Caio feito as mil palavras de Caio.Depois, colho as consequências. Sonhos demais engordam, e como boa taurina, tenho que me cuidar. Cuidar com sonhos sonhados sem cuidado, sem proteção, porque assim como quilos a mais, dores incham a alma. Doem, e trazem neuras. E deixam a gente meio estranha frente ao espelho. Porque pesadelo tem a ver com chorar. E chorar deixa o rosto triste. E quem vai querer sonhar com uma pessoa triste? Levanta, sacode a poeira e vai à padaria, Maria. Às três, saem sonhos fresquinhos. Mas vai devagar com andor!
.



Foi tudo quanto era coisa para o sol, para o corador, como Vó Ju, dizia. Ela achava que as roupas quando ficavam no sol para corar, ficavam mais branquinhas, limpinhas, cheirosinhas. Resolvi pois, seguir o conselho da vò, e de uma amiga querida, que tem sempre ótimos conselhos. Foi tudo para o sol, se encher de azul. O que é de estima, o que é de afeto, o que é de magia, o que é de encanto. Foram mágoas novas e antigas, essas, mais resistentes, dores que ardem ainda, cicatrizes recentes, outras, nem tanto... mas é tanto sol, tanto azul, e tanto de tudo que vai clarear. Vai ficar gostoso ao toque de novo. Bom de passar na pele e sentir aquele cheirinho misturado de maresia, sol que aquece, alfazema. Alfazema? é! , acho que alfazema tem um aroma azul. Lavanda também. Lavando com lavanda. Tentar, pelo menos. Todo dia é dia de tentar. Amanhã, coloco tudo de novo no sol, e vou junto, para ficar mais limpinha também. Beijos leves daqui, de onde o azul é tanto que dá até a sensação que é verde. Verde azul. Feito ESPERANÇA.
Vim de tão longe. Estou tão longe. Tudo parece tão perto e, paradoxalmente, como se ouve por aí, distante demais. Exageros. Onde estou existe um exagero de azul. Azul no céu, azul no mar, azul nos vermelhos, nos rosas, mas pouco amarelo. Quer dizer, tem o sol, que é amarelinho, mas aqui, ele é azul. Como os dias, só que é um azul que não dá pra levar para casa, e isso é frustrante. Tem muitas coisas lindas aqui, mas não vi nenhuma pipa no céu. Em compensação vi um bem-te-vi hoje. Em tudo quanto é parte que eu vou, ele vai. É sério, o mesmo bem-te-vi. Achei que ele nem vinha dessa vez, mas acabou vindo o danadinho. Fiquei feliz e triste porquê sei oque ele veio fazer: veio me buscar. Está quase na hora de voltar para minha vidinha, então acho que ele veio preparar o espírito da volta. O meu espírito para a volta. Palavra bonita, né?... VOLTA. Pensar na beleza dessa palavra até que me animou. Vou sair, encher mais um pouco os olhos e o coração desse azul todo, que daqui a uns dias tá na hora de fazer as malas e voltar. Voltar para o meu próprio azul, de onde na verdade, eu não saio jamais. Beijos.
Vou logo ali, e já volto. O portão está só encostado, e a chave da casa está embaixo do tapetinho, como sempre. Minha casa é sua, isso você sabe, né?... Colha umas flores, estão bonitas que só, agora que o sol voltou. Regue-as por mim, caso não chova. E se chover, venha tomar um banho de chuva aqui no jardim. As flores soltam um perfume que alucina quando chove. Tome uns golinhos de chuva também. Dizem que tomando água de chuva a gente consegue ver umas coisas especiais. Tipo o coração de quem a gente ama. Mas tem que ser chuva de verão. Daquelas lindas e quentes. Ah! e se puder, venha à noite também, porquê as estrelas vistas daqui, são mais bonitas. Tem umas que brilham colorido, piscam rapidinho feito piscapisca de Natal. Se você vier, eu saberei, porquê lá onde vou estar, estarei fazendo a mesma coisa. Com sorte, vemos ao mesmo tempo mais uma estrela cadente, sinal de que estaremos perto do coração um do outro. Que é o seu lugar. O meu coração. E que é o meu lugar, o seu coração. Te deixo um monte de beijos, e muitas saudades d'ocê.












Eu queria ter esse poder, sabia? O poder de , dando um simples sinal de minha graça em sua direção, fazer seu céu se iluminar em cores, azul de bolinha de gude, céu de festa, sorriso de coração, palpitações musicais apaixonantes, suspiros compassados, descompassados, corpo leve, gosto de esperança, crença na sorte, na boa sorte, na eterna sorte de te saber por perto. Ah! coração... esses segundos de crença deixam-me transparente como bolha de sabão. Recebi uma recomendação hoje, já pela manhã, de um amigo especial. ENTRELINHAS ele me dizia para me proteger mais, me cobrir mais, me cuidar mais. Mas, você sempre me faz quebrar regras de segurança. O fato é que não poderia de deixar de te mostrar como o meu céu está hoje por você.
São os dias de Outubro. Faz de conta que não estamos longe. Estamos perto. Em alguma praia mansa onde o sol nasce bem cedo, e no lusco fusco, ao entardecer, vai indo embora devagarzinho, deixando rastros de cores suaves, lilases, um rastro de estrelas que anunciam uma imensa lua cheia. Faz de conta que em dias de lua assim, a gente faz tudo ser especial. Ainda mais especial. Colhemos morangos na nossa horta, colocamos para gelar aquela bebida preferida, nos banhamos separadamente para nos acharmos mais tarde, na nossa varanda branca, da nossa casa de vidro, de frente à nossa praia dos sonhos. Faz de conta que você chega lindo, de branco, cabelos ainda molhados, e vai se embalando na nossa rede branca, imensa, mas onde só cabemos nós dois. Faz de conta que eu escolho aquele vestido levinho, de flores e tranparências, que você tanto gosta. E faz de conta que não uso nenhuma pintura no rosto, só o hálito de málvia fresca e o cheiro dos meus cabelos enfeitados por flores, flores que você colhe todos os dias para mim, no nosso jardim. Faz de conta que quando nos olhamos, na nossa varanda, da nossa casa de vidro, depois de tantas luas cheias juntos, ainda sentimos o coração bater em descompasso, e a pele estremecer naquele misto mágico de paixão e desejo. Faz de conta que sorrimos um para o outro e que ao ver, até a lua e suas milhares de estrelas sorriem junto, e suspiram encantadas. Faz de conta que juntos ficamos, ali, até o amanhecer, entre banhos de lua, de mar, de beijos, de amor, de encanto, de felicidade. Faz de conta que isso isso pode ser verdade, que sonhos se realizam, que você me ama e que o paraíso, pode ser assim. Depois, feche os olhos e faz de conta que ao amanhecer a gente volta pra dentro, deita no nosso quarto de cores suves, e dorme abraçado, com o som do mar vindo de fora, com as flores exalando perfumes de cor, e a gente sonhando com tudo de novo, numa ciranda infinita de amor.
*
... mas a outra que há em mim, aquela que tem todos os seus neurônios em forma de pequenos corações, aquela, que frente a mera menção do seu nome, fica sem ar, aquela que sai do rumo só pra seguir pipas pelo ar porque elas lembram você, essa, que não considera hipótese negativa alguma, essa que acredita no seu amor, e retribui, loucamente, ainda que em outra esfera, essa, meu querido, te vê de forma carinhosa, te espera sempre, e ignora todas as obviedades. Essa que sou eu também, é sonho, mas eu a prefiro. No mundo dessa outra de mim, você é verdadeiramente meu, e nossa história não tem fim. Essa, que eu gostaria de ser, ainda que tão mais louca e insana, dos atos que eu não suportaria carregar as consequências, te diria sem medo: